BoJack Horseman: Um retrato da condição humana entre Sartre e Schopenhauer

Fábio Camargo
Sep 8, 2018 · 6 min read

ATENÇÃO: o texto a seguir NÃO CONTÉM SPOILERS, pode ler sem medo :)

As primeiras tentativas que fiz de assistir a série animada BoJack Horseman, que dia 14 de setembro chega na sua 5ª temporada, não suportei mais que três episódios.

A narrativa parecia dispersa, o elemento absurdo dos animais antropomórficos não era explorado tampouco explicado e, principalmente, não achei graça nenhuma.

Por recomendação de uma amiga, peguei um dia para assistir com mais afinco e fui completamente absorvido pela história. Completei as quatro temporadas há um tempo e posso afirmar sem medo de se tratar de uma empolgação momentânea: ela é, de longe, a série animada mais profunda e genial que assisti até hoje.

Para quem ainda não assistiu ou, como eu, tentou e não gostou, faço um apelo: tentem assistir pelo menos seis episódios. Mas é imprescindível ter em mente que não se trata, de forma alguma, de uma comédia. Tem alguns elementos cômicos, como a hilária Margo Martindale dublando a si própria e zombando da sua condição de atriz-que-todo-mundo-conhece-mas-ninguém-sabe-o-nome, mas é tão somente para contrabalancear um pouco a densidade do todo.

O mote é bastante simples: BoJack Horseman é uma estrela de TV dos anos 90 que entrou em decadência e tenta voltar aos holofotes com o lançamento de uma biografia.

O motor da ação dramática é esse, mas a riqueza está no desenvolvimento dos personagens e nas relações; sejam elas familiares, profissionais, amorosas ou fraternas, que eles estabelecem. As fraquezas e as virtudes, todas expostas de uma maneira muito franca, humana e, sobretudo, verossímil. Nenhum personagem passa ileso ou é subaproveitado no que tange a exposição das suas fragilidades e angústias. Todos eles, hora ou outra, são mostrados extremamente vulneráveis. Mesmo os que foram apresentados como rasos ou fúteis, como o Sr. Peanutbutter, um cachorro que também foi estrela de TV nos anos 90 e estrelava uma série descaradamente baseada na do BoJack.

Acho difícil alguém assistir e não encontrar alguma angústia pessoal sendo verbalizada por algum dos personagens em algum momento, e isso não é ao acaso.

Procurando entender o estranho magnetismo que essa série teve sobre mim e, principalmente, porque diabos alguns personagens são animais antropomórficos, esbarrei em um conceito de narrativa teatral proposto pelo famoso dramaturgo alemão Bertold Brecht, o chamado ‘efeito de alienação’ (Verfremdungs-Effekt).

Em termos gerais, consiste em constantemente lembrar ao espectador que ele está diante de uma obra de ficção, evitando que ele se coloque como observador passivo de uma realidade simulada. Estamos diante de uma obra de ficção, e qualquer coisa que nos impacte só consegue fazê-lo porque nos remete a uma experiência vivida no mundo real. Muitas situações são absurdas, mas as reações emocionais e os conflitos internos são bastante realistas. Esse contraponto é o que faz o público sentir empatia por um cavalo alcoólatra com problemas de relacionamento com a mãe, ou por uma gata constantemente angustiada entre o desejo do reconhecimento profissional e o do estabelecimento de uma família. São conflitos muito comuns, que todos temos ou conhecemos alguém que tenha.

Focando no personagem central, podemos observar que os problemas que permeiam a vida do BoJack são frutos de uma infância marcada pela negligência e distanciamento afetivo (pra não dizer hostilidade) dos pais, e uma ascensão meteórica na vida adulta onde ele conquista fama, dinheiro e todas coisas que uma pessoa comum almeja. Antes de mitigarem o sofrimento, essas conquistas todas só catalizaram a sensação de vazio e de falta de sentido na vida. Só trouxeram mais sofrimento.

O BoJack busca alívio imediato no abuso de substâncias diversas. Mas esse paliativo, além de ter uma duração curta, podem levar a consequências bastante dramáticas, e a série mostra isso de uma maneira absolutamente devastadora.

A alternativa sustentável, e é disso que se trata a jornada do protagonista, é investir nas relações humanas, na criação de vínculos saudáveis e duradouros.

O grande entrave nessa empreitada é o próprio BoJack. Ele é egocêntrico, narcisista, pessimista, desleal, mentiroso, imaturo, imediatista. E esses são só alguns dos defeitos que fazem dele uma pessoa extremamente desagradável de se conviver, uma pessoa realmente tóxica.

Mas o que Sartre e Schopenhauer tem a ver com essa história? Bastante.


Sobre Sarte, existe uma citação que sintetiza bem a relação do pensamento dele com o show:

‘Não importa o que fizeram com você. O que importa é o que você faz com aquilo que fizeram com você.’

Sempre que o passado de um personagem é revelado, seja por uma breve menção ou um episódio inteiro, conseguimos compreender boa parte das suas atitudes. E isso até mesmo para os personagens mais hediondos, como a mãe do BoJack.

Se as atitudes são explicadas por uma série de traumas e vivências do passado, elas tampouco são justificadas por ele. Sobretudo porque as história não cai em um melodrama redentor, particularmente no que tange à mãe do BoJack.

Por mais difícil que tenha sido a nossa vida, enquanto ela não tiver acabado iremos nos deparar diariamente com uma porção de escolhas. Por mais limitado que seja nosso universo de escolhas, ele existe. E dentro dele temos um grau de liberdade que ninguém pode nos tirar.

É muito conveniente se eximir da responsabilidade de uma escolha e tratá-la como fatalidade. O paradoxo é que mesmo optar pela fatalidade é uma escolha. E quanto mais cedo tivermos consciência disso, melhor.

Toda jornada do BoJack é uma série de situações onde ele se depara com esse paradoxo. E se a série tem, em geral, uma abordagem pessimista, ela também tem um inesperado tom de esperança. Porque mesmo após o BoJack ter ‘estragado tudo’, ele segue se deparando com novas situações, e uma nova possibilidade de escolha.


Com relação ao Schopenhauer, ele basicamente atribui à vontade a origem de todo sofrimento.

Como falei anteriormente, boa parte da frustração do BoJack reside no fato dele ter conquistado uma série de coisas. Do ponto de vista do Schopenhauer, a conquista do que se deseja automaticamente elimina o valor do que foi conquistado, por isso a fama e o sucesso não são alternativas viáveis para aplacar o sofrimento .

Para mitigar esse sofrimento, segundo Schopenhauer, é necessária a anulação da vontade. Para tanto, o filósofo propõe três níveis de purificação: a estética, a ética, e a ascética.

A estética é basicamente através da arte, de uma contemplação tão profunda que a gente fique alheio a nós mesmos, que os objetos de desejo se diluem ante a essência das coisas e às idéias.

A ascética se volta para o as filosofias orientais, mais especificamente o budismo, no que tange a aniquilação do desejo.

A ética, aquela que é abordada na série, propõe uma tomada de consciência do outro, que somos um dentro daquilo que conhecemos por humanidade. Diluímos nosso ego (e nossos sofrimentos) a partir da tomada de consciência do outro e dos seus sofrimentos. A purificação do desejo se dá, dessa forma, através de um profundo sentimento de compaixão.

E essa compaixão profunda é o que o BoJack procura ao longo da sua jornada, essa aniquilação de um ego que a todo instante faz ele tomar decisões e atitudes que machucam quem o cerca. Além disso, num sentido mais amplo, é o que a série nos convida a sentir pelos personagens. E é nesse ponto que reside toda profundidade e genialidade do BoJack Horseman, em um nível muito acima do puro e simples entretenimento.


Existem muitos motivos para ficar empolgado com o anúncio de outra temporada, mas o principal deles é que muitos personagens ainda não foram abordados com a devida profundidade e, a julgar pelas temporadas anteriores, dificilmente iremos nos decepcionar.

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programador, empresário, cozinheiro, filantropo, ator, músico, poeta, tarólogo e dramaturgo: coisas que falho em ser mas sigo tentando

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