Boletim

Se me perguntassem se estava nervoso, eu diria que sim. Se me perguntassem se era minha primeira vez, eu diria que não. Já tinha ficado nervoso muitas vezes. Talvez o motivo para estar tão ansioso seja exatamente esse: muita Sessão da Tarde. A ponto de eu decorar sem problemas um diálogo de “Apertem os Cintos o Piloto Sumiu”. 
 
 Mas não. O culpado pelo meu nervosismo não era Sanka e sua equipe jamaicana de bobslead. Muito menos Daniel-San e seu certeiro chute da garça na final do torneio. Sem contar o policial (ou tira, como dizem dubladores) de origem austríaca, a paisana em um jardim de infância de Los Angeles. 
 
 O culpado era o vagabundo que facilmente perderia mais de uma tarde te contando pequenos resumos dessas pérolas do cinema dos anos 80 e 90.
 
 Era o dia de entrega de boletim. Nada inédito na minha vida. Pelo ginásio já tinha recebido dezenas de outros. Uns ruins, outros péssimos. Mas todos salvos aos 45 para me empurrar com um rasante rumo ao próximo ano. E o problema era justamente esse. O motivo para me salvar de um boletim vermelho, além claro do meu próprio lombo, era conseguir chegar ao próximo ano. Como um naufrago que nada para a praia mais perto e sempre chega, pálido, ofegante, semi-morto, mas chega. 
 
 O problema que agora, não era só mais uma ilhota cujas praias deveria beijar aliviado. Era um continente inteiro. Com uma metrópole coberta de arranha-céus e sirenes de polícia pela madrugada afora. Meu primeiro boletim na Era do Colegial. Daqui, ia para o mundo. Se mandasse mal, ainda com sorte meu destino seria encaminhado para uma faculdade ruim. O que levaria a um trabalho ruim — desses que faz você querer que o Domingão do Faustão nunca acabe.
 
 Teria uma vida sem histórias memoráveis, dignas de uma Sessão da Tarde. Sem dar sequer um chute da garça ou me arriscar ladeira abaixo em uma pista de gelo. 
 
 E sabe o que era pior? Não foi preciso nenhum sermão de mãe para perceber isso. Fatos dolorosos que você compreende sozinho sempre ardem mais.
 
 Mas se eu tinha plena consciência do que estava em jogo, por que deixava as coisas chegarem a esse ponto? Era a pergunta que ardia antes mesmo desse primeiro trimestre começar. 
 
 A resposta era tão previsível quanto minha média final em Matemática. Estava paralisado de medo de encarar o futuro. Caindo em um poço sem fim, tentando me agarrar às paredes, depois de ser empurrado pela ponta da lança da vida adulta.
 
 Poderia dizer tudo isso a um terapeuta, por que com minha mãe não colaria. 
 
 No fundo, eu sabia. Eu era um preguiçoso dos infernos. Ou esperto? Por que querer tudo — a nota boa, a garota, as experiências de vida mais incríveis — com o mínimo esforço pode muito bem ser visto como eficiência. Afinal, o que é uma máquina de costura se não um atalho para não perder dias costurando uma calça? O problema é que o inventor dessa máquina provavelmente dedicou bem menos horas do que eu ao que a Sessão da Tarde no seu tempo.
 
 A verdade é que planejar como perder meu BV era mais desafiador que a Terceira Lei de Newton. E a Sessão da Tarde, bem mais legal do que entender o que era o Complexo de Golgi.
 
 Os boletins eram entregues por ordem de chamada. Uns arrancando risos de alívio. Outros choros presos com esforço na garganta. Eu esperava o meu tranquilamente, com a serenidade de um prisioneiro no corredor da morte.
 
 Tinha chegado minha vez. Enquanto caminhava para a frente da sala, Neto, Lorpa e Guto balançaram um sim lento com a cabeça. Uma última reverência ao companheiro de batalhas que caminha para a forca. Gessy entregou o boletim com um meio sorriso, acompanhado de uma perigosa testa franzida. Dei dois passos para o lado, abrindo espaço para o próximo condenado amarrar seu nó. Deslizei o boletim de dentro de seu envelope marrom-claro. 
 
 Uma sequência de notas ligeiramente acima da média. Geografia, História e Educação Física, subindo lentamente como uma montanha-russa que acabou de partir. Até que ela veio. A esperada descida, brusca e torcendo meu estômago do pior modo possível: com recuperação em Matemática e Química. Seguido de uma subida que colocou Física na média. 
 
 Era certo que matemática seria um desastre. Mas Química também? Eu tinha estudado por longas horas a tarde! Antes de cada prova. Dando risada de bilhetinhos e desenhando pintos nos cadernos dos meus amigos quando eles se distraíam. Mas estudado, e bastante. Talvez esse tenha sido meu erro. Achar que conseguiria passar na matéria que a professora reprovou quase metade da sala. 
 
 “Você não é todo mundo” — a resposta do Conselho Universal de Mães já ecoava em automático. 
 
 Por quanto tempo poderia segurar a notícia da chegada desse envelope? Dias, semanas? Quem sabe mais três meses, tempo suficiente para recuperar as notas e fazer que nada disso aconteceu. Um plano arriscado, mas possível. Agora que não tinha mais meu irmão para desfilar seu boletim impecável e lembrá-la do desastre que era o meu, pode ser que conseguiria sobreviver voando debaixo do radar. 
 
 Quem eu estava enganando? Seria esfolado antes de por a mesa do jantar. 
 
 Dividir a desgraça com seus amigos é só um mertiolate que não arde. Você continua esfolado, arrependido pelo tombo que poderia ter evitado. Neto tinha pego de Inglês. Guto, de Literatura. E Lorpa, de absolutamente nada. Uma lição a ser tirada dos que desenham menos rolas pelas folhas dos outros.
 
 O resto da manhã se arrastou, com meus cotovelos fincados na carteira e o tédio apoiado na palma da minha mão. Com minha auto-estima adormecida pelo choque de realidade. 
 
 Tinha prometido que o Colegial seria diferente no momento que deixei meu uniforme na gaveta. Que um novo Edu ia surgir. Focado em fazer as coisas acontecerem. Com o nome em uma lista de aprovados no vestibular no longo porém curto período de três anos.
 
 Mas tirando saber o que é encher a cara, o que mais de novo tinha aprendido? O que tinha mudado? Absolutamente nada.
 
 Precisava fazer algo a respeito. A partir de agora seria diferente. Já tinha lição de casa para fazer, coisas para estudar. O que precisava era de disciplina. Imposta por seu maior beneficiário: eu mesmo.

Cheguei em casa determinado. Esse boletim cagado era mais que a gota d’água, era um sinal. Uma mensagem de um Eduardo do futuro, que desceu do seu DeLorean para dizer que deveria tomar minha vida pelas rédeas e mudar as coisas antes que fosse tarde demais. 
 
 Esquentei meu almoço no microondas e comi direto do tupperware. Não havia um segundo a perder. Além de uma coisa menos para lavar. 
 
 Sentei no sofá para uma rápida digestão. Uma pausa curta, cronometrada. O suficiente para deixar meu cérebro ainda mais potente, sem nada que o lerdeasse. Estava determinado. Deixei a TV baixinha, despedindo dela enquanto ignorava as vinhetas para programação da tarde: um ninja com sobre-peso que manejava um par de nunchakus.
 
 Ia mudar minha vida. Ser de fato um estudante do decisivo colegial, acima das piadas idiotas, das paqueras que mal tinha, das festas que gostaria muito que fosse convidado. Se conseguisse ser determinado em não pegar mais recuperação, em passar em uma faculdade boa, o resto seguiria.

Ia ser tudo isso, assim que terminasse de assistir “Um Ninja da Pesada”.

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