Cai a máscara

Coisa triste de ser ver é a degradação de alguém a quem se tinha em certa conta. Mas quando isso toma a forma de uma queda de máscaras, converte-se numa sensação de libertação de fantasmas e de conhecimento sobre quem as pessoas realmente são.

Desde o começo do ano, segundo recordo de maneira rápida, Reinaldo Azevedo não teve muita cortesia em expor suas divergências com o professor Olavo de Carvalho em relação à atual crise política brasileira. Todavia, o dissenso logo se transformou em campanha selvagem de ataque e difamação por parte do blogueiro da Veja, culminando neste artigo lamentável, indigno de alguém que se pretenda sério.

Não procederei como deveria, decompondo o artigo e refutando suas teses porque isso é, a rigor, impossível. Não se podem refutar insultos vulgares, não se contra-argumenta o não-argumento. E disso se compõe quase todo o texto do “Tio Rei”, já a mostra no título, que usa de um expediente infantil para atacar o filósofo e seus admiradores (só crianças acham que chamar alguém de “feio, sujo e malvado” é argumentar de maneira fulminante). Não faltam, claro, mentiras deslavadas, como a de que “a filosofia de Olavo de Carvalho foi amplamente refutada pela realidade” (Onde? Quando? Como? Por quem? Cadê as provas?), a de que ele “sempre defendeu uma intervenção militar” (criticou os intervencionistas várias vezes, tornando-se pouco querido por eles), de que “quase ninguém o conhece” (mesmo assim, é autor de best sellers e tem milhares de alunos e seguidores nas redes sociais, como pode isso?), “serve à candidatura de Jair Bolsonaro” (não sabe distinguir de uma análise da realidade política de uma torcida partidária, o porta-voz do PSDB?), ou de que “é movido por rancor, fel e melancolia” (isso era para ser roteiro de um filme de terror B?).

Entretanto, quero deter-me nesses dois últimos pontos. Sei que não é lá um bom método de proceder na análise de ideias ou do que quer que como tal se apresente, mas, tendo em vista o tipo de pessoa com quem estamos lidando, alguma incursão psicológica se faz necessária, além das inevitáveis considerações políticas.

Não é novidade para ninguém que o governo Dilma Rousseff começou a deteriorar-se pouco depois da reeleição da petista, com o estouro da crise e a revelação de que a situação econômico-financeira do país estava muito pior do que se imaginava. Três meses após a posse, correu a primeira grande manifestação popular contra o governo, seguida por outras alguns meses depois. O deterioro da economia, a crescente deslegitimação do poder petista, os sucessivos escândalos de corrupção a Operação Lava-Jato lenntamente deram cabo do governo federal, que perdeu apoio político de uma maneira há muito não vista no país.

Poderia se esperar que esse processo tivesse como consequência o fortalecimento dentre a população da oposição “oficial” ao PT, o PSDB. Entretanto, o que se viu foi exatamente o contrário: com exceção de políticos de expressão regional (como o senador Tasso Jereissati), os próceres do tucanismo foram rejeitados e desprezados pelo povo nas ruas (um matéria da revista Época mostrou que a popularidade de Aécio Neves caía vertiginosamente com o passar do tempo). Concomitantemente, uma figura política crescia a olhos vistos, pelo menos para quem estava nas ruas e acompanhava as coisas em primeira mão. Goste-se ou não dele, o deputado Jair Bolsonaro foi praticamente o único político que conseguiu emergir forte das manifestações e ser visto como uma alternativa para um povo já cansado das mesmas figuras e dos mesmos partidos no poder há mais de duas décadas.

Bolsonaro, com seu politicamente incorreto, seu nacionalismo e sua admiração pelas Forças Armadas, é a antítese do que Reinaldo Azevedo considera como um político decente. Ele em nada se parece com FHC, José Serra, Geraldo Alckmin ou Aécio Neves. Ver que seus heróis não conseguiram capitalizar o descontento popular contra o PT foi, decerto, um golpe muito duro para o autor de “No País dos Petralhas”, algo realmente inaceitável.

Além disso, quem prestou atenção às manifestações viu claramente a influência de Olavo de Carvalho no processo que revelou aos brasileiros a verdadeira face do PT e a necessidade de reagir. Em São paulo, Rio de Janeiro, Fortaleza, Salvador, Porto Alegre, Brasília ou Belém, centenas de pessoas carregavam cartazes e camisas referentes ao autor de “O Jardim das Aflições”, homenageando-o efusivamente, além de mencionarem o Foro de São Paulo, que só se tornou conhecido no Brasil graças ao trabalho de Olavo de Carvalho por anos a fio. Queiram ou não, gostem ou não, a importância dele para a atual situação de reação político cultural é inegável, como muito bem escreveu meu amigo Eduardo Levy. Nada do que se passa seria possível sem o trabalho dele.

Quem acompanha o blogueiro de Veja há algum tempo já percebeu que o mesmo padece de um ego demasiado inflado, um senso hipertrófico da própria importância e um amor pela opinião do mundo além do recomendado. Ver que um filósofo sem diploma, sem cargos em jornais importantes, sem o suporte de nenhum partido ou potentado das finanças conseguir tanto êxito onde outros mais avantajados falhavam foi, sem sombra de dúvidas, fatal para o Tio Rei. Ver que ele tinha um papel pequena enquanto que o filósofo radicado na Virgínia era homenageado por milhares, que há anos se socorrem dele em busca de conhecimento e de orientação intelectual, ver que ele tornou-se a referência para o aparecimento de uma direita política hoje em dia teve o efeito de uma ofensiva poderosíssima contra o ego do blogueiro. Foi como se um samurai habilidoso, munido apenas de sua katana, partisse a armadura do inimigo, trazendo à luz a pequenez antes escondida.

Tio Rei não suportou. Disparou a difamar o filósofo, atribuindo-o pensamentos e ações falsas e macaqueando os chavões de velhos desafetos do escritor campineiro, tanto da esquerda como de — vejam só!- de fascistóides e eurasianos. Claro que não se pode excluir das possíveis motivações do jornalista a de prestar serviço ao PSDB, partido muito criticado por Olavo mas defendido de maneira férrea por Reinaldo. Para isso ele não se vexa nem de se contradizer brutalmente pois, até certo tempo atrás, recomendava os livros do filósofo, se referia a ele nos termos mais elogiosos e era tido por Olavo como um amigo. Muy amigo!

A máscara caiu. Reinaldo Azevedo assumiu sua verdadeira forma: a de porta-voz do tucanato na mídia, e de quem para promover seu partido, não recua em nada, seja em difamar alguém que tinha como amigo, seja mesmo a de cruzar a linha que separa a excentricidade do ridículo.

Segue o jogo.