Ouse perguntar

Mulher Chorando (Pablo Picasso, 1937)

Misael abriu os olhos quando sentiu que a umidade do orvalho já havia penetrado em sua roupa e atingido sua pele. O gramado da colina era como um carpete prateado por causa dos raios do sol daquela manhã de inverno atingindo o orvalho. Misael respirou fundo e se levantou. Ficara deitado por poucos segundos. Na sua imaginação, deitar-se ali o ajudaria a refletir. Não funcionou e ele ficou decepcionado. Sacudiu o casaco e voltou para a fogueira apagada aos pés da colina onde Eleanor, com um graveto, se esforçava para encontrar brasas acesas entre as cinzas. Da boca dela ainda escorria sangue. Misael se aproximou tirando do bolso do casaco alguns dentes e os jogou nas cinzas que Eleanor revolvia. “Não vou mais fazer o colar.”

Misael caminhava com passos lentos. Dessa vez, ele deveria pensar numa outra punição. Para ele, já não havia mais nada que ela pudesse lhe oferecer. Pegou a bolsa de pano que estava pendurada num galho fino e, antes de chegar à charrete, decidiu voltar à Eleanor, que permanecia agachada diante do monte de cinzas. Empurrou-a e arrancou-lhe os sapatos e as meias. Subiu na charrete e desapareceu na curva assim que passou pela gameleira. Eleanor sabia que era a hora de voltar para casa. O cascalho da estrada cortou seus pés descalços ao longo da caminhada. Seu vestido estava rasgado e seus braços descobertos. O sol estava a pino. Foi direto para a talha matar a sede, mas antes que pudesse pegar a água, encontrou Misael afiando uma navalha. “Precisamos livrar você desses piolhos”.

Eleanor soltou a cuia com a qual pegaria água na talha, tentou se afastar, mas Misael já havia se levantado e caminhava em sua direção. Ela tentou correr, mas os pés machucados a traíram e fizeram com que caísse, mais uma vez vulnerável. Misael segurou-a pelos cabelos e a arrastou para o degrau que dava para o jardim. Eleanor tentou se soltar. Chegou a arranhar, com suas unhas mal lixadas, os braços de Misael, mas não o deteve. Ele a prendeu entre suas pernas e o grito dela não pode sair. Começou a cortar mexas espessas da mulher que, quando conseguiu mexer-se bruscamente, fez com que Misael cortasse a própria mão. Com a dor, ele a empurrou com os pés fazendo com que ela caísse no canteiro dos crisântemos multicoloridos. Eleanor se agarrou às flores que alcançava para aliviar sua dor ao mesmo tempo que queria que aquele fosse seu sepulcro. Misael surgiu carregando a talha cheia e a atirou na direção de Eleanor que quase foi atingida. O vasilhame se despedaçou e a água fria atingiu o rosto dela misturando-se a suas lágrimas. Misael chupava o sangue que escorria do corte em sua mão. “Mate logo sua sede e volte para dentro”.

Eleanor ainda ficou deitada no canteiro de crisântemos multicoloridos por vários minutos. Sujou-se com o húmus que alimentava as flores e se lembrou de como havia sido bela. Não se reconheceu ao olhar para as mãos estouradas, ao sentir a boca inchada e ao enterrar os pés machucados na lama formada pela água da talha. Ao se levantar, trêmula e fraca, tentou arrancar o vestido rasgando-o pelo buracos que já existiam nele. Gritou com a última força que lhe restava. Um grito de dor, de desespero, de tristeza e, acima de tudo, um grito de arrependimento. Estava nua. Suja. Misael se aproximou montado no cavalo que puxara a charrete. Mordeu o tomate que segurava fazendo com que o caldo escorresse até seu cotovelo. Jogou o resto no chão, ao lado de Eleanor. Ainda montado, pegou-a e forçou que ela se sentasse na garupa. Ela não teve escolha senão segurar em sua cintura. Cavalgaram até a praça da igreja onde Misael derrubou Eleanor. O sol forte havia transformado o orvalho do chão numa poeira que se espalhou quando Eleanor caiu desacordada sobre ela. As beatas que saiam do templo fizeram o Sinal da Cruz ao ver a mulher caída. Os bêbados na praça riam e as crianças na rua pararam sua brincadeira e observavam curiosas. Misael pegou Eleanor pelo braço e a arrastou até a porta da igreja. Agachou-se e segurou-a pelos poucos feixes de cabelo que ainda restavam na nuca fazendo com que seu rosto se voltasse para a direção do altar. “Está na hora de confessar seu pecado”

Misael acabara de pronunciar seu ultimato a Eleanor ao que ouviu os passos apresados e um pouco contidos pela batina de Benício atravessando a nave da capela. Sem dizer palavra alguma e sem sequer olhar para o homem diante de si, Benício tomou Eleanor em seus braços e a colocou apoiada em seu ombro. Impávido como as esculturas góticas que o observavam em ato tão heroico, ele levou a mulher para um dos bancos de madeira maciça onde cuidaria de seus ferimentos e a alimentaria. Porém, ao recobrar um pouco da consciência e se deparar com a expressão piedosa do sacerdote diante de si, Eleanor sentiu a adrenalina do medo percorrer seu corpo mais uma vez. Tentou se soltar das mãos fortes de Benício que a forçou ir até a pia batismal. “Vou te purificar de seu pecado”… Tendo assistido a toda cena, paralisado, como se não pudesse adentrar no ambiente sagrado, Misael apenas cuspiu seu asco à porta e desapareceu para sempre em seu cavalo.