Empreendedorismo x Oportunismo

Por Fernando Casanova

Resolvi escrever. Sem me estender muito, penso demais, falo demais entre os amigos e os alunos e na maioria das vezes registro de menos. Um artigo hoje do Rubens Aguiar me fez refletir sobre como eu poderia contribuir com uma visão um pouco diferente. Então, vamos lá. Vivemos um momento oportuno para reflexões.

Eu vivo atualmente inserido num Ecossistema Empreendedor e de Inovação. Estou no meio de muitas coisas que acontecem nesse quesito aqui pelas bandas de Minas Gerais, mas podemos ampliar essa conversa e exemplos para o Brasil inteiro. Programas de governo, pré-aceleradoras, aceleradoras, incubadoras, startups, pitch, MVP, demoday, investimento. Caramba! Há quantos anos não vemos um ambiente tão próspero! É realmente um momento incrível!

É impossível negarmos que tudo o que está acontecendo aqui no Brasil é ótimo, e apesar das questões políticas e econômicas, o momento é interessante e fértil. Mas mesmo assim, que tal pararmos pra refletir só um pouquinho?

O processo todo entre ter uma ideia incrível, juntar o pessoal, empreender, fazer uma forcinha e decolar se apresenta de uma forma tão fácil e simples, que beira o encantador. Seguindo alguns passos, o sucesso é praticamente garantido. E quem aqui não quer ser o próximo Uber?

Pelo que eu vejo, todo mundo entrou num modelo indexado e se esqueceu que empreendedorismo está entre nós humanos há muito tempo. Pra começar a discutir gosto de exemplos próximos pra dar materialidade às minhas ideias. Meu avô, o Sr. José Casanova saiu lá da região do Porto em Portugal na década de 20 e veio para o Brasil procurando oportunidades. Chegou aqui, juntou uns cobres e abriu uma sapataria junto com os primos no centro de BH. Ai eu me pergunto: Qual era a dor do mercado? Qual o modelo de negócio? Era um modelo escalável? Entendo e concordo que o mundo mudou, que evoluímos, que novos modelos de negócio em função da internet surgiram, mas empreender sempre foi empreender, independente do momento. E a sapataria do vô, deu errado? Depois de um tempo deu sim e ele acabou saindo da sociedade.

Empreender tem a ver com dar a cara a tapa. Vai doer? Vai. Vou sofrer? Tomara! porque é assim que vai aprender. Mas assim como o Merthiolate que deixou de arder, todo mundo agora espera a solução e o modelo exato de como transformar aquela ideia incrível (como se só poucas pessoas tivessem boas ideias) e ganhar muito dinheiro em pouco tempo. Sem dor.

As fórmulas, os modelos e os toolkits do empreendedor estão ai pra todos. Mapas demostrando o caminho da realização existem aos montes. Todo mundo quer saber qual é o pulo do gato, como se o pulo do gato fosse algo a ser ensinado.

Jump Of The Cat

O que eu vejo é que uma grande parte das pessoas nesse ecossistema assimilou estas verdades e esses modelos sem contestar absolutamente nada. Desta forma nós temos então um pacote imenso de soluções prontas para o empreendedor. Lean Startup (como processo) e o 4 Steps to Epiphany (como referência) são incríveis, mas alguém parou pra pensar que os modelos e as experiências de sucesso do Vale do Silício são fantásticos, mas aplicados no Vale do Silício?

"Ah! Mas o povo brasileiro é um povo empreendedor!" É sim, mas na maioria esmagadora das vezes por necessidade. Vamos ser só um pouco críticos! 
Não temos uma cultura propícia pra isso, não temos educação empreendedora, não temos políticas estruturais de governo e queremos assimilar um pacote de modelos de sucesso do Vale do Silício? O Vale do Silício é um ambiente planejado e que tem quase 70 anos! O empreendedor americano não é igual ao empreendedor brasileiro.

Não quero radicalizar, e sim, existem realmente exceções. Temos muitos empreendedores, startups e modelos interessantes por aqui. Mas o que eu tenho visto no geral é um ambiente muito propício, mas para o oportunismo e não para o empreendedorismo. Muita gente que não sabe ainda o que fazer da vida acredita que ter uma startup é uma forma rápida de sucesso e de ganhar dinheiro.

E por que então, do dia pra noite, ficou mais fácil empreender?

Porque agora temos a receita do bolo!

Receita para o sucesso?! Na mente dos oportunistas talvez. Já que é só seguir a cartilha que te entregam, pegar uma ideia que pareça interessante e tentar transformá-la em um negócio. Parece realmente fácil: Modele seu negócio, defina seu cliente, teste, faça seu MVP, pivote se for necessário, apresente a sua ideia para um grupo de investidores e pronto. Mas vai lá fazer! De verdade.

Eu queria muito ter acesso a alguns dados (se alguém tiver, compartilhe por favor). Qual será a taxa de mortalidade de startups nos últimos 4 ou 5 anos? Muita energia têm sido mobilizada, mas e os resultados?

O que precisamos realmente compreender é que esse modelo empreendedor incrível, secamente e diretamente falando, se consolidou como uma estrutura baseada em conseguir um Modelo de Negócio pseudo-inovador pra se tornar atraente para um investidor. O que cá entre nós, não difere muito de um produto bancário, não é?

Mas e o propósito da organização?! E o por que de estarmos fazendo isso tudo? E o sonho do empreendedor?!

Não acredito em consenso. Acredito só que é necessário discutir para evoluir. Acabamos criando esse ambiente que é muito propício para os oportunistas e esquecendo um pouco daqueles empreendedores sonhadores, daquelas pessoas que acordam bem cedo, que acreditam que o que querem fazer pode ser bom pra eles e para os outros. Aqueles que tem um propósito de verdade. Eles talvez não se enquadrem nesses modelos, e são eles que possuem, do meu ponto de vista, o potencial para realmente criarem um negócio impactante.

E será realmente, que para se ter uma startup de sucesso (sabe-se lá quais as métricas podem ser usadas para avaliar isso) é preciso seguir a um determinado modelo? Acho que é hora de parar pra pensar. O momento é incrível, existem sim várias oportunidades, mas o ambiente é ainda muito instável e lidamos com uma miríade de variáveis.

E então, o que fazemos?! Ah! Eu não tenho a resposta pra isso tudo, quem dera! Sou só mais uma pessoa a fim de discutir ideias e conversar. Mas vou escrever mais!