
Reflexões e Analogias sobre um Ecossistema e seus Poluentes.
Dia destes andei trocando ideia num outro post aqui sobre uma visão particular em relação aos modelos, processos e receitas de bolo do ecossistema de startups no Brasil. Nesta resenha que foi bem ampla, acabei tocando em alguns pontos que me trouxeram boas reflexões e algumas analogias interessantes destes modelos. Então resolvi aprofundar um pouco mais e desdobrar a discussão.
Acredito sinceramente que vivemos um momento impar. Aqui no Brasil demoramos um pouco para entender o que estava acontecendo no mundo em relação às startups, mas rapidamente assimilamos e muita coisa interessante tem acontecido. O ecossistema vêm se expandido rapidamente e várias oportunidades e iniciativas têm surgido, inclusive governamentais. Em função deste bom momento, logicamente têm surgido boas startups.
Se a priori é bom pra todo mundo, onde estaria o problema? Logicamente que num ambiente que envolve grandes quantias, investimentos e bastante ego, surgem pessoas e interesses um tanto quanto perigosos. É importante que o próprio ecossistema se regule e tome os devidos cuidados para que essas pessoas não contaminem um ambiente tão próspero.
A Corrida do Ouro
Uma analogia interessante que discutia outro dia com um amigo, é que esse ecossistema acabou se tornando uma grande corrida do ouro. Vale a pena lembrar que na corrida do ouro, existem mais coisas entre um garimpeiro, o ouro e a riqueza do que pode parecer. Temos os que garimpam e ganham dinheiro, os que garimpam e não ganham, os que só se sujam de lama e os vendedores de pás. Estes são aqueles que ganham dinheiro explorando a periferia da mina. Pelo que tenho visto, tem muita gente garimpando sem achar nenhuma pepita e pra piorar tem mais gente ganhando dinheiro vendendo pás do que gente ganhando dinheiro com o ouro.
Esse vendedor de pás, no meu ponto de vista, é um dos personagens-chave responsável por grande parte da poluição que vem aos poucos atingindo o ecossistema. Até agora são dois os principais personagens: Os aproveitadores querendo vender fórmulas de sucesso e ganhar dinheiro vendendo promessas e os oportunistas travestidos de empreendedores. Esses, achando que empreender e ficar rico é mais uma questão de sorte, povoam o ambiente com ideias de startups mirabolantes para serem vendidas por milhões, com baixíssimo esforço.
Produtos Bancários sem Lastro
Deste personagem oportunista surgiu outra analogia que também serve como uma boa reflexão. Tem a ver como a forma que esses entendem o que é uma startup. Boa parte delas acaba caindo no insucesso, por que ao invés de ter nascido com um propósito, tem só um objetivo: Desenvolver um produto, receber um investimento e ser vendido.
Um produto bancário (CDB/LCA/Fundo de Investimento/Fundo de Ações, etc…) é um produto projetado visando captar recursos de um investidor. Neste caso é projetado algo específico para cada perfil, proporcional aos valores de investimento e aos riscos. Investir no mercado de ações por exemplo tem lá seus riscos, mas o risco é proporcional a possibilidade de remuneração e lucro.
Então, alguma vez você já teve a oportunidade de parar pra refletir que boa parte do que vemos hoje é uma manada de empreendedores de produtos bancários?! Um percentual grande de startups que eu já tive contato têm bem traçada a sua estratégia — ser vendida ou absorvida por um investidor ou quem sabe outra empresa. O trabalho destes empreendedores é criar um modelo, estruturar uma estratégia e trabalhar com dados para convencer um investidor a colocar seu dinheiro esperando um retorno pseudo-projetado.
Investir numa startup tem risco maior do que investir na bolsa de valores. Com um revés ainda pior — lembrem-se que ao contrário do ambiente de investimentos tradicional, nesse ambiente de startups boa parte das vezes não lidamos com profissionais.
Poluição e Sujeira que Contaminam
O reflexo dessa sujeira no ecossistema é uma grande quantidade de startups rasas, sem propósito e que consequentemente não possuem valor para entregar. Negócios voláteis que foram projetados com o intuito de ganhar dinheiro. Algumas vezes essa estratégia até pode dar certo, mas na maioria das vezes já sabemos mais ou menos qual é o destino. Quantas dessas startups são natimortas?
A reflexão dessa vez passa por ai. Já que o ecossistema é realmente o nosso presente e será boa parte do futuro, precisamos zelar para que esses elementos poluentes e essa sujeira não contaminem de vez o ambiente e façam com que essa oportunidade seja em parte perdida.
Podemos perder principalmente muitos bons empreendedores, que acabam sendo sufocados por um ambiente sujo e povoado por esses personagens. Mas continuo acreditando que quem deve regular e preservar o ambiente é o próprio ecossistema. Temos muito a ganhar e a perder, vale a pena observar!