Matheus está morto.
E se te dissessem que eu morri?
não da forma mais comum, não por homicídio.
De uma forma um pouco incomum,
foi por suicídio.
Não me pendurei numa forca,
não cortei meus pulsos.
Cortei meus impulsos,
e assim perdi minhas forças.
Não foi suicídio, de uma forma geral,
eu só desliguei minhas atitudes pro mundo,
e tudo se desligou, de uma forma normal,
assim, guardei minha mente num tubo.
Daqueles de ensaio, sabe?
E mandei pra um cientista, pra ver se eu tava louco,
e de pouco em pouco me livrei do meu corpo,
assim, virei só ideia.
Meus costumes, viraram memória,
assim como aquele nosso dia na praia, ficou pra história,
você tava tão linda, brincando no mar,
ainda não sei como evitar me encantar, sei lá.
Tentaram te ligar pra avisar
“Matheus está morto”, mas evitaram falar,
“Ele fugiu de casa e não sabemos onde foi parar”
mas se nem eu sabia, pra que problematizar?
Por mais que não soubesse onde iria parar,
aprendi que algumas vezes você só precisa olhar pra frente
e andar, andar, andar,
até o momento em que o teu horizonte se mistura com o mar.
Me perdi de novo,
na ideia de não ser mais garoto
e ser só, sei lá, um espectro.
Parece até a ideia de algum esperto,
deixar de viver nesse mundo ruim,
de ver as coisas assim,
só pra entender o sentido de “ser”, um pouco mais de perto.
“Mas Matheus está morto, não vou falar de novo,
é só parar de remoer, e esquecer o garoto,
que ele vai esquecer também, como sempre faz,
virou apenas ideia e não vai voltar atrás.”
Escapei das garras da morte,
acho que até tive sorte,
e me dedicar ás pessoas não é meu ponto mais forte,
mas me dedicar á você me deu um norte, eu acho.
Matheus não está morto, ele só foi esquecido,
como uma mulher, que depois do divórcio, esquece seu marido,
mas acho que, diferente disso,
eu nunca vou me esquecer do dia em que caminhamos no campo florido,
ficou pra história,
nas melhores memórias,
de quem virou só ideia.