Sobre o tempo…

Aquele pequeno e sublime momento foi capaz de desfazer toda a raiva e peso que trazia no peito. Eram seus últimos cinco minutos de vida ou seriam os seus primeiros cinco minutos de uma vida que sempre sonhou?

Olhou no relógio e começou a contar o tempo. Reparou em como o ponteiro andava por vezes rápido e por vezes lento. Pela primeira vez teve uma sensação de paz e desapego de tudo aquilo o que o tornava pesado e velho.

Percebia que não era o ponteiro do relógio que começava a fazer sentido, mas toda a sua vida. Todas as tristezas se foram e a alegria de estar vivendo de verdade mesmo que por pouco tempo o tiraram daquele estado de letargia em que sempre vivia.

Havia ganhado um minuto da sua vida observando atentamente o andar e o parar. O som do ponteiro e a pausa para o próximo movimento, revelaram o quanto a sua vida poderia ter se tornado melhor se ele reparasse mais nas pausas ao invés de querer preenchê-las com sons que não vinham de sua alma. Um minuto e meio e percebeu o tempo se contrair para dar à ele a chance única de ser o protagonista da sua história.

Sentiu-se grande, poderoso e logo começou a declamar todo o amor que sentia por ela, mesmo sabendo que jamais a veria de novo. Atuou, atuou e o tempo continuou lento e calmo só para deixar ele mais a vontade em sua última atuação. Aos dois minutos e meio já estava dançando com ela a música que nunca teve a chance e falou ao seu ouvido todo o amor que tinha dentro dele, ele era o amor, nada mais. Enquanto entoava todas aquelas consonâncias, percebia como tudo sempre esteve dentro da sua alma, mas não se arrependeu e continuou.

Três minutos e quinze segundos, o tempo às vezes dava pulos e voltava a ficar lento. Entendeu que ele era o tempo de si mesmo e agora não precisaria mais ter que contar. TUDO VALIA A PENA!

Estava em estado de alma e via o tempo como um brinquedo de montar. Aprendeu a enxergar cada cantinho daqueles milésimos de segundo e assim conseguiu viver de vez toda uma vida que sempre quis. Já não sabia mais se era a vida ou a morte que o levava, só sabia sentir e manejar a direção do momento presente.

Aprendeu a sentir tudo de uma só vez o que não vinha sentindo a muito tempo. Agora já não fazia mais sentido aquele relógio, pois encontrou nele próprio o sentido de não precisar mais significar nada para si e nem para os outros. Misturou-se àquele tecido fino e invisível que as pessoas costumam dividir e viveu para sempre!

Francisco Dalsenter

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Francisco Dalsenter’s story.