Bolsonaro , o medo e a ignorância.

Fernando Oliveira
Sep 3, 2018 · 5 min read
Foto de Diego Vara/Reuters — Retirada do site www.thetimes.co.uk

Nas últimas semanas conversei com muitos conhecidos que pretendem votar no Bolsonaro. Apesar das grandes diferenças, acho importante conversar com quem está próximo pra discutir essas coisas e sempre com respeito, num primeiro momento não assumindo que essas pessoas que passaram pela minha vida são inimigos ou gente desprezível por conta de suas opiniões políticas.

Foram conversas interessantes e pra mim ficou evidente que essas pessoas estão tomando decisões por absoluto medo e ignorância, uma combinação perfeita para a proliferação desse tipo de candidatura.

Essas pessoas estão se sentindo acuadas em relação a violência que vivemos no Brasil e eu concordo com elas que esse é um dos principais problemas do nosso país. Eles estão certos e precisamos de soluções urgentes, não dá mais pra viver dessa maneira.

Porém a violência é sintoma de coisas muito mais profundas e aí que começa a divergência e onde o medo e a ignorância se manifestam.

Essas pessoas morrem de medo de tomar um tiro na cabeça, de serem assaltados, de ter pessoas próximas estupradas. Sim, isso não é incomum no Brasil e para eles, as pessoas que cometem esses crimes devem ser eliminadas da sociedade. Devem ser mortas sumariamente, castigadas ou no mínimo presas pela vida toda. Não estão interessadas se isso vai resolver ou não o problema, querem punição, castigo e foda-se. Nada mais importa.

Acontece que crime se combate com inteligência. Com tiros e prisões também, é claro, mas tiro e prisão sem inteligência é dinheiro e vida de policial jogada no lixo.

Inteligência investigativa mas também inteligência para fazer jovens trocarem as armas por uma vida digna, com esperança no futuro e no país que vive. Que veja oportunidade de viver com o mínimo necessário, que seja tratado como gente.

Inteligência para enfrentar os privilégios que alguns grupos sociais têm em nosso país e defender que a riqueza gerada por todos e todas seja dividida da forma mais justa possível. Não é possível acabar com a violência enquanto tivermos os 5% mais ricos concentrando a mesma quantia em dinheiro que 95% da população.

Se não houver sabedoria para acabar com a violência chamada pobreza, ao mesmo tempo que se utiliza inteligência para combater corrupção, tráfico de armas, drogas, não vai ser tortura ou policial condecorado por matar que vai adiantar alguma coisa.

Mas para Bolsonaro e seus eleitores isso é papo furado. O importante é corpo no chão e cada um com uma 9mm na cintura.

Há também o medo das transformações que o mundo vem passando. Qualquer coisa que seja diferente do que viveram é estranho e isso deve ser combatido com toda energia. É o medo por se sentir ameaçado por mudanças.

Se sentem ameaçados por verem duas pessoas do mesmo sexo tendo relações afetivas, digo, de mãos dadas, se beijando ou assumindo suas orientações sexuais sem se sentirem constrangidas. Na verdade quando são dois homens. Duas mulheres geralmente não tem muito problema, já que até consomem esse tipo de fetiche nos sites de pornografia.

Ficam absurdamente incomodados ao verem gays na televisão, nas ruas ou em qualquer canto. Não são capazes de compreender porque essa visibilidade tem aumentado. É o medo e a ignorância de mãos dadas na cabeça de muita gente. Daí vem as ideias do Bolsonaro de “Dia do orgulho hétero”. Acham que precisam marcar posição, acham que o mundo está sendo tomado por homossexuais. Coitados.

Estão ignorantes e com um medo excessivo. Acham que estimular o ensino entre crianças e adolescentes sobre questões de gênero (a palavra que virou sinônimo de capeta, demônio, inferno, crime), pro exemplo, pra evitar que mulheres sejam vítimas de abusos, que aprendam métodos contraceptivos e que compreendam questões hormonais, funcionamento de aparelho reprodutivo são incentivos ao relacionamento sexual precoce para suas filhas. Repito, para suas filhas, já que se o menino com 7 anos chegar em casa e falar que beijou a amiguinha na escola a força, será motivo de orgulho do pai.

Claro que se aproveitam de bobagens que são feitas por aí e que circulam com uma gigantesca rapidez nos grupos do WhatsApp.

Com isso construíram duas campanhas, a do kit gay e do fim das discussões de gênero nas escolas.

O outro grande medo é do comunismo.

Sim, do comunismo. São pessoas que nos últimos anos foram levadas a acreditar que o comunismo ameaça o Brasil e que o comunismo está associado com qualquer um que desenvolva um pensamento crítico.

São pessoas que acreditam com toda certeza que o PT é comunista, que o PSDB é comunista, que a Globo é comunista, que a Fátima Bernardes é comunista, que Jô Soares, Ciro Gomes, Marina o Papa e qualquer um que apareça na tela do celular com um texto sem pé nem cabeça é comunista e por isso deve ser aniquilado, combatido.

O PT, por exemplo, foi o governo que mais beneficiou os grandes capitalistas nos últimos 50 anos, mas a ignorância e o medo, faz com que sejam vistos como o “inimigo interno”, vestígios da influência de setores das forças armadas na política do nosso país.

Bolsonaro é o candidato que sintetiza o medo e a ignorância. Sempre foi defensor dos pensamentos mais bestiais, sempre foi tratado como um maluco e subestimado. É o chorume da ditadura militar de 64. Não é a toa que essa é a turma que vê os militares como seres mágicos, que através da disciplina e da força vão fazer o país andar no caminho que consideram correto. Freud e Hollywood talvez expliquem. Convivi com muitos e sei como foram tratados pelos pais e pelo cinema dos anos 90.

Esse candidato é o grande porta voz da ignorância na política e por isso quando vocês o chamam de ignorante, burro, não tem efeito nenhum. Ser ignorante para alguns de seus eleitores é uma virtude, não um defeito. Fica evidente quando dizem “é um sinal de humildade”, “tem coragem de dizer que não sabe”.

E preste atenção. Não estou dizendo que ignorância é igual a falta de escolaridade. Nada disso. A humanidade já conheceu pessoas absurdamente inteligentes que nunca frequentaram escola ou universidade. A ignorância está presente também nas pessoas que não são capazes de encarar de frente a complexidade e a dinâmica da vida e não estão dispostas a defender com todas as forças a vida digna, sem diferenças sociais e a preservação do nosso planeta.

Acontece que quando o medo e a ignorância se chocam com uma grande crise econômica e humanitária, associada com crise das instituições (igrejas, judiciário, legislativos e poderes executivos), esse tipo de comportamento se propaga como fogo em mato seco e é o que temos visto em nosso país. Crise aliás que deveria servir pra gente superar várias anomalias que temos no Brasil, não mantê-las como vem acontecendo no debate eleitoral. Seria o momento ideal para um grande salto de qualidade, mas não fizemos a lição de casa.

Bom, esses são alguns dos motivos que me leva a achar que votar no Bolsonaro é o voto mais equivocado nessas eleições.

Não estou disposto a fazer nenhum eleitor dele mudar de opinião, mas escrevi isso pra tentar dialogar com quem também vê as coisas de forma parecida. Eu acho que esse é um daqueles momentos que não se pode vacilar. Bolsonaro não pode chegar ao segundo turno porque com certeza vai ter muita gente com poder econômico capaz de enfiar a cabeça do país na lama simplesmente pra conquistar mais dividendos. Há quem ganhe muito dinheiro no caos e grande parte da elite econômica que vive no Brasil não tem pátria. São completamente irresponsáveis nesse sentido.

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