RESENHA #02: O Lobo do Deserto (Theeb) | Filme

Theeb (“O Lobo do Deserto” no título brasileiro) é um filme jordaniano de 2014 e o primeiro do diretor Naji Abu Nowar. Foi o único nessa língua a ser indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, além de ter sido vencedor em uma das categorias de produção do BAFTA. O longa nos apresenta a história de um menino beduíno chamado Theeb que guia um oficial britânico até um determinado local no deserto onde seus companheiros são assassinados.

Criando um conflito entre a inocência de uma criança e a necessidade de conquistar a maturidade, a história encontra seu caminho explorando a temática da sobrevivência enquanto a narrativa acontece no período da primeira guerra mundial. O principal, cujo nome Theeb significa lobo (e lobo tem um significado de maturidade na cultura beduína), começa o filme sendo apenas uma criança interessada em brincadeiras e diversão, ao mesmo tempo que é obrigado a deixar de ser um menino para “tornar-se um homem” através de ensinamentos “básicos” do seu cotidiano (como mexer em uma arma, ou usar uma faca) aplicados pelo seu irmão mais velho. Claramente um cotidiano extremamente diferente daquele que uma criança comum desse lado do mundo vivencia, nos fazendo questionar os impactos que uma guerra causa na cultura e nos costumes de uma nação.

Os atores Jacir Eid Al-Hwietat e Hussein Salameh Al-Sweilhiyeen, interpretando Theeb e seu irmão mais velho.

Embora o filme tenha um ritmo um tanto quanto lento, é mostrada a transformação do principal de acordo com as situações propostas em sua trajetória. Após seus companheiros terem sido mortos, o garoto é obrigado a deixar sua inocência e infantilidade em prol da própria sobrevivência. Se antes se demonstrava frágil ao segurar uma arma, agora ele é obrigado a lidar com a questão de “matar ou morrer” que sempre esteve presente em sua cultura: “o forte come o fraco.”

Com a trama se desenvolvendo num momento onde a nação é prejudicada pela guerra, o deserto é passado como uma metáfora da vida adulta e traiçoeira que cerca o principal. Além disso, a narrativa torna-se recente se levarmos em consideração que do outro lado do mundo tem uma guerra acontecendo e matando milhares de pessoas por dia. A Jordânia, país onde foi gravado o filme e também das raízes do diretor, é uma das nações vizinhas de onde os conflitos se encontram e já teve seus prejuízos causados pela destruição presente na Síria.

Diariamente, vemos notícias sobre as crianças que nascem nas guerras e que são vítimas do caos. Como é mostrado no filme, muitas delas só queriam (e deveriam) viver suas vidas normalmente como a idade delas pedem, mas infelizmente são obrigadas a agirem como adultos e lutarem por suas sobrevivências. Muitos jovens meninos são obrigados a participarem da guerra contra suas vontades, sendo obrigados a viverem em uma realidade caótica e dolorida que uma criança (ou qualquer pessoa) jamais deveria conhecer. Ao invés de ter um cunho patriota, o filme visa criticar a guerra expondo seus prejuízos na humanidade do que enaltecê-la como um serviço nobre (algo que acontece em American Sniper, por exemplo).

Chega a ser “normal” que os mais novos lá aprendam sobre armas, lâminas e morte antes mesmo de conhecerem uma infância ou adolescência longe da violência. Isso é mostrado no longa assim como a forma que Theeb— representando todas as crianças que vivenciam esse tipo de inferno — se desenvolve em meio aos conflitos da realidade em que está inserido sem deixar sua guarda baixa, lidando com as traições, parcerias e interesses de outros personagens (adultos) que não pensariam duas vezes antes de eliminarem uma criança de uma “tribo” rival. Para não ser comido pelos lobos, ele mesmo deve se tornar um (assim como seu nome sugere).

Cinematografia por Wolfgang Thaler.

Diria que a melhor parte do filme é a trilha sonora, que do começo ao fim tem uma força tremenda nas imagens captadas por uma fotografia que envolve todo o árido do deserto. O filme caminha lentamente, mas talvez isso seja necessário pra mostrar de forma sutil a evolução interna do principal: seu envelhecimento sem o consentimento do tempo e uma maturidade alcançada contra sua vontade. É perceptível a mudança na atitude do menino, de como ele era no começo para o que se torna no final: antes presa agora predador.

Culpem a guerra, ele nunca pediu por isso.

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