RESENHA #05: Chi-Raq | Filme

Trayvon Martin, Jonathan Ferrell, John Crawford, Ezell Ford, Laquan McDonald, Akai Gurley, Tamir Rice, Eric Harris, Walter Scott, Freddie Gray, Sandra Bland, Samuel DuBose, Alton Sterling, Philando Castile. Todos foram vítimas negras de genocídio nos Estados Unidos. Infelizmente, a lista não acaba aí, e esses nomes são apenas alguns dos que mais causaram repercussão nos últimos três anos. A realidade é que a lista se expande diariamente e nem sempre — ou quase nunca — é noticiado. O racismo mata, e é de extrema importância dar visibilidade à esses problemas para que, não só a América, mas o mundo todo entenda a gravidade dessa questão e exija mudança.

Com tantos negros morrendo diariamente, foi-se criado em 2013 o movimento ativista Black Lives Matter que luta contra o racismo institucional que resulta em morte e violência todos os dias. Com manifestações, hashtags, textões no facebook e toda forma de militância em qualquer meio social, a visibilidade do movimento está crescendo cada vez mais, tornando-se difícil encontrar alguém que não tenha ouvido falar do assunto (principalmente nos Estados Unidos, país de origem do movimento que hoje influencia debates em todo o mundo).

Como a arte é reflexo e muitas vezes refúgio da vida real, o mundo ganhou um conhecimento ainda maior sobre a luta quando filmes e músicas foram lançadas abordando o assunto. Com parte da mídia favorecendo a visibilidade (e outra parte tentando ignorá-la), é claro que ganhamos algum conteúdo disso sendo lançado. No Oscar de 2015, uma manifestação artística incrível foi feita no palco da premiação quando John Legend e o rapper Common performaram a música Glory (tema do filme Selma, que narra a história e luta de Martin Luther King Jr.) expondo os assassinatos operados injustamente pela polícia contra a população negra.

Pouco tempo depois, Kendrick Lamar também lançou seu album To Pimp a Butterfly que aborda do tema enquanto questiona a liberdade dos negros, exclamando que eles ainda são escravos de um governo comandado predominantemente por brancos. Beyoncé também deu sua contribuição com a música e o clipe de Formation, mais tarde levando ao Super Bowl (onde a audiência chega no pico) e ao VMA 2016, exigindo explicações de um governo indiferente à esses pedidos desesperados por mudança.

Clipe de “Formation,” da Beyoncé.

Na metade de 2015, a Black Lives Matter conseguiu desafiar publicamente os políticos, incluindo candidatos à presidência, sobre suas posições em relação ao movimento, fazendo com que essa seja uma questão essencial para a decisão de votos dos cidadãos. Caso prometam algo e não cumpram, com certeza serão lembrados disso pelo movimento. Sendo basicamente uma luta de todos os negros por um espaço justo e merecido no país, a luta cresce cada dia mais. Embora ainda falta muito a ser alcançado, mudado e desconstruído, é um movimento essencial que defende toda a população negra, e principalmente, a paz.

Chi-Raq, filme de 2015 dirigido, produzido e escrito por Spike Lee, discute diretamente sobre toda a essa violência presente no dia-a-dia dos negros. Fazendo uma adaptação da peça de teatro grega Lisístrata, na qual as mulheres fazem greve de sexo para que seus maridos parem de guerrear, o diretor transforma sua obra em um conto moderno usando a mesma sinopse da peça original. Escrita por Aristófanes, a comédia grega de quase 500 anos antes de Cristo foi criada com o propósito de ironizar e acabar com as guerras que causavam uma crise em Atenas. Fazendo uma clara crítica sobre o atual momento de conflito entre os gregos e os espartanos, as mulheres decidiram operar uma greve de sexo coletiva até que seus maridos estabelecessem a paz em ambos os lados, resultando assim no fim das batalhas. No final da peça, as duas cidades celebravam em paz, mas a vida real não quis imitar a arte dessa vez, tendo a guerra prosseguido e prejudicado a Grécia.

Usando das gangues de Chicago e suas rivalidades como linguagem, Chi-Raq consegue criar esse conflito (e trazer a trama para a atualidade) perfeitamente quando uma criança inocente é morta por uma bala perdida em um dos duelos entre os grupos. Buscando um fim nessa violência desnecessária, Lisístrata (a principal com o mesmo nome da personagem da peça, interpretada por Teyonah Parris) junta todas as mulheres e estabelecem um acordo entre elas, composto pela promessa de que elas não fariam sexo com nenhum homem enquanto eles não abandonassem as armas. Gera então, o manifesto No Peace No Pussy.

Chega a ser desnecessário explicar o contexto do filme, considerando que a própria obra expõe isso clara e diretamente. Com discursos que discutem a vida dos negros, o racismo, um governo que favorece as armas e a guerra, o filme traz uma grande sensibilidade e ao mesmo tempo um entendimento didático sobre a Black Lives Matter e toda a questão social que eles representam. Um simpático Samuel L. Jackson como narrador conversa e esclarece diretamente com o espectador em diversos momentos, levando a obra em um caminho de “auto-explicação” sobre sua função e manifesto.

O filme pertence aos estúdios da Amazon, concorrente direto da Netflix como serviço de streaming. Sendo um dos longas exclusivos do serviço (assim como Netflix também já lançou seus títulos originais), posso afirmar que foi um passo bom da Amazon, já que a obra é sensacional. O filme além de ter uma importante mensagem social e atual, traz alguns elementos originais e muito interessantes de se ver num longa, e por isso foi super aclamado pela crítica internacional.

O roteiro inteiro é composto de rimas, o que traz diálogos parecidos com hip hop o tempo inteiro pra obra. Além disso, a trilha sonora é sensacional e inclui músicas que explicitam sobre a violência em Chicago (no filme chamada de Chi-Raq, uma mistura de Chicago com Iraq, devido ao constante clima de guerra). As atuações são fantásticas, principalmente as de Teyonah Parris e Angela Bassett, que posicionam suas personagens entre um receio do que a violência pode causar e uma feroz determinação de mudar toda a situação com as próprias mãos. Entretanto, o filme não tem um ritmo muito pesado, apesar do acontecimento trágico e o tema sério. Assim como a comédia de Aristófanes, tem uma atmosfera mais leve, muitas vezes tendendo ao humor. Mas isso, de forma alguma, prejudica a obra. Muito pelo contrário, só causa um entendimento maior e mais descontraído a quem assiste.

Mesmo aclamado, o filme também gerou certa polêmica com o público que o acusa de ser extremamente sexista enquanto objetifica as personagens por seus órgãos sexuais. Embora seja difícil encontrar uma justificativa que explique esse tom, o espectador deve-se lembrar que a obra é uma adaptação moderna de uma comédia satírica não só sobre a guerra, mas também sobre os próprios cidadãos comparados à animais e seus cegos instintos. Haveria outras formas de direcionar esse assunto, e podemos considerar como um erro do diretor, mas o próprio filme apresenta momentos de crítica e sátira de uma sociedade machista corrompida (tendo inclusive algumas cenas protestando contra a misoginia e a padronização da mulher). Talvez essa intenção só não tenha chegado a todos da forma desejada. Entretanto, se alguém se ofendeu, já é o suficiente para considerar como um ponto ruim da obra.

Sendo Spike Lee obviamente um defensor claro da Black Lives Matter, que luta sempre pela visibilidade e representatividade (pedindo até mesmo boicote ao Oscar de 2016 por não terem indicado nenhum ator negro), o filme não poderia estar distante de uma força enorme em relação à esse debate que ainda precisa ser muito conversado e está presente na trama junto de uma campanha anti-armas. Em termos históricos, a Black Lives Matter é um movimento que acabou de começar sua luta (está aí há apenas três anos) mas sem dúvidas estará presente por muito tempo representando os pedidos dos negros por justiça que não são atendidos há eras. Junto com eles, o cinema promete ingressar na luta também, trazendo obras importantíssimas para reflexão e debate como Chi-Raq (e isso já é motivo o suficiente para assisti-lo).