Lóri

“Eles pareciam saber que quando o amor era grande demais e quando um não podia viver sem o outro, esse amor não era mais aplicável: nem a pessoa amada tinha capacidade de receber tanto. Lóri estava perplexa ao notar que mesmo no amor tinha-se que ter bom senso e senso de medida. Por um instante, como se tivessem combinado, ele beijou sua mão, humanizando-se. Pois havia o perigo de, por assim dizer, morrer de amor.”
(Clarice Lispector)

Eram 15hrs:13min:53seg do 72º dia do ano de 1983, quando, pela primeira vez, Lóri se apaixonou. Lóri, caro Leitor, não se apaixonou por uma outra pessoa, apaixonou-se pela sua própria solidão, que é a coisa mais intima que podemos dar.

Quando se viu na ilha notou que não haveria nenhuma saída, Lóri fez o que deveria ter feito a anos. Estudar o silêncio. O silêncio é um absurdo, um amontoado de ideias. Anda no meio da ilha procurando alguma resposta ou saída, estudava tudo o que seu silêncio poderia causar. O silêncio é um bicho.

Senta-se em um galho de uma longa árvore, olha para a imensidão azul que a persegue, e lembra de tudo que já fez na vida. Feito um déjà vu ela nota todos os seus sonhos mortos, todos os livros lidos, tudo isso para nada. Notou que, mesmo lendo de tudo e conhecendo tudo, no fundo era somente mais um tubo. Lóri estava perplexa ao notar que era fraca.

Se levanta depois de longas horas de reflexões, pega um pedaço de galho de forma tão lenta que poderia pensar-se que estava paralisada. O mesmo foi feito na ida até a areia, tantas coisas rondavam-na que era fraca demais para andar objetivamente. Olha para a areia suja como se estivesse olhando doces, toda encantada, toda criança, toda enfeitada. Quando começa a escrever na areia uma frase de Franz Kafka: “Às vezes, acredito que sou inapto para qualquer tipo de relacionamento humano”.

Lóri resolve, por assim dizer, que o castigo por ter vivido seria a ilha onde nunca conseguiria sair. Não desistiu, mas aceitou a condição. No fundo, só queria amar.

FEBRARO DE OLIVEIRA