Até na derrota

Setor 2, Estádio Conde Rodolfo Crespi, Rua Javari, Mooca, São Paulo.

Apesar da garoa fina e do mal tempo, acordei empolgado naquela manhã de sábado. Seria a primeira vez que iria sozinho ao Estádio Conde Rodolfo Crespi — popularmente conhecido como Rua Javari, por se situar na rua homônima do bairro da Mooca — prestigiar o Clube Atlético Juventus. O nome que batiza o estádio é o mesmo do Presidente de Honra perpétuo do Juventus do Brasil, Conde Rodolfo Crespi, imigrante italiano radicado em São Paulo e torcedor da Juventus da Itália. O nobre cavalheiro dedicou, em 1925, um ano após a fundação do clube, o terreno onde hoje algumas dezenas de pessoas se aglomeram para ver o Moleque Travesso atuar. O Juventus foi fundado em 1924, sob o nome de Cotonifício Rodolfo Crespi F.C., com a fusão de times de várzea da Mooca formado por imigrantes italianos funcionários nas fábricas do início do século.

Liguei o carro e me dirigi ao estádio. No caminho, me dividia entre a atividade de dirigir e a de criar expectativas. Era a quinta rodada da Série A3 do Campeonato Paulista de 2015. O Juventus é o líder do campeonato, com três vitórias e um empate. Invicto e jogando em casa contra o limitado São José F.C., sétimo colocado da competição. Nada poderia dar errado. Chego na Rua Javari faltando 30 minutos pro apito inicial. Não encontro lugar na rua para estacionar o carro. Apesar de ser 15h30 de um sábado, a rua está lotada de torcedores vestidos de grená e branco, as cores do Juventus. Me junto a eles. Estou na fila para comprar os ingressos quando ouço uma criança falar deliberadamente com o pai, em alto e bom som: “esse não é o jogo do Corinthians?” O pai, meio envergonhado, responde: “é o jogo do maior time do mundo, não do Corinthians”. Sei que está falando do Juventus. Concordo com ele em pensamento e compro meu ingresso por R$ 20.

Faz frio. Entro no aconchegante estádio que já conheço bem. Das quatro rodadas anteriores, eu estive presente em duas delas, mas sempre acompanhado do meu pai palmeirense. Percebo a inscrição, no outro lado do campo, em letras garrafais: Campeão Brasileiro Taça de Prata de 1983. Na época, a Taça de Prata era considerada a segunda divisão do Campeonato Brasileiro. Como a Rua Javari ainda não está infectada com a politicagem das modernas arenas, eu posso escolher meu lugar livremente.

Escolho o Setor 4, atrás do gol direito, onde o Juventus atacaria no primeiro tempo, próximo a torcida organizada Ju-Jovem. Me sinto acanhado por estar sozinho, tenho vergonha de cantar e de torcer. Estou a pouco mais de três metros de meia dúzia de torcedores que formam a organizada, todos devidamente uniformizados. Tiro uma foto do surrado gramado e ouço: “chega aí, primo!” Me surpreendo quando vejo que não se trata de nenhum parente meu. Era, na verdade, um dos torcedores da Ju-Jovem, me chamando com um gesto carinhoso. Em italiano, “primo” deve significar algo como “primeiro”, mas creio que a intenção foi a de me comparar com um familiar. É meu primeiro contato com la grande famiglia di Mooca.

O jogo começa e eu ainda tento entrar no ritmo da bateria. Os torcedores da Ju-Jovem adaptam os cânticos de torcidas maiores para o Juventus. Também cantam músicas próprias. Me causa estranheza ver como todos revezam o tambor. Em um dado momento, até eu, que sou novato, sou cotado para assumir a bateria. Recuso. O jogo é quente. O São José F.C. pressiona a saída de bola do goleiro juventino, André. Atacam em bloco, quando aos 12 minutos, uma bola chutada de fora da área por um dos mediocampistas joseenses bate na mão de um dos zagueiros do Juventus, que infelizmente estava dentro da área. Pênalti para o São José. Quem vai para cobrança é o veterano centroavante Washington, de 36 anos, com passagens por Vasco da Gama e Palmeiras. Ele não titubeia e estufa as redes do Juventus, para tristeza geral do estádio.

Todos estão atônitos. Não conseguem imaginar que o Juventus está atrás do placar, pela primeira vez em 2015, e mais: na Rua Javari. O escrete juventino não desanima e parte pra cima do São José, que agora só se preocupa em defender. Inúmeros impedimentos inexistentes são marcados contra o Juventus. A torcida, formada por uma maioria de descendentes italianos, fica impaciente e gesticula contra a arbitragem. Todos se calam quando vêm o camisa 9 juventino, o jovem Raikard, perder duas chances claras de gol. A exemplo do Juventus paulista homônimo do Juventus de Turim, o nome de Raikard faz alusão ao craque holandês da década de 1990, Frank Rijkaard — apesar dos nomes, a discrepância de técnica e habilidade dos dois jogadores é enorme. O pedido da torcida se resume em uma sílaba: Gil.

Gil, 34 anos, centroavante, uma das maiores revelações do Corinthians nos últimos anos. Atuou também em outros grandes clubes brasileiros, como o Cruzeiro e o Flamengo, e até na Seleção Brasileira, onde disputou a Copa das Confederações de 2003, vencida pela França. Havia sido contratado pelo Juventus há uma semana, já com o campeonato em andamento, e causou grande furor na grande mídia esportiva — afinal, Gil aposentara há quase quatro anos. “É o mesmo Gil? Aquele do Corinthians?” Sim. É o mesmo Gil. O Legislador. O Vale-Tudo — apelidos que acompanham o atacante desde de uma fatídica entrevista à uma emissora de rádio após o título do Campeonato Mineiro de 2006, pelo Cruzeiro. Vale a reprodução na íntegra:

Repórter: Vale tudo, Gil? Vale tudo? Até o torcedor invadir o campo, tirar a roupa dos jogadores, vale tudo?

Gil: Só não vale dar o cu, mas o resto vale tudo.

O técnico Rodrigo Santana estava receoso de sacar Raikard para a entrada de Gil. Seria um tiro no pé, a esquadra juventina já contava com outro veterano em campo, o mediocampista Adiel, de 35 anos, que apareceu como grande revelação no Santos F.C. no fim do século passado, mas não vingou. O jogo caminhava para o final do primeiro tempo e eu já via a movimentação da torcida abandonando as arquibancadas. Quem é novo por ali pode se equivocar e pensar que todos estão abandonando o time. Jamais. O que todos buscam é o famoso cannoli do Seu Antônio.

Como já conheço o habitual “show do intervalo” da Javari, fico no meu lugar. Nem me atrevo a enfrentar a fila quase quilométrica para saborear um cannoli — a verdade é que não aprecio tanto assim o doce. Enquanto estou ali vendo os jogadores saírem do campo, vejo um torcedor de cabelos encaracolados se aproximar da minha turma. Me chama atenção a tatuagem em um dos braços dele: o escudo do Juventus da Mooca. Neste momento percebo que a história é muito mais séria do que eu imaginava. É a constatação de que o Juventus é o segundo time de muitos, mas o primeiro de poucos. Existem juventinos reais, e não apenas corintianos, palmeirenses e são paulinos disfarçados de Juventus — apesar destes serem maioria.

Aproveitei a aproximação do torcedor misterioso para me afastar e ver o jogo de outro ângulo, movimentação possível apenas fora das modernas arenas exclusivas aos sócios-torcedores. Na ânsia de ver um gol, me dirigi ao outro lado do estádio, onde o Juventus atacaria no segundo tempo, junto da fica a maior torcida organizada do time, o Setor 2. Agora era diferente, estava ao lado de uma maioria. Eram uns 30, 40 torcedores cantando, berrando e pulando sem parar. Já havia observado isso no primeiro tempo, de longe, mas no segundo tempo eu pude viver o Setor 2.

O segundo tempo começa, e pra alegria de todos, lá está Gil no lugar de Raikard. O céu está nublado, parece segurar a inevitável chuva. Os jogadores juventinos se esforçam, mas não conseguem passar pela retranca joseense. Apesar das belas jogadas, todos percebem que aquele não é o mesmo Gil do Corinthians, Flamengo e Cruzeiro. O camisa 18 está mais velho, sem ritmo, com uma barriga sobressalente, atuando mais como um meia do que como um centroavante de ofício. Nathan, o habilidoso ponta-direita do time, é de longe, o melhor jogador juventino em campo, mas é anulado pelo lateral esquerdo joseense.

Senti que essa seria a primeira derrota do Juventus no ano, logo na minha primeira vez sozinho na Javari. Repeti o gesto de meu pai há 9 anos, no Palestra Itália, num Palmeiras x Paraná: sentei e levei as mãos ao rosto, atônito. Naquele jogo, o Palmeiras, do técnico Tite, abrira 2 a 0 no fraco Paraná, de Caio Júnior. Mas a reação paranista foi imediata: em 15 minutos devolveram os dois gols tomados e empataram a partida. Faltava dez minutos pro jogo acabar, e meu pai, palmeirense, preocupado com as consequências que aquele jogo poderia trazer pra mim — afinal, era meu primeiro jogo no estádio -, sentou e levou as mãos ao rosto, atônito. A imagem não sai da minha memória. Se o que meu pai fez foi uma prece, eu não sei, mas funcionou. Em dois minutos o Palmeiras fez o terceiro, e depois o quarto, um gol antológico do volante Alceu: uma falta à 40 metros do gol batida com perfeição no ângulo do goleiro Flávio.

Esperava que a repetição do gesto do meu pai trouxesse boa sorte para o Juventus. Esperava que, como todo filme hollywoodiano, o final fosse feliz apesar dos percalços. O tempo passou, e minhas expectativas foram diluídas com a fraca garoa. Via os torcedores, atrás do gol do goleiro joseense, Moisés, xingando e desferindo cusparadas em direção ao arqueiro, que, de vez em quando, provocava com um riso sarcástico ou fazendo cera. O jogo acabou.

Ao apito final, a chuva despencou sobre o Estádio Conde Rodolfo Crespi, como se alguém lá em cima compartilhasse minha dor. Torcedores voaram para saída do estádio. Menos os 30, 40 torcedores do Setor 2, que pareciam se divertir na chuva enquanto cantavam: “Somos do bairro da Mooca, bairro de luta e tradição. Eu juro que em todos os momentos, sempre contigo vou estar” no mesmo ritmo das Ultras argentinas. Decidi ficar na chuva também. Pulando e cantando com os reais juventinos, jurando estar com o Juventus em todos os momentos. Até na derrota.

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