Carta #10 | porque não é uma competição

Ontem voltando de bicicleta de uma reunião, no trajeto Pinheiros-Paraíso, eu consegui pela primeira vez responder calmamente à ofensa de um carro (tá tudo bem viu, mãe?). Ele dirigia uma van escolar e eu uma bicicleta dobrável de 7 marchas. Dá pra entender quem tinha que zelar por quem, certo? Na teoria o raciocínio funciona, mas não tanto na prática. Depois de cruzarmos duas vezes em uma rua calma, de ouvir buzinas sem propósito e levar “finas educativas”, eu o questionei com serenidade:

- Amigo, não quero competir com você, só quero que me respeite. Se você me assusta e eu caio, fica pior pra nós dois. Qual o propósito disso?

- Desculpa, você tá certa moça!

Pode ser que ele continue com a mesma postura, mas pode ser que ele reflita que eu sou uma vida na bicicleta, que podia ser a vida dele ou de alguém querido.

Não quer dizer que eu tenha ficado menos chateada dessa vez do que da vez que eu gritei, gesticulei e xinguei. Mas eu tentei entender o que estava por trás daquela pressa, daquela fúria. Nesse caso a problemática passa pelas relações de poder na cidade, a gente se sente tão oprimido o tempo todo que acha que precisa fazer demonstrações constantes de força. Pra quem serve nossa agressividade, nosso ódio? Serve pra mim e pra você ou pra dominância e manutenção de poder?

Propor diálogo aqui fez muito mais sentido pra mim do que brigar. Quando isso acontece é o momento da gente parar de comprar frases prontas (como “todo motorista é um monstro”), quase obrigatórias, e exercitar a empatia. É entender qual história de vida fez com que aquela pessoa tomasse a atitude que tomou (se fosse a gente, com a mesma vivência, será que não teríamos feito igual?) e mostrar novos caminhos.

Só posso usar as palavras do André Gravatá, pois elas expressam exatamente o que sinto hoje: “Em alguma medida, todos somos educadores e educadoras. Todos temos responsabilidade pelos conteúdos, falas e comportamentos que compartilhamos com os outros. Quanto mais raiva em circulação, mais violência será aprendida, mais terror virá pela frente.”

Olha só, se eu pareço repetitiva com alguns assuntos não é porque quero colocar esses comportamentos como exemplo, é uma tentativa de colocar a minha experiência pra que vocês consigam fazer paralelos com a própria realidade e vivência. Conheço gente que é muito transformadora em seus movimentos e elas com certeza não precisam de mim para dizer que bandeira têm que levantar. Não tem medalha pra quem provoca mais mudanças, não é uma competição. Dá pra ver uma ligação entre isso e a situação política que vivemos hoje?

Se você chegou agora pode ler as cartas passadas nesse endereço aqui. Seja bem-vindo/a/@! Fique a vontade para responder esse e-mail, vou adorar saber como você tem aplicado a empatia no seu dia a dia! ;)

Beijos,

Fê Canna

// Esse texto foi escrito originalmente para a minha newsletter. Para se inscrever, clique aqui.

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