Carta #7 | indo devagar

Eu fugi de São Paulo no carnaval. E ainda fugi para Minas Gerais, o estado da calmaria, do sossego, do lindo sotaque mansinho. Um casal de amigos, recém-chegados em Belo Horizonte, reclamam da demora do atendimento, da lerdeza no trabalho, da meia hora perdida pro cafezinho. Eu acho que tem seu lado bom. Fico pensando nos benefícios (físicos e psicológicos) de seguir sem pressa. Evitar refazer o trabalho mal feito e não sofrer de ansiedade podiam estar em uma lista de vantagens. Mas o item mais precioso, no meu entendimento, é ganhar tempo por usá-lo com o critério de quem quer levar uma vida boa.

Me lembrei imediatamente desse texto que a Fabi Secches me indicou em uma conversa no Twitter. James Scavone fala do seu ponto de vista em trocar o carro pela bicicleta no percurso até o trabalho. Merece as aspas: “Por mais estranho que pareça, levo menos tempo de bicicleta ao trabalho do que levava de carro, mas tenho mais tempo de pensar. O stress automobilístico nos deixa mais zumbis, ligados apenas no carro ao lado, no farol que vai fechar, no cruzamento que está cada dia mais demorado de atravessar. No trânsito, somos o congestionamento até mentalmente.”

Como funciona essa equação? Muito maluco é imaginar que a gente perdeu a noção do tempo. Carl Honoré escreveu o livro Devagar, onde questiona nossa necessidade de fazer tudo cada vez mais depressa. Para ele, a raiz do problema é a forma como a gente percebe o tempo, como um bem escasso e não renovável, que é preciso agarrar com força para não perder. Me parece que, como se fosse areia, aos poucos o tempo vai escorrendo dos seus braços e você acaba frustrado por não poder mais controlar. Talvez seja por isso que a medicina das respostas rápidas é questionada como sendo medicina da doença e não da saúde, ou os relacionamentos com planos acelerados façam a gente se sentir mais solitário.

Voltando pra Minas Gerais, o lindíssimo cardápio, escrito a mão, do restaurante em Tiradentes dizia: “Há nesta cidade deliciosa calmaria. Aproveite para conversar mais, ler mais, cantar mais, abraçar mais, apreciar a natureza muito mais, e rir muito! Aproveite mesmo. Porque assim aqui é! E para apreciar ainda mais: ANDE A PÉ!”. Confesso que senti vergonha de pegar o celular na mão, deixei ele no fundo da bolsa e seguimos o jantar conversando e saboreando pensamentos. Voltei mais leve!

Eu sei que a vida que fica no transporte público, na lasanha congelada, nas horas nas redes sociais é muito cara. Eu tenho tentado desacelerar, e percebo que essa vontade tem relação direta com a negação do consumismo. Se eu preciso de menos, posso me envolver menos com o que suga minha energia e com o que alimenta os monstros da minha ansiedade. É um exercício diário, de lembrar que somos seres humanos e não máquinas.

Se você chegou agora pode ler as cartas passadas nesse endereço aqui. Seja bem-vindo/a/@! Fique a vontade para responder esse e-mail, vou adorar ouvir suas ideias e descobrir o que você tem feito por aí! ;)

Beijos,

Fê Canna

// Esse texto foi escrito originalmente para a minha newsletter. Para se inscrever, clique aqui.

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