
Onde estão minhas lágrimas?
O ser humano pisca 25 mil vezes por dia, produzindo em torno de um litro de lágrimas. Então eu me pergunto onde estão as minhas.
Há alguns anos atrás — não muitos — quando eu ainda estava no ensino médio, eu chorava por qualquer coisa. Era a típica chorona. Derrubava milhões de lágrimas cada vez que brigava com a minha mãe, o que acontecia com bastante frequência. Por ciúmes das amigas. Também por aquele amor impossível e iludido dos quinze anos. Chorava por achar que não era boa o suficiente ou porque tinha sido deixada de lado. Toda semana ia ver a melhor amiga, comer brigadeiro, desabafar e chorar como se não houvesse amanhã. E era ótimo, me sentia mil vezes melhor e amada por ter pessoas incríveis para me segurar. Hoje eu olho para trás e vejo que os motivos que me faziam chorar eram muito pequenos perto dos que eu tenho hoje. O ponto é que, eu sabia exatamente para onde iam esse um litro de água que meus olhos produziam todos os dias.
Agora, sendo adulta — mas não tão adulta assim -, as responsabilidades começaram a pesar. É conta de água, luz, telefone e cartão de crédito que a gente não sabe como vai pagar. Comida para comprar. Às vezes dá aquele desespero, mas acaba que chega dia cinco e dá para pagar e comprar tudo certinho. Sempre deu.
Eu e minha mãe não brigamos mais com tanta frequência, talvez por não termos tempo para isso. O peso dos problemas me fizeram entender algumas coisas que ela já tentava me dizer há um tempo atrás. Tem a ver com “ser presente”. Disso eu não posso reclamar sobre a minha mãe. A convivência e os problemas nos obrigaram a cuidar uma da outra e resolver as coisas juntas, e talvez por isso tanta discussão.
Mas não só do cuidado da minha mãe minha vida é feita. Tem aquela pessoa que não tem obrigação nenhuma comigo, mas cuida mais da gente do que de fato quem deveria, passou por esse mesmo caminho e me guia nessa jornada que é a vida. Mas ainda, a coisa mais difícil sobre pais ou família, é que todo esse amor incondicional que a gente sente, nos impede de dizer algumas coisas que deveriam ser ditas.
Quem devia cuidar da gente não sabe da metade da nossa vida e nem o que a gente sente. Conheci a verdadeira face da palavra “decepção”. Junto com ela o medo de causar mágoa em alguém, e é por isso que a gente fica quieta.
No mais, simplesmente existem aqueles dias que tudo vai mal, que você está triste sem um motivo certo e tudo parece dar errado.
A soma das responsabilidades, decepções e dias ruins resultam naquela vontade imensa de sentar num canto, chorar e esperar que tudo passe. E aí está o problema.
Há algum tempo tenho tentado aguentar o máximo, não sofrer, não ficar ansiosa e nem chorar sem motivo. Mas tudo o que tenho tentado evitar é o que tenho sentido com essa resistência e aversão à tristeza.
Um dia alguém me disse que não era possível ser feliz o tempo todo e que se sentir triste era uma consequência da vida. Na adolescência, sabia dividir meus problemas e chorava com frequência, isso lavava a minha alma, me sentia melhor. A verdade é que nos dias de hoje tem sido bem difícil externar toda essa confusão, medos e problemas. Nos últimos tempos não tenho encontrado esse um litro de água que minhas 25 mil piscadas diárias produzem. Se alguém encontrá-las, por favor, dar um toque aí, estamos precisando delas.
*Um agradecimento especial para meu amigo/editor Lucas Koehler. Obrigada pela revisão do texto e as contribuições de sempre.