Um é pouco, dois é bom. Mas três é demais.

Não me lembro quando aconteceu; um dia alguém me disse que amizades e sociedades funcionam melhor entre duas pessoas. A lógica era que sempre acontece de dois concordarem em algo e serem uma “força maior” em relação ao terceiro que discorda. Mesmo que a dupla mude — há momentos em que A e B se juntam “contra” C e outros em que B e C estão “contra” A — sempre há o problema da maioria.

Pop-up mental. E eu aqui achando que a maioria é burra. A maioria quer construir um muro para o qual não tem dinheiro. A maioria quis sair da Comunião Européia e desvalorizou o próprio dinheiro. A maioria tomava um líquido marrom, com gás e açúcar de monte por anos a fio. A maioria elegeu um monte de gente com mandato de prisão (de todos os partidos, tá?). Aquele cara que representa a maioria que vai fazer o tal muro esses dias causou o maior rebuliço nas agências nacionais que cuidam do meio ambiente. Porque, claro, a maioria está vendo as calotas polares derretendo, os ursos polares morrendo, o planeta esquentando, mas… a maioria é burra.

Voltemos aos trios. Fui atrás de entender de onde vinha essa sabedoria popular. Tentei ler se a psicologia explicaria. Muitos parágrafos depois, eu concluí que não poderia ter estudado isso da vida há, sim algumas teorias para essa história do trio que não funciona. Muito resumidamente, até porque eu não entendi mais da metade do que li, o “dois” é a mãe e o filho e o “três” (o que vem a mais) é qualquer um que atrapalha — mesmo sem querer — essa relação.

No entanto, essa tal relação da mãe com o filho, se não permitir a entrada de terceiros e quartos e muitos mais, tende a gerar uns doidões. (Pensei em dar exemplos, mas já abusei no segundo parágrafo, né?)

Na Malagueta somos três sócias. Como duas têm participações iguais e uma tem menos, poucos meses depois de começarmos, a “uma” nos disse que sabia que ela “sempre ia perder nas discussões” porque íamos decidir sozinhas e informá-la. Claro que as duas “de cá” foram efusivas em dizer que não era fato para a “de lá”. Prometemos sempre conversar e ouvir e que nenhuma de nós jamais seria tratada de forma diferente.

De lá para cá, muito mudou em nossa empresa. Bate-na-madeira-três-vezes, tudo vai bem, mas tivemos nossas conversas duras, dissemos não e sim umas às outras e, mais de uma vez, estivemos próximas de ver a profecia da “uma” realizada.

No final do ano passado tivemos que mudar de escritório. Recentemente, tivemos que decidir por um investimento para podermos crescer. A tal “uma” não só liderou ambos os processos, como convenceu as “duas” de como, quando, onde e quanto. Eu queria uma casa. Fui para um prédio. Lindo, mas com catraca. Detesto catraca. Pedi um chuveiro. Ainda não temos grana pra isso. Vim pra NY e, quando voltei, já tinha tapete, poster na parede, porta guarda-chuvas. Alguém pediu a tua opinião? Nem a minha. Adorei tudo.

Eu sonho enorme. Longe. Muitos sonhos ao mesmo tempo. A outra sonha grande. Mas quer um sonho por vez, tem que ter foco. E a outra pega os tijolos, o cimento, a paciência e faz com que os sonhos possam ser alcançados. Porque os sonhos dela são outros. E tudo bem.

Eu jamais faria sozinha. Acho legal ter mais um. Mas, honestamente, eu acho que três é demais. Demais de bom.