Ao que já chegou

confissões de um pai aprendiz


Mal deu tempo de desfazer as malas da maternidade, e vc já completou 6 meses. As nuvens que comecei pintar na parede do seu quarto continuam lá, inacabadas. Mas isso pouco importa agora, porque vc já dominou o espaço e deu a ele um colorido só seu.

Há seis meses, vc tem transformado nosso lar numa “casa muito engraçada”, literalmente: a cama virou sala de jantar e playground –só às vezes funciona como cama; os batentes das portas viraram minibalanços; o tapete da sala, uma pequena brinquedoteca; os sofás, berços bem espaçosos; e o carro, ah!, esse é melhor berço que alguém já inventou!

O choro baixinho, sem forma e monotônico com a qual chegou em casa agora tem diversas variações. Vai do agudo e prolongado que diz “hei, deu pra entender que eu tô com fome?” ao grave e espaçado “me deixa dormir, por favor”.

Vc, muito mais esperto que os adultos, não fica só repetindo centenas de palavras decoradas. Fala com o corpo todo, e emite sons que, com uma só sílaba, falam mais que estes quatro parágrafos que já escrevi.

Já senta, rola, grita. Come pra caramba! E não economiza nos sorrisos. Eu sei que vc pode usar isso contra mim no futuro, mas confesso: com essa risada, vc consegue o que quiser de mim. Sim, o que quiser. E até acho um preço justo. Afinal, seu riso cura qualquer dia difícil, qualquer trânsito, qualquer cansaço de fim de noite. É só olhar pra vc que tudo o que é ruim fica bom, e o que é bom fica melhor ainda.

Falar das suas transformações, do seu (lindo!) desenvolvimento é fácil. Meia hora na sua companhia ou uma dúzia de fotos no facebook é o suficiente pra perceber tudo isso. O que talvez as pessoas não saibam, e que vale a pena contar, é como vc está ME transformando.

Desde que conheci sua mãe, eu não sabia que dava pra amar alguém tanto assim. Não que eu não soubesse que os pais amam muito — eu também sou filho, vi e recebi muito amor na vida –, mas é que tem coisas nesse mundo de “gente grande” que só mesmo vivendo pra entender.

Falo de amor num sentido bem prático: daquele que faz a gente querer ir correndo pra casa sempre que dá 19h, que transforma um dorminhoco graduado, como eu, em alguém capaz de acordar ao menor ruído. Um amor que me faz enxergar o futuro sempre colorido, com brinquedos, travessuras… e talvez algum braço engessado. Amor desses que não se explica direito, apenas se sente.

Talvez eu te decepcione algum dia –e quando isso acontecer, vou querer que a terra me engula! Daqui não muito tempo, vc vai sentir vergonha de mim, do meu carinho, e vai querer que eu te deixe uns 100 metros antes da porta da escola. Vai querer provar que pode fazer diversas coisas sem minha ajuda. E, inevitável (divertido também, admito), eu vou te constranger na frente dos seus amigos, da sua primeira namorada…

Bom, talvez. Eu farei o máximo para respeitar seu espaço, prometo. Só não se esqueça de uma coisa: eu estarei sempre lá, numa distância segura, para ser seu colo quando precisar. E eu vou te perdoar quantas vezes forem necessárias, e espero que vc faça o mesmo por mim, porque, acredite, eu vou precisar. Aconteça o que acontecer, sempre haverá um abraço te esperando em casa.

E quando vc já não sentir mais tanta vergonha, não fizer tanta questão de ser diferente de mim, me liga. A gente sai pra conversar. E nesse dia eu vou te contar, emocionado, quanta coisa você me ensinou com apenas 6 meses.

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