Precisa-se de heróis

Super-Homem era alguém em quem você podia confiar. Menino simples do interior, acostumado à vida na pacata Smallville — ou “Pequenópolis”, como foi criativamente traduzida para o português — , nunca perdeu sua essência “west americano”.

Na cidade grande, escolheu uma profissão nada pretensiosa: jornalista. Até gostava do que fazia, e vez ou outra conseguia algum furo, principalmente sobre si mesmo. Mas curtia mesmo era botar sua capa e sair voando até alguém que precisasse de ajuda.

Homem de uma mulher só — uma por vez, pelo menos — , nem à bebida era muito dado. Só me lembro dele bebendo no seu segundo filme, e foi uma catástrofe! Mas depois disso aprendeu a lição. E até onde sabemos, sua dieta líquida se restringe a leite.

A popularidade não o transformou em político nem em pop star. O superpoderoso preferiu permanecer anônimo — um simples jornalista caipira. A maior virtude Super-Homem: se dedicar totalmente ao que ele faz de melhor — ou seja, ser Superman.

Triste foi quando a vida impôs o rompimento (desnecessário) entre ficção e realidade. Super-Homem teve que se mudar pra casa ao lado, a do imaginário, ou “mundo do faz de conta”, como me diziam. Seus superpoderes ficaram restritos à tela do cinema, do vídeo cassete de 7 cabeças e às páginas do gibi.

Era hora de buscar um novo herói, alguém para admirar. Mas do mundo real.

Comecei a recrutar no terremo das artes — todas elas, as artes plásticas, a música, o cinema (…) — , mas logo me decepcionei. Meus novos heróis, quando não “morriam de overdose”, acabavam neuróticos e enlouquecidos com o próprio sucesso. Dava pra admirar suas obras, mas não sua vida. Bem, com exceção de uma dupla, que prometia se tornar o “Batman e Robin” do mundo. Eram conhecidos como Caetano e Gil. Além de gênios musicais, eles lutavam pela liberdade e pela igualdade das pessoas (perfeito!). Mas também não se sustentou; o desfecho eu conto mais pra frente.

Parti então para a política. Tinha tudo para dar certo; os caras têm como profissão melhorar a vida das pessoas, e ainda foram escolhidos por elas para fazer isso. Além do mais, não falta valentia nos seus discursos… Mas, não rolou. Um defendia a prosperidade, que as as pessoas deveriam ter condições e autonomia para desenvolver a si mesmas e a sociedade. Acabou sendo pego com milhões no bolso (talvez tenha levado essa história da prosperidade a sério demais e quis alcançá-la a qualquer custo). O outro defendia uma proposta mais modesta, não de prosperidade, mas de vida digna para todos; o Estado como grande provedor da bonança. Acabou sendo pego com os milhões do primeiro e mais alguns no bolso, mas tudo pelo bem da revolução. Fins diferentes, mas os mesmos meios: corrupção.

Políticos, não. Já entendi. Empresários, talvez. São criativos, trabalham incansavelmente, têm muito sucesso e empregam milhões de pessoas. Empresários são do bem, e é deles que o mundo que precisa. Acontece é que todos os que conheci (dos grandes), apesar de fazerem muitas coisas bacanas, ou desrespeitavam a lei, ou destruíam o meio ambiente, ou abusavam dos empregados, ou tudo isso junto… “para sobreviver”.

Como se já não fosse trágico, surgiu mais uma decepcionante possibilidade. Quando meus pretensos heróis usavam o sucesso em sua esfera de atuação para migrar para outras, com o único objetivo de ganhar mais dinheiro e poder.

A maioria deles migrava para a política, e mesmo sem nenhuma experiência no assunto ou sem uma bandeira definida, acabava eleita. Outros poucos migraram para a arte, mesmo sem um talento específico. Era mais uma forma de cobrar por sua imagem e popularidade.

Lembra do Gil e do Caetano, os promissores? Então, Gil foi político por um tempo, e apesar de ter desempenhado relativamente bem seu papel por 8 anos, está muito próximo de políticos que carregam escândalos milionários de corrupção nas costas. Caetano, muitas vezes controverso, se juntou a um grupo de revolucionários violentos chegados a um quebra-quebra, mais conhecidos como “black blocks”. O que inspira sua revolução e sua tática nem eles nem Caetano conseguem explicar. (Ou não.)

A dupla, antes defensora da liberdade de expressão, agora luta na Justiça para que biografias não autorizadas só sejam publicadas com endosso do Judiciário.

Ai que saudade do Super-Homem! Ninguém tá afim de ser herói apenas por ser? Ninguém de viver da causa?

Aprendi, com tudo isso, o que realmente significa a tal “realidade”. Na prática, o mundo está sem herói. E corre perigo.

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