BRUNA

Não recuso uma história. Pelo contrario, procuro em minhas andanças atentar àquilo que me prenda. De todo modo, desde que descobri a vida como o jogo do acaso, tenho a mania de observar, ouvir e divagar, além de gravar tudo o que posso daquilo que vejo e penso. Não que recuse o acaso. Não escrevo por acaso.

Ouvia um barulho pela janela; estava sentado em frente ao computador. Não era a balbúrdia das buzinas, já costumeiras. Menos ainda a reforma do famigerado posto — conhecido pelo ocasional fim do álcool em madrugadas. Era um estrépito de vozes à toada de vários passos. Era desfile cívico. Talvez pelas nove da manhã, decido-me em fotografar a algazarra.

Eu conto: as ruas do entorno de minha casa estavam tomadas por gente vestida em uniformes coloridos, cada qual com seu grupo. Todos prontos para a descida das nove quadras que separam a junção da Balduíno com a Vicente, entre o local marco do progresso princesino. Bandas marciais, fanfarras estudantis, militares, esportistas, estudantes e motociclistas aguardavam. Enquanto eu, como fotógrafo, andava de grupo em grupo buscando capturar essa gente. Até então me excitava com tudo aquilo.

O início do desfile veio e se fez mais asfalto do que gente. Até aí, vinha junto aos militares, abrindo a avenida. Quando cheguei próximo ao palanque, parei. Esperava a descida da gente que havia fotografado se esgueirando pelo Comendador Miró, Teodoro Rosas e Rua do Rosário. Foi quando vi, descendo pela avenida, o monocromático. Equipamentos, carros e faixas de secretarias, secretarias em uniformes. A cor do jogo político. O fato da ilustre dama, que vira o irromper dos milicos pela via, descer da tribuna, contornar pela paralela até a Balduíno e desfilar, fez-se aberração cromática em minha lente. Parei a máquina pendurada em meu pescoço.

Já não tinha mais estímulo. Nem mesmo quando, finalmente, gente começava a desfilar. Antes já havia subido, descido, ressubido… Buscava fotos, em vão. Parei de frente ao palanque. A garoa já se acumulava em minhas vestes e em minha máquina. Antes que fosse embora, ela acontece.

By fel_dead

Olho-a, tem cabelos pretos, está vestida em casaco de lã azul, saia comprida verde e um enorme cachecol — grande o bastante para esconder seu colo. ‘Uma foto?’, penso em dizer, entretanto titubeio. Mais uma vez volto minha atenção à guria. Agora, percebo a confusão entre o cachecol e seu cabelo, vejo suas mechas curtas, a franja mais curta de um lado do que do outro. Vejo seu colo por um breve momento — o gesto do abri e fechar o casaco, natural em quem está com frio. Minha visão escorrega pelo osso que desce do ombro à fronte do peito. Na concavidade que dá forma à junção do peito, ombro e pescoço, vejo sua magreza, sua beleza.

Assim como a ilustre dama, ela decide desfilar. Mas anda junto das pessoas, em verdade vai pela ‘contra mão’ de toda aquela gente. Sobe pelo espaço que surge entre a grade dos que observam e quem desce. Com o olhar voltado para a gente, ela sorri. Sorri para a gente, sorri pelo emaranhado de gente e suas cores. Fotografo a miscelânea de cores em seu sorriso.

Passo a andar no mesmo espaço que ela. A sua frente por um momento. Para, pede um cigarro e fogo, acende, torna a andar. Viro minha máquina em sua direção, poucos metros nos separam. Não se deixa fotografar. Insisto. Ela Persiste. Aumenta a velocidade de seus passos e em minha última tentativa me reprime. Com olhar de deboche, aponta-me o dedo e diz: ‘Ó!’. Ouço e torno à ideia de voltar para casa. Já não tenho mais o que fazer nas ruas.

Abro a janela de meu quarto, olho a rua repleta e a vejo. Observo-a enquanto sobe pela Balduíno. Decido voltar às ruas, deixo a câmera e levo o isqueiro — numa atitude impensada para encontrar e perguntar seu nome. Ao menos isso me resta. Ando, procuro e nada. Não por acaso penso em comprar cigarros. No posto, perto de onde moro, não há.

Cruzo a Praça dos Polacos. Ando uma quadra pela Saldanha Marinho, viro à esquerda na Coronel Dulcídio até o posto na esquina com a Rua do Rosário. Lá acho fumo. ‘Por que não caminhar mais um pouco?’, passa pela minha cabeça. Na Praça do Ponto Azul, acendo um cigarro. Se passasse pela Senador Pinheiro Machado, teria completado o circuito ‘Regentão’. Em todas as esquinas, olho para as quatro direções. Caio na Teodoro Rosas e subo até o cruzamento com a Coronel Bittencourt, viro à direita. Já fumo uma bituca.

Cigarros e um bingo — o que tenho nos bolsos quando noto: ela e eu andando um na direção do outro. Apenas no momento em que estamos próximos o bastante para que perceba me desfaço da bituca. Paramos. Ela me pede um cigarro, entrego. ‘Você tem bingo?’; ‘Tenho’. Dedilho meus bolsos, levo o tempo necessário para perguntar seu nome. ‘Bruna’, responde com o cigarro nos lábios, instantes antes de acender a chama. Bruna me devolve o fogo. ‘Você quer sentar?’ Respondo enquanto me movimento na escada em que nos sentamos.

Entre as tragadas de Bruna, trocamos algumas palavras sobre o porquê dela não se deixar fotografar. Diz que gosta é de fotografar. Digo algumas coisas. ‘Gosto de teu tom de voz’ — se tem uma coisa pela qual sou criticado é meu tom de voz, dizem não me ouvir, não me compreender — acho um tanto engraçado. Beijamo-nos. Um beijo longo. Para ser sincero, são vários beijos curtos, seguidos um do outro. Em pé, novamente, damos passos lentos, ziguezagueantes, de quem não sabe para onde ir. ‘Para aí!’. Paro e então Bruna me beija.

Ela foi pela Teodoro, levou mais um cigarro meu. Andei em sentido contrário. Sim, nos beijamos pela terceira e última vez antes disso. Nunca fui um bom fotógrafo a fim de capturar coisas como o silêncio, quem diria o que tinha no sorriso de Bruna. Tentei; se fotografei, foi por acaso. Nesse dia, beijei o acaso.

Por Lucas Feld


Texto publicado originalmente no site Cultura Plural, projeto de extensão do curso de jornalismo UEPG.

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