As intermitências da morte

Alunos do curso de Psicologia da Universidade Feevale apresentaram nesta semana suas conclusões de um estudo sobre o luto

Assunto desagradável para alguns, mas objeto de estudo para outros. As conclusões de um trabalho realizado pela coordenadora do Centro Integrado de Psicologia (CIP) e professora do curso de Psicologia da Universidade Feevale, Carmen Esther Rieth, foram abordadas em uma exibição dos acadêmicos da disciplina de Psicologia Hospitalar.

Os alunos foram instigados a pesquisar a fundo sobre questões complexas, mas que eventualmente possam fazer parte dos seus cotidianos enquanto profissionais: como lidar com as diferentes fases do luto, de que maneira abordar o assunto com as crianças, como acontecem os rituais em outras culturas. O encontro ocorreu entre os prédios Azul e Amarelo do Câmpus II, na noite da última segunda-feira (19), e trouxe um bom público ao local.

Lidar com a morte, mesmo em um ambiente acadêmico, é um assunto complicado. A professora Carmen, que é psicóloga há 30 anos, estuda o pensamento humano relacionado ao luto há pelo menos 22. Para ela, por mais que o ambiente favoreça a criação de conhecimento, ocorre resistência por parte de muitos espectadores. “Estive observando um pouco, e teve gente que passou por aqui, e quando viu que o assunto é relacionado à morte, fugiu”, conta. “Outros fazem assim”, e bate três vezes na madeira. “É uma questão cultural, e nossa cultura é uma das que lida pior com o luto”, revela, citando, por exemplo, a comoção geral que houve a partir da morte do ator Domingos Montagner, afogado, no Rio São Francisco, em Sergipe, na última semana.

O fato é que a reação ao luto é impossível de prever. Mas o sentimento pode ser atenuado, se houver ferramentas que possam fazer a pessoa superá-lo. E, é claro, o apoio de pessoas próximas. De todo modo, quase sempre o meio é determinante. “A forma como cada cultura lida com o luto é diferente. Por exemplo, no México, eles fazem festas para celebrar a morte”, diz Carmen, se referindo ao Día de Muertos, comemorado em diversos locais da América Latina todos os anos nos dias 1º e 2 de novembro.

Celebração do Día de Muertos no México — Foto: Flickr/caliopedreams

Para os alunos Adilso de Souza e Morgana Seibert, que estão entre o 5º e o 6º semestre de Psicologia, o assunto provoca reflexão. Eles explicaram os rituais relacionados à morte aos visitantes. “Antes deste estudo, eu tinha uma visão deficitária sobre ela, mas hoje penso que é fundamental”, diz Souza, que tem 34 anos.

“A morte seria um balanço da vida, um fechamento de contas”, afirma ele. O grupo dos rituais também esteve composto pelas alunas Kenya Rabaioli, Geisiane Diniz da Luz e Brenda Nunes, que prepararam-se à caráter, e exibiram um “caixão” decorado em outro canto do espaço montado.

Nos panfletos entregues por eles, havia uma série de “orientações” sobre as melhores formas de como lidar com o luto. Algumas delas:

  • Rituais de despedida são fundamentais para a elaboração do luto de quem fica;
  • Eles dão dignidade à dor, e implicam em reconhecer a importância da pessoa perdida;
  • As dores censuradas pela falta do rito se transformam em luto crônico e potencializam sentimentos de culpa e desesperança;
  • Os rituais ajudam na proteção emocional para o longo prazo.
Souza e Seibert apresentam suas conclusões na Universidade Feevale
De baixo para cima, partindo da esquerda: Geisiane, Kenya e Brenda, com espectadores

A abordagem também fez parte da campanha de orientação sobre o chamado Setembro Amarelo, mês de conscientização sobre o suicídio em todo o mundo. Para Carmen, o tema é considerado tabu em todas as culturas. “O suicídio subverte a ordem natural da vida, e, por conta disto, ainda mexe muito com as pessoas”, afirma.

“Para a família, a elaboração do luto será muito mais difícil. São frequentes os relatos de sentimentos de culpa por não ter percebido a gravidade da situação e muitas outras fantasias que podem levar o sobrevivente a estados melancólicos e inclusive ao suicídio, numa espécie de punição”, completa.

Segundo a professora do curso de Psicologia, ele é a segunda causa geral de mortes entre jovens no Rio Grande do Sul, atrás apenas de crimes violentos. Porém, ela concorda que o assunto não é muito discutido na mídia, razão pela qual campanhas de conscientização como esta são importantes para trazer à tona esta preocupação.

No último dia 1º, a Universidade Feevale fez uma aula aberta da graduação na qual foi abordada a temática do suicídio, e que teve as palestras Suicídio no trabalho: uma mensagem brutal e Trazer a morte para a vida: a abordagem do suicídio no fazer dos psicólogos. Ambas foram ministradas por profissionais da área psicológica. De acordo com Carmen, houve muita participação e engajamento neste encontro.

“Fizemos no Auditório do Prédio Azul, e ficou completamente lotado”, conta. “E é bacana porque sempre alguém tem alguma história para contar, que aconteceu, por exemplo, com o filho do vizinho, ou com o amigo, ou com um conhecido”.

Carmen Rieth, professora do curso de Psicologia da Universidade Feevale

A acadêmica Maria Caroline Kayser, 21, do 7º semestre de Psicologia, não estava apresentando trabalhos, mas acompanhava alguns colegas. Para ela, o assunto interessa e é envolvente. “As pessoas têm medo de falar sobre a morte, ou muitas vezes até medo de passarem por isso”, relata. “Ninguém nunca vai estar preparado, por isso é importante”, aponta.

Se a morte pode ser considerado o fim de tudo, não se sabe. Para a professora Carmen, a espiritualidade é fator-chave para lidar com o luto na maioria das vezes. O pensamento de que algo melhor nos aguarda após o derradeiro momento neste mundo pode ser inclusive confortante em determinadas ocasiões.

Enquanto isso, ela considera que o trabalho do psicólogo de poder mediar estes conflitos de quem esteja fragilizado em situações assim é fundamental. Espinhoso? Com certeza. “O psicólogo, em um hospital, é chamado muitas vezes para confortar um familiar de alguém, por isso estamos abordando o assunto nesta disciplina”, explica. “Os alunos de Psicologia têm de saber lidar com isso, pois faz parte do nosso trabalho”.