Um conto de lombas

Minha casa fica no alto de uma lomba. Daqui de cima, de onde moro, vejo uma bela paisagem urbana. Às vezes, paro para admirá-la; vez ou outra, quando acontece algum congestionamento ou acidente na RS-239, rodovia próxima do Campus II da Universidade Feevale ao longe, todo mundo vai para o meio da rua ver o que está acontecendo.

Não tenho problemas com lombas. No nosso linguajar típico, o termo designa o mesmo que ladeira, ou seja, uma rua íngreme, conduzindo o alto à baixada de um morro, ou vice-versa. Quem mora, frequenta ou passa por uma lomba nunca fica indiferente a ela. Morando no mesmo local há praticamente vinte e três anos, minha relação com a rua de casa é fraterna, apesar de sempre ser a mesma subida. Engraçado que, mesmo às vezes caminhando tanto, como gosto de fazer, encarar a lomba de casa, o último estágio, quase sempre se torna um grande desafio.

Tem gente que não gosta de morar em ruas assim, claro. Mas ainda é mais engraçado tentar entender como a relação das pessoas com as lombas é mais positiva do que se imagina. Um dos exemplos mais charmosos, sem dúvida, vem dos Estados Unidos. São Francisco, na Califórnia, é famosa em todo o mundo não apenas por seus bondes ou pontes, mas pelas colinas que permeiam a cidade de norte a sul — o número correto é quarenta e duas. E, por onde quer que você vá, tem sempre uma lomba no caminho.

LOMBArd Street (o maiúsculo é invenção minha), provavelmente a lomba mais famosa do mundo — Foto: Phil Whitehouse — Flickr

Além da sensação de poder, outra vantagem de se viver em uma rua inclinada é a diversão. Quem nunca pilotou, ou desejou pilotar, um carrinho de lomba quando criança? Lembro-me bem da época em que, sem a mínima noção de aerodinâmica, brincávamos de criar o veículo mais rápido. Sem nem saber o que é atrito, buscávamos o melhor e mais eficiente freio. Uma alavanca de madeira que, ao ser empurrada pra cima, friccionava o outro lado contra o asfalto, proporcionando um som rasgado e às vezes, faíscas. Tipo o Marco Véio, lembra?

Porto Alegre possui uma lomba famosa. A rua Mostardeiro, no bairro Moinhos de Vento, recentemente foi palco de um evento inédito no Rio Grande do Sul. No dia 29 de novembro de 2015, uma ação promovida por uma marca de refrigerantes trouxe à capital gaúcha um toboágua no meio da cidade, com 150 metros de extensão. Mais de 5 mil pessoas se inscreveram para descer no brinquedo.

Na esteira do sucesso — com o perdão do trocadilho —, não foram poucas as iniciativas para se adaptar a ideia. Manifestações espontâneas de diversas pessoas, criadas com o objetivo de emular em suas cidades a realização do evento, logo começaram a pipocar em grupos de Facebook. E não são poucos os favoráveis. No mais relevante deles, em Portão, cidade de 30 mil habitantes na Região Metropolitana de Porto Alegre, foram 25 mil convidados na página oficial. Onze mil manifestaram interesse e de fato, oito mil participaram do toboágua no dia 24 de janeiro de 2016, conforme a organização, citada em reportagem do Jornal VS.

Nos municípios de Guaíba e Novo Hamburgo, também na mesma região, as ideias avançam em eventos similares. Até porque, a proposta é simples: escorregar, se jogar, molhar um pouco o corpo, refrescar-se. Nos comentários dos fóruns, os organizadores fazem questão de deixar claro alguns poréns. Em NH, a descrição do grupo sacramenta que o toboágua deve ser “o mesmo que teve em Porto Alegre” e que alguns fatores passíveis de debate são “o dia, horário, lugar” e até fatores alheios à vontade do público, como “o custo para trazer algo assim para Novo Hamburgo” e a “liberação da prefeitura”.

Mas estes não devem ser empecilhos. Um bom planejamento, aliado ao marketing bem construído devem sim, viabilizar os projetos, já que a aprovação popular é quase absoluta. Ideias para lombas onde o toboágua deve ser instalado não faltam. Provavelmente faltarão ingressos no dia.

Desde a descoberta da roda, até o toboágua gigante, passando pelo morro da vó Salvelina, a relação do homem com os espaços íngremes onde ele podia se locomover com segurança sempre atraiu a atenção. E também suscita a imaginação. Como no dia, em que, no pé da lomba de casa, imaginei que a minha rua poderia muito bem se transformar em uma escada rolante gigante. Não faria esforço nenhum para subir ou descer. Mas aí, pensei melhor. Onde é que eu e meus amigos brincaríamos de carrinho?

Lomba da minha casa — Foto: Arquivo pessoal
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