O inventor e o chuveiro

“Não esqueça de levar uma toalha” foi a recomendação que recebi do inventor Geraldo Coppi quando ele me convidou para testar sua criação. Mas claro, sua invenção é um dispositivo para bombeamento da água do box do chuveiro, então, pelo bem da ciência, eu teria que molhar meus cabelos para saber se o aparelho funcionava como o Geraldo havia prometido.

Geraldo é um simpático inventor de meia idade, com uma frondosa barba, um jeito calmo e apaixonado pela sua profissão de modelador, que, em suas próprias palavras, é “uma das profissões mais antigas da humanidade”. Ele é um artista, que com suas próprias mãos ou com o apoio de grandes máquinas industriais já transformava idéias abstratas ou impressas no papel em objetos reais muito antes que as impressoras 3D estivessem na moda e na mão de todo mundo.

Conheci Geraldo no evento 7o. Startup Day, organizado em colaboração pelo Movimento Vale Empreender e o Laboratório Aberto do Centro de Competências em Manufatura do ITA, em São José dos Campos. Naquele dia uma dúzia de equipes ou empreendedores solitários tomaram o palco para divulgarem seus projetos e receberem feedback ou palavras motivacionais do público presente.

A última apresentação foi do Geraldo. Ele chegou com sua invenção, o “sistema para reuso da água do banho e do lavatório em descargas”, e depois de contar um pouco sobre o desenvolvimento do projeto foi correndo buscar um balde de água para mostrar o funcionamento do sistema.

É um sistema porque é composto por três dispositivos. O principal deles é um reservatório quadrado, com uns dez centimetros de altura, uns oitenta centimetros de lado, que é colocado no chão do box do chuveiro. O reservatório possui em seu topo uma plataforma, sobre a qual o usuário fica em pé durante o banho. Nas laterais há furos por onde a água usada do chuveiro é coletada e armazenada no reservatório abaixo.

Mas apenas coletar a água do chuveiro no reservatório não é útil. É necessário extrair a água de lá para fazer algo útil com ela, como dar a descarga no vaso sanitário. Enquanto outros inventores de produtos similares adotaram formas mais convencionais de bombear a água usando por exemplo bombas elétricas, Geraldo percebeu uma fonte de energia barata e sustentável: o próprio indivíduo que está tomando banho!

É que as pessoas durante o banho, no ato de ensaboar seu corpo ou mudar sua posição embaixo da água do chuveiro, naturalmente deslocam seu peso de uma perna para a outra. Baseado nisso Geraldo adaptou a plataforma do reservatório para que com este movimento natural o próprio peso da pessoa bombeie a água para um outro reservatório fora do chuveiro.

Foi muito legal a exposição do dispositivo no ITA. Geraldo enchia o reservatório com água de um balde e pedia para que as pessoas subissem e experimentassem. A água era bombeada com muita força, mas isso acontecia porque as pessoas subiam e conscientemente ficavam bombeando com seu peso. Geraldo insistia: “não precisa bombear com força, apenas suba e simule os movimentos que você faz quando se ensaboa, que a água é bombeada naturalmente!”. E repetia para cada um que subia de novo. E repetia…

Gostei muito da apresentação. Depois do evento mantive contato com o Geraldo e eventualmente ele me convidou para conhecer sua oficina de trabalho e testar o chuveiro em sua casa. Ele já me esclareceu que eu não era o primeiro a ser convidado para testar o chuveiro, então não pude me sentir especial ;-)

Fui recebido muito bem pelo Geraldo e sua esposa. No banheiro da casa deles pude ver os outros dois dispositivos que compõem o sistema. Um reservatório de água que fica embaixo da pia e um vaso sanitário, ambos especialmente projetados e fabricados pelo Geraldo para aceitar e despejar a água do reservatório.​

E testei o chuveiro. Remeto a seguinte foto como evidência.

Sistema Coppi, composto pelo reservatório do chuveiro, reservatório sob o lavabo e vaso sanitário. Nerd barbudo não faz parte do sistema.

Impressionante, como Geraldo falou, não é necessário fazer um esforço consciente para bombear a água. Basta realizar os movimentos normais durante o banho que a água é continuamente bombeada para o reservatório da pia.

O sistema funciona muito bem e consegue reaproveitar toda a água do chuveiro. A economia em consumo de água e em tratamento de esgoto é evidente. E as variações do sistema estão em teste na casa do Geraldo há sete anos. Se a senhora Coppi aprova, então é porque funciona BEM.

Mas não é só o “sistema para reuso da água do banho e do lavatório em descargas” que me chamou a atenção.

O que me impressionou mesmo é a perseverança deste inventor, que insistiu quando as pessoas diziam que a idéia não daria certo. Que inventou máquinas e ferramentas com suas próprias mãos para poder construir aquilo que imaginava. Que não descansou enquanto não chegasse à resposta para seu problema.

A história dele é um lembrete de que é fácil desistir na primeira dificuldade, mas é difícil e leva tempo inventar e construir coisas maravilhosas.

Tecnicamente, o produto dele já é maduro e funciona perfeitamente bem. Mas chegou o momento em que o produto tem que ganhar o mundo. Tem que sair do banheiro da senhora Coppi e alcançar os banheiros de pessoas com consciência ecológica, as pousadas, academias e hotéis. Para isso precisa de alguém que deixe o aparelho bonito. E precisa de um nome mais curto.

Se você mora ou tem disposição para vir a São José dos Campo e quiser conhecer o sistema, entre em contato com o Geraldo Coppi. Ele é uma pessoa fantástica, e não estranhe se ele logo sair te convidando para tomar um banho em sua casa.

Geraldo Coppi pode ser encontrado no Facebook, ou através de seu site, Coppi Design.