Quando meu pai me levou a um jogo e mudou minha vida. Há 20 anos

Uma vez contei há algumas pessoas que lembrava da Copa de 1994 mesmo tendo nascido em 1990. Todas duvidaram. Mas eu cravo que minha primeira memória é do dia de Brasil 3 x 2 Holanda, com familiares meus da Bahia visitando Santos.

E ali eu poderia ter percebido que o futebol era meu exercício de memória preferido. Se nosso cérebro precisa de treino, é o futebol que exige do meu, que é o Guardiola da minha mente, tentando modernizar meus pensamentos que, assumo, às vezes pego presos no passado (afetivo, sempre).

Mas digo que o futebol é minha primeira memória pois nesta quarta-feira, 19 de agosto de 2015, completam-se 20 anos do dia que mudou minha vida. Do dia que lembro como definidor de quem viria a ser Felipe Gama Noronha — ou, ao menos, de quem este ainda sonha em ser.

Flashes não me deixa esquecer de meu pai e eu nos ajeitando em um banco vermelho, parecido com o de repartições públicas, com números impressos em suas costas, como se fosse uma fila de espera para um médico ruim.

Flashes não me deixam esquecer do gramado que estava a cerca de 20 metros de meus olhos, batido, estragado.

Flashes não me deixam esquecer de meu pai me ensinando que árbitros são sempre ladrões. O curioso é que certos ensinamentos de nossos pais ficam imutáveis para sempre. Desde então eu nunca mais xinguei um árbitro. Era uma criança mala, virei um adulto chato, e o fato de eu nunca me dirigir aos árbitros com xingamentos talvez seja uma pequena rebeldia infantil impregnada na mente.

Flashes não me deixam esquecer que o primeiro gol de meu time que vi in loco na vida foi daquele do qual me consideraria uma testemunha até hoje. Certo, Messias?

Mas o mais importante é lembrar que, há exatos 20 anos, eu descobri que tudo o que eu queria da vida era estar toda semana dentro de um estádio de futebol. Que eu queria estudar aquilo, aqueles 22 caras correndo por uma bola. Que eu queria escrever sobre aquilo, passar meu conhecimento para outros e adquirir conhecimento de tantos que me ensinam até hoje, mesmo sem saber.

Foi naquele dia 19 de agosto de 1995, sentado em uma cadeira vermelha descascada e dura, que eu descobri que eu queria ser jornalista esportivo.

E é por isso que, 20 anos depois, eu não desisto. Porque ter memória afetiva pode ser ruim quando você pesquisa de forma mais aprofundada anos depois e vê que guardava um fato errado.

Mas e quando o fato é abstrato? Não há pesquisa que me impeça de sonhar, em ser algo. E por isso, 20 anos depois, agradeço ao meu pai por ter me levado a meu lugar preferido no mundo até hoje.

Qualquer lugar em que, no centro, há um retângulo verde com marcações em cal que me permita escrever depois sobre a partida de futebol que ali ocorreu e que me encanta mesmo depois de duas décadas.

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