Maçã e a macieira.

I.

Acordei bem cedo e tive vontade de tomar suco de maçã. Tomar suco de maçã é uma atividade bem inusitada para mim. Não tenho o hábito de tomar suco de maçã. De fato, não tinha a mínima ideia de como se processa a maçã para se tornar o que eu realmente queria que era, de fato, suco de maçã.

Penso, e me enche de alegria, que a minha vontade de tomar suco de maçã se baseia, pura e unicamente, na vontade de suco de maçã. A maçã não teria caído na minha cabeça para que eu pudesse resolver o problema de milhares de pessoas (ou de algumas tantas que valorizo), mas sim, de ter aparecido para mim como uma oportunidade única de transformar-se em suco de maçã.

Agora, uma pequena confidência: eu não gosto de suco de maçã. E isso me deixou ainda mais feliz quando acordei e vi que minha garganta urrava por suco de maçã para simplesmente tomar aquele suco que, por ventura, eu poderia gostar a partir de agora: ou não; o que importa, simplesmente, é a vontade de tomar o suco de maçã.

E toda a epopeia do suco de maçã alcançou seu ponto máximo: eu não tinha comprado maçãs aquela semana. Por que não comprei maçãs? Ora, a resposta está logo ali. Eu não sou do tipo de pessoa que gosta de suco de maçã, logo, não senti necessidade, e nem vontade, de trocar dinheiro por maçã.

A minha atitude foi simples. Não fui ao mercado, nem à feira e não comprei as maçãs que se processadas, poderiam me dar suco de maçã. Eu já estava feliz o suficiente de entender a minha própria vontade de tomar o suco de maçã em virtude de, nada mais nada menos, ter quisto suco de maçã pelo simples fato de experimentar o suco pelo suco — e meu corpo já se sentia satisfeito e alimentado por isso mesmo.

II.

Em uma via muito movimentada, havia uma macieira protegida por um cercadinho de cerca de 20 centímetros de altura. Do tronco da árvore até o cercado, havia um espaço de mais ou menos uns 80 centímetros. O espaço entre o tronco e a cerca tinha terra, com pouca grama, e umas poucas formigas marchando por aquele continente.

Estava muito quente e não chovia há dias. Tomei uma decisão inusitada e resolvi me encostar na árvore, com a bunda colada na terra e minhas pernas dobradas em cima da cerca. Meus joelhos bem em cima da cerca, com as canelas e os pés para fora.

A única maneira de eu me posicionar na árvore se dava de um jeito que a sua sombra ia para o outro lado: os carros estavam protegidos do sol e eu, suando bicas. Suava bastante. Tinha tomado a decisão de vestir uma camiseta preta que havia ganhado da minha avó.

As pessoas passavam por ali e não entendiam o que estava acontecendo. Estava desconfortável, mas não queria levantar. Alguém havia plantado aquela árvore e ninguém iria se recolher por lá? Por que então alguém plantaria uma árvore sem ser para que qualquer um se recolha e possa organizar-se na sua ausência? Ou árvores precisariam de manual de instrução, ou algo do gênero?

Acho que a vida será boa até eu morrer e poderei plantar uma árvore na qual pelo menos uma pessoa poderá se refrescar à sombra.

LV.

Nunca vou me esquecer do dia quando fui ao banheiro, naquele calor que só dava e, procurando por um tubo de pasta de dente, vi o seu sorriso num copo de requeijão.

Que fantástico, que estranho. A parte curiosa é não me lembrar se aquele momento foi conversado com qualquer que seja. Talvez tenha puxado alguém de canto e ouvido pela primeira vez aquilo que talvez eu já soubesse: dentes não duram para sempre, mas nada impede que a gente continue mastigando.