Quem matou a bola de três?

Uma aventura basqueteboliscamente policial.

De fato, aquilo havia assolado toda a cidade. Algumas pessoas ficaram sem dormir por dias e outras alegam ter visto tudo com os próprios olhos (mesmo que a idade não batesse com o ocorrido). A delegacia de polícia da cidade ficou abarrotada por dias. Dizem que vieram até repórteres da capital, mas isso aí, dizia o senhor Gilson, era lorota. Gilson tinha jogado basquete durante anos na cidade: dizem que fazia parte da melhor dupla que a cidade havia visto — o pick ‘n roll com seu Nelson era coisa de outro mundo.

Gilson não tinha participado daquele jogo, mas fora convidado a depor: a sua influência na região do ginásio era enorme. Não contei ainda, mas estávamos em uma pequena cidade do litoral. A avenida principal dava para a praia, um ambiente não muito propício para banhistas, mas muito conveniente para uma batida de limão e um cariri com mel, à moda local.

Ao lado dos bares, a moçada (dali uns vinte anos), colocaria seus carros e motos à disposição de qualquer transeunte para quicar ao som de Mc Kekel, mas, no dia de hoje, o que importava era o crime que assolou a cidade — disseram que mataram a bola de três.

Em uma cidade pequena, não se tem muito o que fazer. Mas mesmo sem muitas atividades (dizem que naquele fim de semana o cinema havia quebrado, acho que foi o projetor), os jogos do time de basquete não faziam muito sucesso. No ginásio, as arquibancadas eram três andares sobrepostos de tábua de madeira escura, um pouco acareada pela maresia. Mesmo estando a alguns metros da orla, havia areia em tudo quanto é canto, o que dava a todos aqueles que não eram muito interessados no esporte um misto de azia com tontura (ainda não haviam inventado o dramin).

Mas teve um dia, a partir das 18hrs, que a coisa foi ficando diferente. Tinha sido um calor de quarenta graus durante a tarde e começou a esfriar. Era um dia muito importante para os envolvidos, ilustres desconhecidos depois do tempo de Nelsão e Gilson. Os arquirrivais haviam vindo de balsa para disputar o que era a disputa do século naquela pequena cidade litorânea — pelo menos para aqueles poucos envolvidos.

E pouco a pouco, o ranger dos tênis na quadra foi ficando perceptível de lá para a aldeia dos pescadores. Haviam caprichado: litros e litros de Coca Cola foram utilizados para que ninguém escorregasse. E, na quadra, havia uma pequena batalha.

Gilson e Nelson estavam presentes. Afinal, eram respectivamente o guarda chaves do almoxarifado e o técnico do time. Algumas mães, poucos namorados e namoradas por ali. E a coisa foi crescendo, e ninguém esperava, pois foi tomando grandes proporções e alguns estavam disposto a sacrificar mais do que poderíamos prever, considerando aquele grupo de caiçaras pulando de um lado para o outro.

Às vezes, podemos achar que o tempo para. Outras tantas, podemos rodar por toda uma vila, uma cidade ou aldeia, sabendo que alguém virá tirar alguma espécie de satisfação, ou que teremos uma visita indesejável e termos um medo danado de tomar uns tapas ou mesmo um tiro de escopeta. Mas poucas vezes se consegue prever um crime anunciado (até porque o anúncio pode não ter interessado a ninguém) e não somos capazes de conter o impeto de violência, multifacetado e indecifrável, que move alguém para uma atitude que não se esperava (ou, se se esperava, pelo menos todo mundo pediu truco).

E a coisa foi ficando grande e a sirene tocou. Algumas pessoas estavam desmaiadas, outras completamente fora de si. Ninguém viu, mas todos ficaram sabendo e foram até chamar as autoridades. Sim, de fato, ficou comprovado que mataram a bola de três.

E dizem que foram dias de arruaça, de cachaça e muito choro por ali. A delegacia de fato foi acionada em virtude do homicídio duplamente qualificado (se fosse ‘triplamente’ ficava muito fácil, não é mesmo?).

Muita lágrima rolou naquele dia. Houve um crime de primeira grandeza e a polícia e a cidade só souberam no outro dia. E ninguém achava o culpado. Nelson se mudou para São Luiz do Paraitinga para morar com a filha e nunca mais o acharam para tocar no assunto. O Gilson, de tão rabugento, não era dos mais confiáveis, sabe como é. O homem adora xingar os turistas da sacada do seu sobrado.

E o culpado, vocês me perguntam. O culpado, ninguém sabe. Dizem que parece o pé grande e que no dia a dia, ninguém gostava dele. Era calado, não tomava banho e não ouvia reggaeton. Cabelo desgrenhado, um cavanhaque horroroso e um jeito abobado de falar. Às vezes o crime perfeito vem desse jeito mesmo, sem anúncio e sem prenúncio. O delegado espalhou o retrato falado, as crianças fingiam sê-lo no recreio da escola, tomando pito da professora e do bedel (que juram que fazia parte do time, mas isso nunca foi comprovado).

Matou a bola de três e saiu ileso. O crime perfeito e o delegado a ver navios.