Futebol: um esporte que não é para todos

Torcida do Portland Timbers protesta contra a homofobia, em jogo válido pela MLS de 2013.

Atualmente, uma das principais pautas discutidas entre torcedores é a elitização no futebol promovida pela modernização. Neste debate, muito se discute sobre a exclusão das pessoas de baixa renda, ou seja, o afastamento do “povão”. Entretanto, por que quando tratamos e reclamamos da exclusão de uma parte dos torcedores dos estádios, deixamos de falar das mulheres e homossexuais?

Vítimas de discursos hostis no dia-a-dia, mulheres e homossexuais não deixam de vivenciar isso em partidas de futebol. Enraizado na sociedade e carregado na garganta de cada torcedor, o preconceito que cruza os portões dos estádios é desapercebido durante a revista da polícia, passa pela catraca e é entoado em milhares de vozes nas arquibancadas.

Por ser algo presente desde os primórdios do futebol, os torcedores, inconscientemente, disseminam mais intolerância contra uma parte significante da sociedade. O futebol está se modernizando, porém, parou no início do século XX e não está evoluindo. Futebol, chegou a hora de discutirmos esse problema.

Machismo

Nesta semana, o Clube Atlético Mineiro fez a apresentação de seu novo uniforme desenvolvido pela DryWorld. Durante o desfile, onde todos os modelos estavam totalmente vestidos, surgiram mulheres vestindo roupas íntimas e a camiseta do clube. Ou seja, tratadas como objetos para agradar o público masculino. Por que não vesti-las? Era necessário coloca-las de forma sensual? “Ah, mas elas aceitaram estar ali”, ok, mas o convite para tal trabalho nem deveria ter sido feito.

Li o jornalista Rica Perrone dizer que o “clube acertou na ação de marketing” Sério, Rica? Eu vejo uma exploração desnecessária do corpo da mulher. O Galo errou. Não pensou em sua torcedora e faltou com respeito à mulher, principalmente, a atleticana.

O caso em Belo Horizonte não é primeiro na história do esporte — e também não será o último, infelizmente. Lembro-me de quando era garoto, em 2007, na final do Campeonato Paulista de 2007 no Morumbi. A bandeirinha da partida era Ana Paula Oliveira. Eu estava sentado na arquibancada da lateral em que ela trabalhava. Ali vi o lado primitivo do homem aflorar. Nunca esqueço dos diversos assovios, gritos de “gostosa”, entre outros abusos que ela sofria. Naquele momento, parecia algo engraçado. Mas não era. Hoje, como consciência disso, imagino quantas partidas ela teve de aturar aquilo. Eu não passaria do terceiro jogo.

Atualmente, Ana Paula Oliveira é diretora da Escola Nacional de Árbitros de Futebol da CBF

Mas não foi só dentro das quatro linhas que Ana Paula sofreu com o machismo. Em 2007, a ex-assistente de arbitragem aceitou um convite para pousar nua na Revista Playboy, e mesmo com um ótimo currículo, viu sua carreira declinar. Ano após ano, a bandeirinha apitava divisões inferiores.

No mesmo ano do trabalho para a revista, Ana Paula, o ex-vice de futebol do Botafogo Carlos Augusto Montenegro, dirigiu ofensas machistas contra a auxiliar. “A Ana Paula Oliveira é totalmente despreparada. Não existe mulher em Copa do Mundo, muito menos trabalhando em final de Liga dos Campeões da Europa. Mas colocaram nossa partida.”

No ano passado, Fernanda Colombo Uliana foi eleita a melhor assistente do Campeonato Pernambucano
“A gente pega essa bandeira bonitinha. Se ela é bonitinha, que vá posar na Playboy, no futebol tem que ser boa de serviço. Ela não tem preparo, os caras gritam e ela erra.”

A frase acima foi dita em 2014 pelo diretor de futebol do Palmeiras (na época, do Cruzeiro), Alexandre Mattos. A fala foi dirigida à assistente Fernanda Colombo Uliana, após derrota da Raposa contra o rival Atlético Mineiro.

Fernanda teve atuações contestadas em 2014, porém, quando era lembrada pelos comentaristas, sempre carregada adjetivos de “musa” ou “gata”. Para piorar, seus supostos erros nunca forma associados a sua competência, mas sim, a sua beleza. Mais um caso de machismo.

A catarinense ficou dois meses afastada, passou por uma reciclagem naquele ano e foi rebaixada para atuar na Série C do Brasileiro.

Sempre ouvi que o futebol era um esporte democrático. Mas não é. Nós enxergamos o futebol como algo feito exclusivamente para homens, o que torna a dificuldade da representação feminina neste mercado mais complicada ainda. O machismo do mercado de trabalho reflete de forma mais agressiva no futebol. A própria Ana Paula já afirmou que “não era aceita por seus colegas de profissão”.

A temporada de 2016 já começou e trouxe o machismo junto também. Na série A2 do Campeonato Paulista, a bandeirinha Márcia Bezerra Lopes Caetano sofreu uma série de insultos machistas pelo lateral Janilson do Votuporanguense.

Ao levar cartão amarelo após cometer uma falta, o jogador dirigi-se à assistente e disse que “futebol é para homens, não para mulher”. Expulso após o xingamento, o atleta ainda acrescentou. “Vai pra cozinha lavar louça.”

Os casos de misoginia no futebol não acontecem só no Brasil. Em 2011, o narrador Richard Keys e o comentarista Andy Gray, da emissora inglesa Sky Sports, cometeram um caso preconceituoso contra a bandeirinha Sian Massey. Assista abaixo:

Antes do jogo entre Liverpool e Wolverhampton, pela Barclays Premier League, Keys afirmou que o cameraman passou a informação de que uma mulher iria “bandeirar” a partida. O comentarista se surpreendeu. “Uma mulher bandeirinha?”, indagou com espanto.

Em seguida, Richard respondeu. “Foi o que ele disse. Ele falou que ela é boa. Mas não sei se a gente pode confiar.” Para piorar, Andy Gray disse que não confiaria em Sian pelo fato de ser mulher. “O que as mulheres sabem de impedimento?”, disse.

Após a disseminação do preconceito, Andy Gray foi demitido, e Richado Keys renunciou ao cargo.

Esses são alguns dos diversos e inacabáveis casos de preconceito contra a mulher no futebol mundial. Está na hora dos torcedores refletirem sobre o assunto e analisarem se casos como o do uniforme do Galo ainda devem passar batidos.

Em uma página sobre futebol no Facebook, resolvi comentar sobre o caso e afirmei que ocorreu machismo. Pronto. Uma chuva de comentários preconceituosos que alimentam ainda mais esse problema. Não debati, já que o preconceito está presente no discurso da torcida (e sociedade) brasileira, e me parece irreversível.

Não digo que homens devem aderir ao movimento feminista, porém, a luta contra o machismo e o apoio à igualdade e liberdade da mulher deveriam ser pautas universais.

Porém, as respostas que recebi não se alinharam apenas ao pensamento machista. Logo surgiram inúmera frases como “desrespeitou a lei do Gil”, até que cheguei ao ápice de ignorância. “ Mimimi e homem que reclama disso é viado. SIM.”

Futebol, precisamos falar sobre homofobia.

Homofobia

Ah, o estádio! O local em que a provocação aos adversários é bastante comum, especialmente, com gritos homofóbicos. Aliás, este, sim, é um verdadeiro tabu para as arquibancadas brasileiras. Os torcedores compreendem que é “normal” chamar alguém de “viado” ou, na moda atual, de “bicha”.

De fato, a homofobia é levada de casa ao estádio. Os mesmos que falam que “aceitam homossexuais, desde que não sejam os filhos deles”, são aqueles que dizem que “não tem viado na nossa torcida, isso é coisa de torcedor de time X”. Ou seja, assemelham a homossexualidade a um problema, como se fosse um motivo de chacota.

Utilizo a moda do momento, como exemplo: o grito de “bicha” que ecoa no estádio quando goleiro cobra o tiro de meta.

O pontapé inicial surgiu com o “Time do Povo”, quando a torcida corintiana nos jogos contra o rival São Paulo, principalmente, contra o ex-arqueiro Rogério Ceni. Grito que começou a ser utilizado em quase todos os jogos do Brasileirão de 2015.

Já me disseram que o grito “é só uma zoeira, porque todos sabem que o Rogério não é gay”. Esse é o problema. Não é “só uma zoeira” que todas as arquibancadas aderiram. As torcidas estão utilizando uma orientação sexual, ou seja, uma característica de uma pessoa, para tentar desmoralizar — ou sei lá para que seja — um atleta de futebol. Isso é gravíssimo e está passando despercebido.

Aliás, não diga que ninguém liga se o jogador é homossexual, porque é só zoeira. Há um tempo atrás, enquanto atuava pelo Corinthians, Emerson Sheik publicou uma foto dando um selinho em seu amigo Isaac Azar. Pronto. Foi estopim para parte da torcida corintiana realizar ataques homofóbicos.

Além dos comentários ofensivos na internet, o atacante foi alvo de um protesto — SIM, UM PROTESTO— na porta do CT do clube, para cobrar o selinho. Foram estendidas faixas com os dizeres: “Vai beijar a P.Q.P. Aqui é lugar de homem”, “Respeito é pra quem tem” e “Viado não”.

Dizer que homossexuais são aceitos no futebol, infelizmente, é uma mentira. Vale lembrar do protesto que a torcida do Palmeiras fez em 2011, quando o clube tentou a contratação de Richarlyson. Visto como homossexual pelos torcedores, o atleta foi vítima de comentários ofensivos nas redes social, acompanhados da tag #foraricharlyson.

A alimentação desse discurso só enfraquece que o futebol se torne algo que era pra ser desde o início: para todos. Para tentar contornar a situação opressora, torcedores de diversos clubes do Brasil criaram um espaço para lutar pela diversidade nas arquibancadas, por exemplo, o Galo Queer, Palmeiras Livre e o Bambi Tricolor. Outro exemplo que deve ser reconhecido, aconteceu durante a ditadura militar, nos anos 70, quando gremistas criaram a primeira torcida organizada gay registrada, a Coligay.

É necessário lembrar que a homofobia mata diariamente gays, lésbicas e transsexuais no Brasil. Para ampliar esse debate, é preciso do apoio dos meios de comunicação, porém, alguns também colaboram para a disseminação do preconceito.

Em 2015, durante a exibição do programa “Zorra” da TV Globo, tentou “zoar” ao associar o São Paulo à homossexualidade. O jornalista Luis Augusto Simon, o Menon, protestou contra a atitude da emissora.

“ A Globo, em rede nacional, incentiva o preconceito. A Globo, em rede nacional, compactua com a homofobia”, afirmou.

Através de suas redes sociais, o São Paulo rebateu a atitude do programa. “Aqui, o cartão vermelho é para o preconceito. Respeitamos as diferenças, pois vejam só: amamos a união do vermelho, do branco e do preto. Somos gigantes. Somos todos Tricolores. O São Paulo Futebol Clube é contra qualquer tipo de discriminação”. Um belo tapa na cara dos homofóbicos que utilizam o clube do Morumbi como chacota.

Mesmo com o ato do time paulista, o combate à homofobia no futebol é feito de forma tímida. A Fifa que se diz atuante na luta contra o racismo — o que sabemos que é mentira, porque é ineficiente neste ponto — , passou a considerar gritos homofóbicos como “atitudes antidesportivas”, e multou cinco federações, por causa de cânticos homofóbicos em suas respectivas torcidas, durante as Eliminatórias da Copa de 2018.

Entretanto, a mesma Fifa fez vista grossa aos gritos preconceituosos que aconteceram no Brasil, durante a Copa do Mundo de 2014. A federação internacional alegou que o caso era “cultural” no país, o que não significa que eram homofóbicos. Ou seja, combate, mas não combate de verdade.

Com a elitização dos estádios, agora, as famílias podem ‘voltar ao estádio’. É o que dizem. Mas pelo o que vejo, são apenas aquelas famílias aprovada pelo nosso Congresso conservador (homem, mulher e filho). Casal de homens? Nem pensar. Estes são agredidos verbalmente pela própria torcida.

O machismo e a homofobia são velados nos estádios, mas existem, e está cada dia pior. O debate sobre esses assuntos está inadiável. Como diz o próprio ditado futebolístico: tabus servem para serem quebrados.

Concordo que o futebol está ficando chato, mas não por tentar acabar com a homofobia e o machismo. O futebol está chato pelo fato de acabarem com os bandeirões e sinalizadores, por barrarem a festa das torcidas. Não é um grito preconceituoso que vai tornar o estádio “mais legal”. E o futebol tem que estar chato para o preconceito.

Conclusão: enquanto medidas não são tomadas pelos órgãos responsáveis, o que resta é a conscientização nas arquibancadas. E, depois de hoje, percebi que o preconceito é algo enraizado na cultura do nosso futebol, e pelo o que parece, não será removido tão cedo.

Ainda sobre as respostas que recebi naquele comentário, o mais repetido era: “7 a 1 foi pouco”. Tenho que concordar. Realmente, o vexame do futebol brasileiro através dos sete gols alemães foi bem pouco. Sete gols ainda será muito pouco, enquanto continuarmos impondo o conservadorismo ao nosso futebol, discriminando gêneros da sociedade e fomentando o discurso preconceituoso.

Levamos um passeio no futebol e no respeito ao próximo.

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