Série “O Futuro do Transporte” Parte I — Menos Emissões, Mais Energia Limpa

Os meios de transporte são responsáveis por cerca de 25% das emissões de gases do efeito estufa na Terra, segundo a ONU. A urgência na contenção do aquecimento global passa, obviamente, pela diminuição considerável de poluentes emitidos por bilhões de carros, ônibus, caminhões, aviões, navios…

Por conta disso, é natural que grandes empresas e mentes brilhantes passem a procurar por soluções disruptivas. E, neste caso, sair a frente na corrida pelo desenvolvimento e aprimoramento de novas tecnologias pode significar uma vantagem competitiva fundamental e difícil de ser superada. Entre as inovações prometidas, algumas já estão em operação, outras em fase final de teste, em prototipagem ou ainda não passam de projetos visionários, sem data prevista para se tornar realidade, se é que um dia irão.

A partir de hoje, posto uma série de três posts sobre o Futuro do Transporte:

Parte I — Menos emissões, mais energia limpa

Parte II — A ascensão dos veículos autônomos

Parte III — Pelo ar ou abaixo da superfície? O que podemos esperar das próximas décadas

PARTE I — Menos emissões, mais energia limpa

O crescimento dos carros elétricos

Atualmente, são mais de 1 bilhão de veículos automotivos em todo o mundo. Talvez por isso, estes sejam um dos mais evoluídos quando o assunto é energia elétrica. Ano após ano aumenta o interesse das pessoas por EVs (Electric Vehicles), que viraram objeto de desejo não só pelo apelo ambiental, mas principalmente porque conseguiram alcançar o patamar de desempenho, alcance e design até então só conseguidos pelos motores de combustão. O maior responsável por colocar esta categoria de veículos como sonho de consumo de milhares de pessoas é a Tesla, empresa criada pelo visionário Elon Musk.

Quando Musk, em 2003, prometeu um carro elétrico com design arrojado, longo alcance, tecnologia no estado-da-arte e desempenho superior a carros movidos a gasolina, muitos pensaram que tratava-se de uma bravata de um bilionário que queria chamar a atenção. Quatorze anos depois, em 2017, a Tesla chegou a se tornar, mesmo que brevemente, a maior montadora de carros dos EUA, ultrapassando a GM e a Ford (hoje, 29 de abril de 2017, a Tesla é a segunda maior montadora americana em valor de mercado, atrás da GM). Mesmo que este valor seja questionado por muitos especialistas, dada a enorme diferença entre os números das três empresas citadas (a eterna discussão sobre o que conta mais num valuation, se os números do passado e do presente ou as projeções de futuro), não dá pra negar que a empresa da California mudou o mercado, fazendo com seus tradicionais concorrentes também tivessem que embarcar com tudo nesta corrida. Audi, Jaguar, Mercedes, Volvo, GM, Volkswagen… todos estes prometem lançamentos nos próximos anos, totalizando cerca de 120 modelos de EVs diferentes até 2020.

O Model S, da Tesla, já é o carro de luxo mais vendido dos EUA, entre elétricos ou não. O mercado de alto padrão está encaminhado. No mercado de massa, porém, a batalha será mais complicada. O maior desafio para o aumento do market share de carros elétricos em relação aos movidos a combustível reside no valor. O custo para produção desses veículos é consideravelmente mais alto do que os carros de combustão. Primeiro, porque como a produção tem volume bem menor, o preço dos componentes que compõem os EVs acabam saindo mais caros. Segundo, e mais importante, são as baterias. Estas correspondem a cerca de metade do custo total dos veículos. Não fossem elas e o valor de produção dos carros elétricos seria mais em conta do que os de combustível. Até por isso, na França, a Renault adotou uma estratégia interessante com seu modelo EV Zoe. Eles o vendem sem a bateria e os donos assinam um serviço mensal personalizado de utilização desta, de acordo com suas necessidades, numa espécie de leasing. Assim, a Renault consegue cobrar um preço competitivo pelo carro.

Os dias de custo mais alto, no entanto, estão contados. O preço das baterias cai, em média, 20% ao ano. A própria Tesla tem contribuído para isto, investindo muito dinheiro em pesquisa na área. A empresa de Musk inaugurou sua primeira Gigafactory, no estado americano de Nevada, capaz de produzir mais baterias do que todas as outras fábricas especializadas no mundo. Há planos de se construir mais três, uma delas, especula-se, na China. Por isso, uma análise da Bloomberg New Energy Finance mostra que por volta de 2026 os carros elétricos terão custos de produção menores do que seus primos com motores de combustão.

A cruzada dos carros elétricos para dominar o mercado de massa já começou. A Tesla lança em meados de 2017 o Model 3, seu modelo mais econômico até o momento, cujo preço deve iniciar em U$35.000,00 (metade do modelo atual mais em conta). O plano é ambicioso: a empresa pretende vender 500 mil veículos deste modelo já em 2018. Se considerarmos que, em 2016, a Tesla vendeu pouco mais de 40 mil veículos, vemos que Musk e sua turma realmente gostam de desafios ousados. A Nissan também promete lançar, em setembro deste ano, uma nova versão do Leaf, com maior alcance, a preço inicial por volta de U$30.000,00.

O aumento de participação no mercado, porém, vem com barreiras que precisarão ser superadas para que os carros elétricos tornem-se de fato populares. Uma delas é justamente a crescente dificuldade para se recarregar as baterias dos carros. A própria Tesla tem uma rede de estações com esta finalidade. Porém, o aumento no número de carros da marca fez com que a espera para conseguir carregar os veículos aumentasse bastante. Os 30 minutos, em média, necessários para carregar cerca de 80% da bateria já provoca filas e reclamações dos clientes. Imaginem com mais meio milhão de carros já no ano que vem! Por isso, a Tesla anunciou planos para dobrar o número de suas Superchargers Stations já em 2017, de 5 para 10 mil. Também quer aumentar para 15 mil o número de Destination Charges (localizadas em hotéis, resorts e restaurantes); hoje são 9 mil. A Volkswagen é outra montadora que planeja lançar sua própria rede de recarregamento rápido nas rodovias americanas em 2018. Isso sem contar outras redes especializadas em carros elétricos.

Há ainda empresas que apostam em soluções diferentes: a WiTricity está, em parceria com a GM, desenvolvendo carregamento de bateria wireless; assim, você estacionaria seu carro próximo a estações wireless de recarregamento e seu EV seria “abastecido”. Isto está previsto pra ser lançado comercialmente em 2020. Outra, a britânica Char.gy, começou a testar mini estações presas a postes de energia, para facilitar a vida daqueles que têm carros elétricos, mas não têm garagem onde possam plugar o veículo na tomada enquanto dormem, por exemplo. Esta solução também seria útil em situações na qual o indivíduo deixa o carro carregando enquanto trabalha ou vai a um shopping.

Ou seja, o problema das estações de recarregamento parece estar próximo de ser solucionado, abrindo caminho para uma revolução no setor. Uma previsão da Bloomberg New Energy Finance aponta que, em 2040, entre 35% e 47% dos novos carros serão elétricos. A Volkswagen prevê que 25% das suas vendas em 2025 serão de EVs e a Toyota planeja, em 2050, acabar com os carros a combustível (apesar da montadora japonesa apostar em hidrogênio, como mostro abaixo). As próprias empresas de petróleo fazem previsões que admitem o aumento da participação dos carros elétricos. A Total SA, uma das maiores do setor, estima que, em 2030, cerca de 30% das vendas de carros no mundo será de veículos a bateria.

Caminhões são os próximos

Outros veículos automotores também estão adotando tecnologias sustentáveis. A Tesla (sempre ela!) anunciou recentemente que em setembro próximo revelará ao mundo seu caminhão de pequeno porte. A maior dificuldade deste modelo será o baixo alcance se comparado aos modelos de combustível. Assim, os primeiros clientes seriam aqueles que utilizam rotas curtas para realizar seus trabalhos. A adição de caminhões, contudo, faria com que a necessidade por novas estações de recarregamento aumentasse ainda mais.

Para superar a dificuldade com o alcance, a Nikola Motor Company, de Salt Lake City, aposta em um modelo híbrido de caminhão com bateria e hidrogênio de combustível. Esta combinação daria ao Nikola One, um veículo de 18 rodas previsto para lançamento em 2020, um alcance de 1.200 milhas (quase 2 mil km), mais do que suficiente para rivalizar com os competidores com motores de combustão. A empresa, porém, terá um problema igual ao que sofrem as montadoras de carros elétricos: uma rede ainda ínfima para abastecer estes caminhões. Nos EUA, hoje, são apenas 31 localidades capazes de abastecimento de hidrogênio, sendo 28 na California. Por isso, os planos da Nikola Motor Company são mais ambiciosos do que só produzir os veículos. Inspirado na Tesla, a companhia pretende criar sua própria rede de estações de abastecimento. O CEO, Trevor Milton, estima que 364 seriam o suficiente para atender todo o país. O modelo de negócio também é diferente: a Nikola pretende cobrar entre U$5 mil e U$7 mil por mês para que um caminhoneiro possa utilizar o veículo com abastecimento ilimitado na rede de estações da empresa.

Hidrogênio x Baterias

Toyota, Honda, Hyundai e Daimler (Mercedes-Benz) também apostam no hidrogênio, só que nos carros. A Toyota especialmente. A empresa japonesa, que produz o Mirai, acredita que, mais cedo ou mais tarde, serão proibidos os veículos de combustíveis tradicionais. Também afirma que os carros movidos a hidrogênio têm vantagens em relação aos elétricos, como o maior alcance e o menor tempo necessário para se completar um tanque (cerca de três minutos contra entre meia hora e uma hora). O problema da falta de estações de abastecimento, contudo, também aparece por aqui. Por conta disso, a Toyota fechou uma parceria com a Shell para construções de 100 estações pelos EUA até 2024. Alemanha e Japão também têm planos de construção de outras centenas de estações de hidrogênio.

O interesse de uma gigante do petróleo não é exclusivo da Shell: outras 12 empresas do setor formaram um “Conselho Global do Hidrogênio” e planejam investir mais de U$10 bilhões em pesquisas relacionadas ao combustível nos próximos cinco anos. É uma tentativa de se resguardar para o futuro sombrio que cerca o petróleo. Mas também uma forma de entrar na briga contra os veículos a bateria. Elon Musk, talvez o maior entusiasta deles, sempre bateu nas empresas de petróleo e também não mostra grande empolgação quando o assunto é hidrogênio. Para ele, a combinação de bateria e energia solar é a mais eficiente possível. Agora, as empresas de petróleo, ameaçadas pelo crescimento dos veículos elétricos, podem tentar dar o troco em Musk, apostando no hidrogênio como a fonte de energia limpa número um quando o assunto é meio de transporte.

O caminho, porém, ainda é bem longo. A previsão da Toyota é de vender cerca de três mil modelos do Mirai em 2017. Em 2020, está previsto um volume dez vezes maior.

Aviões: os maiores desafios

Responsável pela emissão de gases do efeito estufa na mesma proporção que toda a Alemanha, a indústria de aviação também não poderia deixar de ter seus projetos de se tornar não só mais amigável ao planeta, como de diminuir os custos de operação. Os gastos com combustíveis são o terceiro maior para as companhias aéreas, atrás apenas da folha de pagamento e dos próprios aviões. Por conta disso, gigantes do setor, como Boeing e Airbus, testaram possibilidades de aviões elétricos. A última, com seu modelo chamado E-Fan, com capacidade apenas para o piloto, até teve sucesso em colocá-lo no ar, mas decidiu abandonar o projeto 100% elétrico por um modelo híbrido de bateria e combustível.

Algumas startups prometem inovações radicais. A Zunum Aero, com investimentos da Boeing e Jetblue, pretende, já em 2020, ter em operação um avião com capacidade para entre 10 e 50 pessoas, capaz de voar em um alcance de cerca de 1.100 quilômetros. A Wright Electric quer, em dez anos, ter uma aeronave totalmente elétrica capaz de transportar 150 pessoas por cerca de 500 quilômetros.

Tanto Zunum quanto Wright dependem, no entanto, de avanços consideráveis na tecnologia de baterias. As evidências apontadas durante este texto apontam que tal evolução tecnológica é provável, uma vez que os investimentos em aprimoramento de baterias nunca esteve em níveis tão altos. Porém, não deve ser algo imediato.

Se as aeronaves de grande porte ainda devem demorar para decolar apenas com eletricidade, o mesmo não se pode dizer de modelos menores. E é nisso que apostam algumas empresas. É o caso da H55, com seu Aero1, para apenas uma pessoa. A ideia é utilizar tecnologia de bateria já existente para mostrar que aviões elétricos são realidade e assim, aos poucos, ir aprimorando-a para novos tamanhos de aeronaves. Isso também irá facilitar o processo de regulação do Aero 1. A H55 ainda pretende criar um sistema de propulsão elétrico que possa ser acoplado a outros aviões.

Hyperloop: será mesmo viável?

Outro meio de transporte cercado de expectativas e dúvidas sobre sua viabilidade é o Hyperloop. O conceito, desenvolvido por Elon Musk em 2012 e colocado no mundo para ser estudado e aplicado, consiste em tubos eletromagnéticos, no qual cápsulas contendo passageiros, veículos e cargas seriam movidas pelo vácuo em velocidades superiores a 1.220 km/h, impulsionados pela falta de resistência de ar. Isso faria com que uma viagem de Nova York para Washington, que de trem dura 3 horas, fosse realizada em 20 minutos, por exemplo. Isso tudo sem afetar o meio ambiente. Parece complicado de entender, mas certamente muito promissor.

Não à toa, já há empresas testando a novidade. Uma delas, a Hyperloop One, está organizando uma “competição” global para escolher seus primeiros possíveis projetos comerciais. A popularidade do hyperloop é de fato impressionante, mesmo carecendo de testes e aprovações. Foram mais 2.600 projetos inscritos de todo o mundo. Além disso, há algumas conversas de que a Amazon pode ser uma das interessadas em aplicar a nova tecnologia para entregar produtos em poucas horas. Mas, por mais promissora que seja, o hyperloop esbarra em diversos problemas, como a compra de terrenos pelos quais os tubos iriam passar (os mesmos precisam ser em linha reta, devido à alta velocidade, e os custos para aquisição destes terrenos seriam altos demais) e regulações em geral dos milhares de órgãos do governo americano.

Por isso, apesar do grande apelo, ainda deve demorar bastante para que este novo meio de transporte torne-se realidade, ao menos nos EUA. Em outros países, é bem capaz que chegue antes. Rival da Hyperloop One, a Hyperloop Transportation Technologies, tem conversas avançadas com o governo dos Emirados Árabes Unidos para construção de tubos em Dubai e um acordo com os governos da Eslováquia e da República Tcheca para construção de uma linha que ligará as cidades de Bratislava, Brno e Praga.

Os exemplos acima demonstram que há uma inevitável mudança ocorrendo no setor de transportes devido à sua responsabilidade como grande contribuinte das mudanças climáticas e aquecimento global. Seja por conta de regulações de governos, pela exigência crescente dos consumidores por tecnologias limpas ou pelas grandes e promissoras oportunidades financeiras de ser pioneiro em inovações disruptivas nesta área, as maiores empresas do mundo tomaram ciência desta revolução e pavimentam o caminho para o momento em que os veículos movidos a motores de combustão serão relegados ao obsoletismo.

No próximo post, a Parte II da Série Futuro do Transporte: A Ascensão dos Veículos Autônomos.

https://falaribbe.wordpress.com/2017/04/29/serie-o-futuro-do-transporte-parte-i-menos-emissoes-mais-energia-limpa/