O abandonado, o crucificado e o Espírito Santo
Desde o final de 2017 e o inicio deste ano, eu tenho tido contato com um livro que vem revolucionando toda a minha vida espiritual e meu pensando teológico, a obra em questão é “O Deus Crucificado: A cruz de Cristo como base e crítica da teologia cristã” (MOLTMANN, Jurgen; tradução: Juliano Borges de Melo. — Santo André (SP): Academia Cristã, 2011).
Apesar de só estar apresentando este livro agora, ele já fez parte da primeira postagem deste blog e vem ocupando a maior parte do tempo que eu emprego nas minhas leituras. Mas o ponto que quero abordar, brevemente, nesta postagem, é uma reflexão específica, dentre tantas que Moltmann nos traz, sobre o contexto do abandono de Deus perante o Cristo crucificado.
Creio que o leitor pode se espantar, a primeira vista, com esta reflexão, principalmente no que diz respeito a palavra ABANDONO…será que Deus poderia ser capaz de ABANDONAR alguém? Por que Deus ABANDONARIA o seu próprio filho no momento em que ele mais precisava Dele? Isso só pode ser obra de um Deus muito perverso e que se mostra muito indiferente ao sofrimento alheio de um simples carpinteiro nascido em Belém de Judá:
“Por volta das três da tarde, Jesus bradou em alta voz: ‘Eloí, Eloí, lamá sabactâni?’ que significa ‘Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?” (Marcos 15:34)
Diante da leitura deste versículo, ao qual Jesus explicita o seu abandono por Deus na Cruz, vamos agora ler um trecho do livro do Moltmann, ao qual, fará com que toda a nossa reflexão chegue ao ponto desejado:
“Diante do grito de Jesus por Deus, a teologia torna-se impossível ou ela só é possível como uma teologia cristã específica. A teologia cristã não pode se associar à gritaria de seu próprio tempo e uivar junto com os lobos dominantes. Mas precisa se associar ao clamor dos miseráveis por Deus e por liberdade, oriundo das profundezas do sofrimento deste tempo.
Como contemporânea dos sofrimentos deste tempo, a teologia cristã é verdadeiramente uma teologia contemporânea. Se ela pode ser contemporânea ou não, pouco depende da abertura do mundo dos teólogos e suas teorias, e muito mais da sua verdadeira e irrestrita associação ao grito de Jesus por Deus.
Comparados ao grito por Deus do Jesus moribundo, os esboços teológicos se despedaçam em sua inadequação. Como a teologia cristã pode falar de Deus diante do abandono de Jesus por parte de Deus? Como a teologia cristã não pode falar de Deus diante do grito de Jesus na cruz?
No contexto de sua mensagem divina, a vida de Jesus termina com a pergunta aberta por Deus.”
(Jurgen Moltmann, em “O Deus Crucificado”, pág. 198)
Dentre as diversas reflexões que a citação acima nos leva a fazer, eu quero destacar, rapidamente, duas delas:
1) “A teologia cristã não pode se associar à gritaria de seu próprio tempo e uivar junto com os lobos dominantes. Mas precisa se associar ao clamor dos miseráveis por Deus e por liberdade, oriundo das profundezas do sofrimento deste tempo.”:
Aqui, Moltmann expõe um dos pontos centrais de sua teologia, que é o de associar o fazer da teologia cristã, ao ouvir as vozes dos indigentes por liberdade dos tormentos DESTE TEMPO! Ou seja, a teologia cristã, por mais que esteja empenhada no Reino que está por vir, ela, em hipótese alguma, pode se excluir dos debates e das demandas DESTE TEMPO, como, por exemplo, dos anseios de justiça social pelos que são excluídos socialmente diante do sistema capitalista vigente e perpetuado pelos lobos dominantes;
2) “Comparados ao grito por Deus do Jesus moribundo, os esboços teológicos se despedaçam em sua inadequação. Como a teologia cristã pode falar de Deus diante do abandono de Jesus por parte de Deus? Como a teologia cristã não pode falar de Deus diante do grito de Jesus na cruz?”:
É esta reflexão que, especialmente, nos interessa para o melhor entendimento da postagem. Moltmann, nos leva a visualizar um dos episódios mais intrigantes da teologia cristã e que, no entendimento puro e exclusivamente racional do ser humano, é uma passagem extremamente contraditória e que não encaixa, a priori, na história que os Evangelhos nos contam. Pois, é bom lembrar, ainda estamos levando em consideração uma mentalidade racionalista, e que assim, para seguir a lógica de um deus salvador e misericordioso, este Deus, o Pai, deveria AMPARAR e CONSOLAR o seu filho, não é? Mas é justamente aí que entra o imponderável de Deus;
Então, dito isso, vamos agora apreciar, com toda atenção, três versículos bíblicos que vão nos ajudar a finalizar o nosso raciocínio:
“Em verdade, em verdade vos digo que aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço e outras maiores fará,porque eu vou para junto do Pai. E tudo quanto pedirdes em meu nome, isso farei, a fim de que o Pai seja glorificado no Filho. Se me pedirdes alguma coisa em meu nome, eu o farei. Se me amais, guardareis os meus mandamentos. E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Consolador, a fim de que esteja para sempre convosco, …” (João 14: 12–16);
“Mas eu lhes afirmo que é para o bem de vocês que eu vou. Se eu não for, o Conselheiro não virá para vocês; mas se eu for, eu o enviarei. Quando ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo.” (João 16: 7–8);
“Chegada, pois, a tarde daquele dia, o primeiro da semana, e cerrada as portas onde os discípulos, com medo dos judeus, se tinham ajuntado, chegou Jesus, e pôs-se no meio, e disse-lhes: Paz seja convosco. E, dizendo isto, mostrou-lhes as suas mãos e o lado. De sorte que os discípulos se alegrara, vendo o Senhor. Disse-lhes, pois, Jesus outra vez: Paz seja convosco; assim como o Pai me enviou, também eu vou envio a vós. E, havendo dito isto, assoprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo.” (João 20:19–22);
Jesus Cristo, apesar de ressuscitar três dias depois, morreu crucificado e abandonado na cruz, como um marginalizado e rejeitado…Ele sofreu, padeceu, solitariamente…Ele levou sobre si as nossas dores, todos os nossos pecados…sua morte, nos deu nova vida, nos trouxe justiça, nos deu o Consolador, o Espírito Santo! Mas nós teimamos em não entender que, Ele, Jesus Cristo, mesmo passando por aquele momento de ABANDONO na cruz, no seu momento mais vulnerável, Ele se lembrou de nós, dos seus filhos, e por Seu grande amor e misericórdia, ele não permitiu que nós passássemos também, por este ABANDONO…pois Ele nos enviou o Espirito Santo, o Consolador! Por isso, nenhum de nós pode sequer tentar entender ou mensurar o sofrimento e o abandono que Cristo passou na cruz, pois nós temos o Espirito Santo, nós temos a esperança, nós JAMAIS seremos ou estaremos abandonados! Ele está sempre conosco, em todos os nossos dias…até a consumação dos séculos.
Amém!
