A fotografia como uma ferramenta para se contar histórias: a produção criativa de Laia Abril

Gosto muito do trabalho de Laia Abril. A catalã é provavelmente uma das minhas fotógrafas favoritas no momento. O trabalho de Laia tem uma abordagem bastante específica, eficiente e que já começa a se disseminar no processo criativo de outros fotógrafos e artistas visuais contemporâneos. O grande ponto de virada no processo de formação de Laia foi, muito provavelmente, sua passagem pela Colors. A revista italiana foi uma das grandes publicações dos séc. XX e XXI, criando uma conexão profunda entre texto, direção de arte e imagem, criando um terreno extremamente fértil para o desenvolvimento criativo. Além de Laia, passaram por lá inúmeros nomes de destaque na área editorial, entre eles Ramón Péz, diretor de arte e parceiro de Laia na maioria esmagadora de seus projetos.

Thinspiration, Laia Abril.

Os primeiros dois trabalhos de Laia que começaram a projetar seu nome na cena fotográfica foram: Thinspiration e Tediousphilia. As duas criações, finalizadas como fotolivros, lidam com questões próximas: o corpo na era da internet, a transformação de certos valores morais e, em um aspecto formal, a apropriação de imagens. Estes dois trabalhos já começavam a apresentar as características que iriam firmar o espaço de Laia dentro da fotografia contemporânea, mas ainda de uma forma não tão presente. Os dois trabalhos se concretizam como livro e tem na relação entre fotografia e palavra seu principal ponto narrativo. A diferença entre estes projetos e os que viriam a seguir é que as duas mensagens (o movimento pró-anorexia e casais que vendem transmissões ao vivo de sexo pela internet) são igualmente potentes e simples de se entender. Dessa forma, as imagens apresentadas dão conta de transmitir grande parte do sentido necessário para se entender o trabalho, algo que se transformou nos projetos seguintes.

Tediousphilia, Laia Abril.

O trabalho seguinte, lançado em 2014, é The Epilogue. Este foi o grande marco na carreira de Laia até o momento. O livro, produzido em parceria com Ramón Péz e lançado pela Dewi Lewis foi indicado em uma série de listas de melhores do ano, além de ser um dos finalistas do Photobook Awards, organizado pela Aperture / Paris Photo. Neste trabalho, Laia apresenta a história de Cammy, uma jovem americana que faleceu devido a uma série de complicações ligadas a um transtorno alimentar. Para contar esta história, Laia usa imagens de arquivos, imagens feitas por ela durante um período com a família de Cammy, documentos e entrevistas com familiares e amigos.

A história contada em The Epilogue é super complexa e cheia de detalhes importantes. A solução encontrada para não perder estas informações e não sobrecarregar a importância informativa das fotografias foi trazer uma função clara para o texto no livro, como um dos protagonistas do projeto. Assim — de maneira resumida — as fotografias tem um papel de construção de atmosfera, as imagens de arquivo e documentos dão validade e apresentam os personagens desta história e o texto é a espinha dorsal da narrativa proposta. Com esta abordagem, Laia e toda a equipe envolvida no processo de criação do livro, entenderam que cada elemento tem uma função específica dentro desta história e que o protagonista não é a fotografia, mas sim o livro como um todo. Este trabalho é um ponto de virada na produção de Laia porque ela encontrou neste projeto a maneira ideal de contar suas histórias, deixando claro que a fotografia sempre foi uma ferramenta, não uma necessidade estética ou criativa.

On Abortion, Laia Abril.

Depois de The Epilogue, Laia já apresentou dois grandes projetos: On Abortion, dividido em capítulos e apresentado como exposição em Arles em 2016, e Lobismuller, lançado pela RM em parceria com a Images Vevey. Os dois projetos seguem uma trajetória similar, valorizando todos os aspectos envolvidos na produção de um livro ou exposição (em suas falas Laia sempre destaca a importância do trabalho coletivo e que não cria nada sozinha) e entendendo que o principal motor dos trabalhos é a história que está sendo contada e não as ferramentas utilizadas para este objetivo.

Em todos seus trabalhos, mas especialmente nos três mais recentes, Laia consegue alcançar algo que, na minha opinião, é essencial em projetos fotográficos contemporâneos: criar diversos níveis de leitura e interesse, assim criando obras complexas, mas que podem ser apreciadas até por aqueles que não “mergulham” completamente em seus trabalhos. Uma pessoa que entre em contato com a produção de Laia pode se interessar pelos temas tratados, pela fotografia produzida, pela narrativa proposta, pelos detalhes escondidos em cada história ou pelo projeto como um todo. Cada um destes pontos é muito bem amarrado, criando trabalhos com uma grande quantidade de camadas de sentido, que, aos poucos, podem ser decifradas por cada um que entre em contato com a sua produção visual.