A potência do fotolivro como objeto: Illa, de Salva López

Já falei algumas vezes sobre a importância da sequência na construção de um fotolivro, de sua organização conceitual e das ricas e novas possibilidades dentro da fotografia contemporânea, unindo imagem, texto, realidade, ficção e muito mais. Hoje, me dedico a falar de um outro aspecto essencial na produção de fotolivros contemporâneos: o entendimento do livro como um objeto narrativo, não apenas um suporte, mas parte ativa na transmissão de sentido de um trabalho fotográfico.

Illa, de Salva López

Não faltam bons exemplos para abordar este tema — logo me vem à mente Holy Bible, de Oliver Chanarin e Moises, de Mariela Sancari — e para não deixar o texto muito aberto, vou me concentrar em uma publicação específica e ainda pouco abordada: Illa, do fotógrafo catalão e co-fundador do Have a Nice Book, Salva López. O livro foi publicado em 2015 pela Terranova, uma pequena e interessante editora de Barcelona, e basicamente narra a história de Salva, sua ex-namorada e suas viagens para uma série de ilhas, algo comum durante o seu relacionamento. Há no livro dois grupos de imagens: fotografias coloridas, feitas por Salva em suas viagens com sua namorada, e fotografias em preto e branco, feitas em uma viagem pós-término, na ilha de Lanzarote.

A direção de arte de Illa é assinada por Eloi Gimeno, um dos grandes designers especializados em publicações fotográficas na atualidade, e conta com uma encadernação japonesa, fazendo com que todas as folhas sejam duplas, podendo ter impressão tanto do lado de dentro como do lado de fora delas. Aí é que está o grande ponto do livro, resolvido justamente na direção de arte e na sua realização como objeto.

Todas as imagens em preto e branco, solitárias, melancólicas, estão impressas do lado de fora da dobradura, são de fácil acesso e representam o estado atual do fotógrafo, em sua primeira viagem solitária para uma ilha após uma série de viagens acompanhado. As imagens em cor, as memórias de uma série de viagens feitas com sua namorada, estão impressas no interior das dobraduras e apenas uma leve sombra delas pode ser vista em uma primeira passada pelo livro.

Detalhes da encadernação de Illa.

Para revelar estas memórias você tem duas opções. A primeira é rasgar as páginas e acessar de forma completa e definitiva esta relação e encarar estas memórias como elas foram, sem a proteção do tempo. A segunda, jogar luz em cada página e iluminar este passado, trazendo uma visão levemente desfocada, abrandada pela passagem do tempo, preservando a sensação romântica de um relacionamento — e de um tempo — que não existe mais.

A luz que revela as imagens e memórias escondidas em Illa.

Este processo, especialmente quando acompanhado ao vivo, com o livro em mãos, costuma arrancar suspiros de quem o vê. Esta forma delicada e inteligentíssima de representar a dualidade da memória, especialmente quando se tem uma profunda relação afetiva com ela, é o que torna Illa um objeto impressionante. Sem esta lógica, criada pela direção de arte e pela produção gráfica, o trabalho perde muito de sua força, se tornando uma coleção de lindas imagens de um melancólico casal.

Com isso, reforço o ponto de que um fotolivro é um trabalho coletivo, complexo e resolvido em seus detalhes. Ao entender o livro como uma parte ativa do trabalho fotográfico, a equipe envolvida neste processo criativo pode alcançar soluções narrativas externas ao fazer fotográfico e apresentar objetos cada vez mais envolventes e marcantes.