Aproximações entre cinema e fotografia

Felipe Abreu
Jan 18, 2017 · 4 min read

No início do século passado a Rússia era uma das grandes potências do pensamento e da produção cinematográfica. Figuras como Eisenstein, Vertov e Kuleshov pesquisavam incessantemente o que faria o cinema uma arte única, criando teorias e filmes experimentais que influenciam a produção audiovisual até hoje.

A grande conclusão dos pensadores russos foi a seguinte: o que torna o cinema único é a montagem, o encadeamento de planos que cria uma mensagem nova e mais complexa do que sua apresentação como trechos de filmes únicos. Parece familiar? Se pensarmos em fotolivros veremos que esta lógica está muito próxima do que se discute em relação à edição e à construção de sequências fotográficas. Vide o grande ZZYZX, por exemplo. Sendo assim, me parece que quanto melhor entendermos as teorias de montagem do cinema melhor entenderemos as possibilidades de construções narrativas em fotografia.

Para este texto, quero explorar uma das grandes descobertas de um destes pensadores, que leva seu nome até hoje: o efeito Kuleshov. O experimento que culminou na descoberta do cineasta russo consistia em apresentar a uma plateia um filme de curta metragem que intercalava um plano de um famoso ator da época, de expressão bastante neutra, com planos de eventos marcantes como, por exemplo: uma mulher dançando, um bebê, um prato de sopa. Há uma série de versões do filme registradas e você pode ver duas delas aqui e aqui.

Frames de uma das versões do experimento de Kuleshov

Após ver o filme a plateia exaltava a atuação apresentada, elogiando o ator que apresentava desejo ao “ver” a dançarina, fome ao “ver” o prato de sopa, ternura ao “ver” o bebê. A única questão é que a expressão era sempre a mesma, era o mesmo trecho de filme com o rosto do ator antes de todas os trechos que causaram suas emoções. Com este resultado, Kuleshov entendeu que nosso cérebro busca associações quando duas imagens são apresentadas lado a lado, transformando seus sentidos. Essa conclusão se aproxima muito da máxima de Gerry Badger:

No fotolivro, a soma, por definição, é maior do que as partes, e quão maiores as partes, maior o potencial da soma.

Com o experimento de Kuleshov em mente, gostaria de discutir seu primo próximo no universo dos fotolivros: Azulejo, Trigo, Anjo, Vaso, de Bia Bittencourt, lançado pela Editora Vibrant em 2015. O fotolivro conta com edição de Isadora Brant, uma série de fotografias de Bia e nenhum texto. O que o aproxima consideravelmente dos experimentos de Kuleshov é sua composição material: o livro é cortado ao meio, deixando uma fotografia na metade superior da página e outra na metade inferior.

Azulejo, Trigo, Anjo, Vaso

Com esta organização material, o leitor escolhe o ritmo de leitura e, até certo limite, a organização das duplas de imagens possíveis no livro. Assim o processo de edição e de construção de sentidos está escancarado para o leitor, que vê, em tempo real, como uma fotografia se transforma ao ser pareada de uma série de maneiras distintas. Neste processo, o leitor percebe que há duplas que aumentam ou que diminuem a potência das duas imagens ou, no jargão da fotografia, que funcionam ou não funcionam.

Interior de Azulejo, Trigo, Anjo, Vaso.

Em Azulejo, Trigo, Anjo, Vaso as duplas são mais complexas do que no experimento de Kuleshov, mas trazem um efeito parecido. Se, nos testes realizados pelo cineasta russo, os resultados eram “rosto de um homem + imagem de uma mulher = desejo”, no fotolivro publicado pela Vibrant os resultados alcançados são muito mais subjetivos e metafóricos, criando uma infinidade de possibilidades, firmemente aliadas à experiência de cada leitor com o livro em mãos.

Azulejo, Trigo, Anjo, Vaso.

A variedade de tipos ou categorias de imagens no fotolivro de Bia permite uma variedade muito grande de sentidos e de experimentações com estas duplas, tornando o livro um experimento vivo de edição, em que o leitor consegue observar as alterações de sentido criadas ao, por exemplo, unir uma foto predominantemente vazia com uma bastante poluída, um retrato com uma natureza morta e assim por diante. Azulejo, Trigo, Anjo, Vaso é uma espécie de aula ao vivo de edição, organizada pelas criadoras, mas executada em sua capacidade máxima pelo leitor.

Este é um livro que prova a potência e a importância da construção de sequências em fotolivros. Assim como Kuleshov, Bia e Vibrant provam que toda imagem tem seu sentido transformado ao se aproximar de outra, unindo de maneira divertida e importante as teorias de cinema e fotografia.

Felipe Abreu

Written by

fotógrafo, editor da revista OLD e doutorando em artes visuais.

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