Dos prazeres de se perder em um labirinto

Não em um labirinto de verdade, o que me parece terrível, mas sim de se perder em algo que fascina, mas que é de difícil compreensão, um labirinto artístico, de pensamento. Essa é a sensação que tenho quando me deparo com o livro The Epic Love Story of a Warrior, do artista Peter Puklus, lançado no ano passado pela SPBH Editions.

O livrão (são 468 páginas em um papel de gramatura alta, com 15x20 cm) foi um dos finalistas na categoria de melhor fotolivro do ano no Photobook Awards e apareceu em duas listas de melhores do ano, no British Journal of Photography e na Photobook Store. Além disso, a recepção crítica do livro começa a criar corpo com textos bastante ricos no American Suburb X, Conscientious e no blog Photo Eye. De acordo com o site da SPBH, o livro constrói uma história visual e fragmentada da Europa central e do leste ao longo do século XX. Para construir esta história Puklus lança mão de naturezas mortas, retratos, esculturas e algumas paisagens, organizadas de forma bastante detalhada, que será descrita um pouco mais abaixo.

The Epic Love Story of a Warrior

A história do livro está muito ligada à biografia de Peter Puklus, que acompanhou sua família em um movimento migratório do leste para o oeste europeu, além de presenciar uma mudança de visão de mundo em sua família, que passou de visões mais conservadoras (de direita) para mais libertárias (de esquerda). Estes elementos serão essenciais para entender, pelo menos em parte, a estrutura proposta por Puklus para o livro.

Já sabemos a narrativa básica proposta pelo livro, mas se esta obra fosse tão simples, eu não teria começado o texto falando de labirintos. O fotolivro tem sua capa e quarta capa muito parecidos, com um quarteto de imagens de um nu feminino em cada uma delas. Se você abrir o livro pela capa, encontrará uma primeira imagem, pequena, de uma chaminé na floresta. Se você seguir por este caminho descobrirá, depois de mais ou menos cem páginas, que você acaba de ver o capítulo IV do livro, que cobre os anos de 1989 até 2016. Esta é a primeira de uma série de “armadilhas” muito bem executadas por Puklus, que constroem a complexa narrativa presente no livro. The Epic Love Story of a Warrior começa, na verdade, de sua quarta capa, com uma pequena introdução visual e a apresentação do título e dos agradecimentos do autor. Esta decisão inusitada se justifica pela história pessoal do autor, apresentada no início deste texto, que viveu uma migração dupla da direita para a esquerda. Logo, faz sentido que o livro acompanhe esta jornada, começando no leste (direita) e chegando até o oeste (esquerda). Além desta estrutura formal, há também um outro mistério presente em cada página do livro: uma série de letras, apresentadas página a página, que, se unidas formarão o poema Untitled (How many people fell…) de Marina Ivanova Tsvetaeva, poeta russa do início do século XX, que viveu na pele as transformações políticas, geográficas e sociais narradas pelo livro.

Página de introdução do quarto e último capítulo do fotolivro

Há uma carga simbólica bastante densa na sequência deste fotolivro. De uma certa forma, nada é o que parece ser. Com tempo, dedicação e interesse, se pode aos poucos ir decifrando a simbologia por trás de cada imagem, fazendo cruzamentos com eventos da história europeia do período apresentado por Puklus. Há uma série de repetições formais que dão unidade ao livro, criando pontes visuais e temáticas entre os diversos eventos tratados nesta grandiosa história. Com esta organização estrutural Puklus atinge uma das questões narrativas que me parecem mais interessantes e necessárias no fotolivro contemporâneo: a criação de diversos níveis de leitura.

No caso de The Epic Love Story uma pessoa pode se interessar pela poética de algumas imagens, pela forma do livro e suas associações visuais, por sua narrativa e por todo o processo criativo envolvido em sua produção. Cada um destes degraus terá um número menor de leitores, mas propicia uma leitura mais complexa e completa da obra em questão. Possibilitar um interesse para cada tipo de leitor, do mais rápido ao mais dedicado, me parece uma ferramenta importante para a construção de público no universo dos fotolivros, além de propiciar esta sensação deliciosa de encontrar uma nova pista, uma nova mensagem a cada leitura atenta feita do livro.

Fotografia de The Epic Love Story of a Warrior

Por mais que seja um livro bastante complexo, de leitura difícil, o fotolivro de Puklus fascina pela plasticidade de suas imagens, sua estrutura perniciosa e pela possibilidade de revisitá-lo constantemente, sempre encontrando novos elementos de interesse. Algo que é até recomendado pelo autor, que diz que o livro deve ser consumido como um romance, em que se lê um pouco, se toma um tempo para respirar e posteriormente mergulhar uma vez mais em sua narrativa. Este complexo labirinto de conceitos e narrativas mostra a importância — e as possibilidades advindas — da profunda dedicação ao conceito, estrutura física e de leitura de um fotolivro, mostrando que um bom projeto não é feito só de boas fotografias, mas sim de um universo criado para culminar em uma obra em formato de livro.