Para que serve uma fotografia?

Uma fotografia, sozinha, unitária, pode servir para a capa do jornal, para o anúncio de moda, para a divulgação de um produto. Dentro de um contexto de artes visuais, é cada vez mais difícil pensar em obras fotográficas que se apresentem como uma imagem única, desprovida de companhia, de uma série ou sequência. Provocações à parte, é impossível — especialmente no contexto dos fotolivros contemporâneos — pensar um trabalho através de uma única fotografia. A não ser em casos raros como o livro Lucas, que é composto de uma única fotografia desdobrada em uma série de momentos, o que faz com que uma única imagem se torne uma sequência de fotografias.

Além da fotografia se consolidar cada vez mais como uma arte seriada, que depende de elementos ordenados para transmitir seu sentido pleno, a história, mensagem ou conceito tem adquirido um papel cada vez mais central na realização de projetos fotográficos. Alec Soth constata, em entrevista ao British Journal of Photography, que não se trata mais de fazer grandes fotografias, mas de se criar grandes histórias. Outro exemplo interessante, que casa perfeitamente com a fala de Soth é o livro Image Tsunami, de Erik Kessels. Não há sequer uma grande fotografia no livro - especialmente se considerarmos os preceitos clássicos do que faz uma fotografia boa ou ruim - mas há uma grande história, cheia de conexões e mensagens inusitadas e incrivelmente interessantes.

Jack Latham — Sugar Paper Theories

Assim, o fotógrafo contemporâneo que deseja estar inserido em um contexto de artes visuais, especialmente considerando fotolivros, não pode (ou não precisa ser) apenas um grande fotógrafo, ele deve ser um ótimo contador de histórias. Com isto em mente, chegamos ao livro Sugar Paper Theories, do fotógrafo Jack Latham, publicado pela Here Press. O projeto aborda um dos poucos e com certeza mais misteriosos desaparecimentos da história da Islândia. Sugar Paper Theories conta com a ajuda do professor Gisli Gudjónsson para contar esta misteriosa história ocorrida nos anos 70, que foi bastante exposta pela mídia e terminou em conclusões duvidosas, relacionadas a uma série de pressões políticas que afligiam a Islândia no período.

O fotolivro conta com uma série de fotografias produzidas por Jack Latham em locais ligados aos desaparecimentos, imagens de arquivo da polícia islandesa, recortes de jornais, trechos do diário de um dos suspeitos de envolvimento nos desaparecimentos e um texto, assinado pelo professor Gudjónsson, que narra os acontecimentos ligados ao desaparecimento ao longo do livro. A direção de arte é muito bem estruturada e garante que esta série de elementos não se torne uma grande bagunça. O livro conta com uma série de diferentes papeis, tamanhos de páginas e cores, que organizam cada um destes elementos, por exemplo: as imagens de arquivo são apresentadas em um papel de textura grossa, quase uma lixa, enquanto os recortes de jornais são encartados, apresentados em papel rosa.

Sugar Paper Theories — Here Press

O livro parte do local do 1º desaparecimento, na região de Reykjavik e segue até o seu desfecho, com a prisão dos supostos criminosos envolvidos e as memórias que eles deixaram para trás. A sequência narrativa do fotolivro de Latham é essencialmente cronológica e tem como principal guia os textos de Gudjónsson, que trazem uma série de detalhadas informações sobre o caso. Dessa forma, acompanhamos o desdobrar do caso praticamente como em um romance policial, esperando por novas pistas, suspeitos, culpados e heróis.

Esta organização cronológica e a direção de arte impecável, fazem com que a história contada pelo livro tenha mais importância do que as fotografias nele contidas. Fotografias que, aliás, são ótimas, pelo menos para o meu gosto. A questão é que, se trocarmos todas as fotografias de Latham por outras, o impacto será mínimo. Agora, se trocarmos — ou tirarmos — os textos e imagens de arquivo, a história praticamente sumirá. E isto não é um problema, talvez seja até a grande qualidade deste fotolivro. Esta é a “prova” de que o fotolivro é a obra, não apenas um suporte para imagens. Assim como uma escultura é indivisível sem prejuízos para seu sentido e forma originais, um fotolivro também não pode ser despedaçado sem perder parte da — ou toda — sua potência.

Jack Latham — Sugar Paper Theories

Outro ponto que muito me interessa em Sugar Paper Theories é a importância do texto para a comunicação da narrativa proposta pelo autor. Esta é uma característica cada vez mais presente, especialmente em projetos “documentais”. Um dos grandes exemplos — e possível causadora desta tendência — é Laia Abril, que sempre traz grandes doses de informação textual em seus projetos, sem as quais eles perderiam grande parte de seu sentido, profundidade e interesse. Novamente, quero afirmar que isto não é um problema, de maneira nenhuma. Quanto mais ricas e cativantes sejam as histórias melhor para quem as consome, seja de forma predominantemente visual, textual ou com a união dos dois. Esta questão, fortemente presente em Sugar Paper Theories e em tantos outros fotolivros contemporâneos só reforça que, pelo menos neste contexto, só uma fotografia não serve mais para muita coisa.

Veja o vídeo do livro completo aqui.