Quando a ideologia liberal passa pana para o nazismo

Todo movimento político tem a pretensão de implantar suas bandeiras, agendas e propostas. Parece banal soltar essa assertiva ,certo? É algo auto-evidente. Mas é necessário coloca-la no inicio do argumento, porquê isso fica escamoteado , por ex,quando surge uma mobilização de supremacistas brancos e aparece liberais do esgoto pra pregar a tolerância e o respeito pela ‘liberdade de expressão’. Neonazistas não querem apenas o direito pontual de se ‘expressarem’ livremente; subjacente a essa roupagem liberal, o que os move na verdade é uma ideia de sociedade, o desejo de concretiza-la. Uma sociedade fortemente estratificada, hierarquizada, segregada, comandada por uma ideologia essencialista que vê nos brancos o portadores da razão, do esclarecimento e da liderança, uma ideologia em que as mazelas sociais se personalizam nos judeus, nos mestiços e -segundo eles- nas demais variações humanas que diferem do ‘ubermensch’, e que vê portanto no extermínio daqueles o meio pelo qual atingir uma sociedade depurada de suas sequelas.

Mas claro, olhar um grupo deles apenas se mobilizando nas ruas parece inofensivo e cincunscrito ao plano meramente discursivo. No entanto, escapa da percepção ordinária o fato de que essas ‘pequenas’ manifestações são apenas um estágio dentro de um plano que pretende se consumar num ‘todo social’ que constitua o ideário de sociedade descrita no parágrafo anterior; em outros palavras, é evidente que os neonaziastas não querem permanecer pra sempre em pequenas manifestações, pois a ideologia que os oriente é total, audaciosa, megalomaníaca. É um plano de poder. Combatê-los nesses estágio prematuro é portanto uma atitude estratégica e, claro, acima de tudo um dever cívico.

Porém, o liberal pode alegar que, mesmo tendo em vista o caráter ‘total’ e os objetivos pretensamente ‘hegemônicos do movimento, seria ‘desnecessário’ e até mesmo contraproducente enfrenta-lo pois a ideologia neonazista estaria condenada a irrelevância e a meia dúzia de fanáticos; caberia ao bom senso da coletividade ignora-los e deixa-los em nichos. Mas aqui encontra-se a estupidez da confiança burguesa liberal na racionalidade da sociedade. Para esses ideólogos da ordem liberal, as coisas tendem naturalmente à harmonia, à razão, à estabilidade, enfim, aos melhores resultados possíveis. Não passa pela cabeça deles que -concretamente- hoje vivemos numa era de incertezas profundas, reflexos de uma crise econômica ainda presente no imaginário popular; que os indivíduos tomados isoladamente se sentem inseguros, amedrontados, inclinados a escolherem bodes expiatórios, líderes carismáticos e identidades sócio-políticos que lhes dê um significado às coisas que não entendem e ao mesmo tempo uma falsa ilusão de poder. É desse caldo cultural que o ascenso de expressões nazi-fascistas se desenvolvrm.

Desconsiderar a potencialidade da barbárie, do horror, do vil não seria um erro inédito na história moderna; a belle époque terminou inesperadamente com o inicio da carnificina da primeira guerra mundial. Trazendo mais para atualidade, na véspera da eleição norte-americana, Trump era tido como carta fora do baralho. No brexit, a imprensa burguesa também considerava uma vitória do ‘leave’ como uma hipótese remota. Enfim, será que os ‘erros’ se repetirão?

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