Janet Malcolm coloca o jornalismo no divã

“Qualquer jornalista que não seja demasiado obtuso ou cheio de si para perceber o que está acontecendo sabe que o que ele faz é moralmente indefensável”

É assim, com essa frase de efeito, que a jornalista Janet Malcolm abre o livro “O Jornalista e o Assassino”. A obra relata a batalha judicial entre o jornalista Joe McGinniss e o assassino Jeffrey MacDonald, condenado a três prisões perpétuas por matar a esposa e as duas filhas.

O assassino processou o jornalista por "fraude e quebra de contrato — como uma tentativa 'de estabelecer um precedente segundo o qual um repórter ou escritor ficaria legalmente obrigado a revelar o seu estado de espírito e atitude em relação ao entrevista durante o processo de escrita e de pesquisa'".

Alguém aí achou alguma semelhança com a história das proibições em publicar as biografias no Brasil? Afinal, citando outra frase, agora de William Randolph Hearst: "Jornalismo é publicar aquilo que alguém não quer que se publique. Todo o resto é publicidade".

De volta ao livro de Janet Malcolm, continuo reproduzindo o primeiro parágrafo da primeira página:

“Ele (jornalista) é uma espécie de confidente, que se nutre da vaidade, da ignorância ou da solidão das pessoas. Tal como a viúva confiante, que acorda um belo dia e descobre que aquele rapaz encantador e todas as suas economias sumiram, o indivíduo que consente em ser tema de um escrito não ficcional aprende — quando o artigo ou livro aparece — a sua própria dura lição. Os jornalistas justificam a própria traição de várias maneiras, de acordo com temperamento de cada um. Os mais pomposos falam de liberdade de expressão e do ‘direito do público a saber’; os menos talentosos falam sobre a Arte; os mais decentes murmuram algo sobre ganhar a vida”.

Para quem é jornalista ou para os entrevistados que foram “vítimas” dos jornalistas, o texto acima é a mais pura verdade. Porém, volto a lembrar a frase de Hearst: “Todo o resto é publicidade”…

Capa do livro "O Jornalista e o Assassino"

A primeira página da obra de Janet Malcolm continua: "A catástrofe, para aquele que é tema do escrito, não é uma simples questão de um retrato pouco lisonjeiro, ou de uma apresentação errônea das suas opiniões; o que dói, o que envenena e algumas vezes o leva a extremos de desejo de vingança, é o engano de que foi vítima. Ao ler o artigo ou livro em questão, ele tem de enfrentar o fato de que o jornalista — que parecia tão amigável e solidário, tão interessado em entendê-lo plenamente, tão notavelmente sintonizado com o seu modo de ver as coisas — nunca teve a menor intenção de colaborar com ele na sua história, mas pretendia, o tempo todo, escrever a sua própria história. A disparidade entre o que parece ser a intenção de uma entrevista quando ela está acontecendo e aquilo que no fim ela estava de fato ajudando a fazer é sempre um choque para o entrevistado".

Pura verdade!

No decorrer da obra, além de investigar o inaudito processo de um condenado a prisão perpétua contra um jornalista, Janet também levanta questões interessantes por parte do leitor. Afinal, "o leitor de um trabalho jornalístico só pode imaginar como foi que o escritor conseguiu fazer com que o entrevistado se expusesse daquele modo", escreve a autora. "O entrevistado fica tão envolvido com o jornalista que não consegue abandoná-lo e até muito tempo depois, quando o livro mortificante já passou para a seção de saldos das livrarias, a relação é mantida mediante o interminável processo que o entrevistado move para manter o escritor ligado a ele".

Para finalizar, além de recomendar a todos os jornalistas a leitura de "O Jornalista e o Assassino", cito mais um trecho da obra:

"O indivíduo que é personagem de um livro pode às vezes, de má vontade, admitir que o que foi escrito a seu respeito não é ruim, mas isso não torna o escritor menos ladrão"

No entanto, o trabalho jornalístico e a produção de biografias devem ter a maior liberdade possível para serem feitos. Se o escritor é mais ladrão ou menos ladrão por se apropriar de uma história alheia, não importa. O que importa é a história ser contada sem nenhuma interferência porque sempre haverá alguém que não concorda com aquilo que foi dito. Principalmente se forem revelações pessoais.