PEC 241: Uma analogia com as contas domésticas

É muito difícil desconstruir essa analogia das contas públicas com as contas domésticas, porque ela é altamente intuitiva. Sabendo disso, os mais mal intencionados vão na Tv falar em dona de casa. Pois bem, vamos tentar seguir nessa analogia:
Imagine uma família que passou por um momento de relativa prosperidade. Nesse momento resolveu colocar os filhos mais velhos no curso de inglês e melhorar o tipo do plano de saúde da família (Para a analogia fazer sentido escola e plano de saúde tem que ser “gastos”; portanto imaginemos que são privados). Os gastos com educação cresceram porque a família tentou melhorar um pouco a qualidade, já que é uma família de origem muito pobre, e portanto estava muito defasada. Além da “qualidade” (matrícula no curso de inglês), os gastos aumentaram porque o filho mais novo passou para o ensino médio, que é mais caro. Os gastos com saúde também subiram por uma razão simples: Porque a família envelhece, e os planos ficam mais caros. 
Além da renda do emprego formal do casal havia também uma pequena renda extra, proveniente da venda de salgadinhos para festas. No lado das despesas, havia a despesa com a rolagem de uma dívida com o banco (parte dessa dívida viabilizou a compra dos ingredientes para a venda de salgadinhos e a maior parte dessa dívida é fruto de sua própria rolagem, porque o banco cobra a taxa de juros mais alta do planeta. Só uma pequena parte da dívida financiava os gastos correntes).
Em dado momento o pai perde o emprego e o salário da mãe é congelado. Logo agora que o caçula foi para o ensino médio e subiu o plano de saúde do avô. Logo agora que compraram uma geladeira mais nova e têm as prestações a pagar. Despencaram, portanto, as receitas. O que a família faz:
1) Ao perceber que os gastos com juros ao banco estão corroendo parte considerável do orçamento, liga para o banco e tenta renegociar as condições da dívida (alongamento de prazos, juros menores etc). JAMAIS! Isto é absolutamente inconversável, impensável, um verdadeiro tabu. O pai proíbe os membros da família de darem essa sugestão.
2) Resolvem pegar um pouco do dinheiro que ainda têm, comprar ingredientes para fazer mais salgadinhos para vender, ampliando a renda com sua venda enquanto o pai procura outro emprego. (Em uma visão “empreendedora”, eles usam o dinheiro do empréstimo do banco para isso, e, com a venda de salgadinhos, quitam parte da dívida). NÃO, se estamos endividados não vamos gastar comprando ingredientes para salgadinhos, mesmo que isso gere uma renda lá na frente.
3) Cortamos o wisky do pai beberrão. Ele gasta um dinheiro com bebidas caras. Esse dinheiro não é o maior gasto, mas fica constrangedor comprar bourbon com a família naquela situação. É como se dessem aumento para a nata do judiciário no Brasil (!). NÃO. Eu sou o pai de família, eu mando.
4) Congela-se os gastos correntes da família. Nos próximos 20 ano não se poderá aumentar os gastos com alimentação, saúde, vestuário, remédios. Assim, se nascer outro filho, o dinheiro do leite só existirá se cortarmos o feijão. O avô não poderá ficar doente porque não se poderá comprar remédios. Curso de inglês cancelado, logo agora que iriam se formar. Poderiam dar aulas particulares para ajudar na renda. E isso valerá para os próximos 20 anos, podendo ser revisto em 10. Assim, mesmo que o pai arrume outro emprego, voltando à renda mensal anterior, continuarão o avô sem remédio, o filho pequeno com leite insuficiente, e o mais novo (que certamente irá nascer) fora da escola. Regra é regra. 
Mas essa hipótese é muito otimista, porque o salário da mãe continuará congelado o pai não quer nem procurar emprego e nem vender salgadinhos para festas. Ele crê piamente que deus ajudará no final.