PARABÉNS!! Acabas de ser o 1.000.000 DOMINADO !! E que se exploda seu discurso meritocrático (uma apologia à Bourdieu e um bocadinho de Althusser)

Desde o mais lindo e subversivo texto do sec. XVI - “O Discurso da Servidão Voluntária” (Étienne de La Boétie, 1563) sabe-se que o poder inexoravelmente tem como objeto de análise uma construção social.

Segundo a hermética teorética sociológica de Pierre Bourdieu (1991), o poder é compreendido em campos estruturados, palcos de lutas de legitimação a conservar circuitos simbólicos para triunfo dos apetites e vontades dos grupos dominantes, isto é, as elites. Em outras palavras, campo é um espaço estruturado social caracterizado por lutas simbólicas de seus participantes de forma a legitimar suas representações (BOURDIEU, 1991).

Tais estruturas caracterizam-se pela posição tautológica de cada agente social (BOURDIEU, 1991), razão pela qual para entender seu funcionamento sistemático, é imprescindível releituras do contexto histórico-­social, nos termos específicos de ordenações que objetivam a consagração social, do que é erudito, correto e socialmente conforme.

Em “As Regras da Arte” (1996), Bourdieu explora o erudito presente no campo artístico

Louis Althusser (1918–1990), figura memorável da escola de Frankfurt, tem uma filosofia que eventualmente pode deprimir. Para esse crítico francês, não existe individualidade do ser, liberdade sobre sua própria vida, fadada a interpelação do sujeito pelas ideologias vigentes, cuja natureza é essencialmente necessária, no jargão filosófico, não-contingente (ALTHUSSSER, 1998). Se preferir, o mundo é o que é, só pode ser deste modo, exceto que haja a revolução Marxista. Mas tá demorando, viu…

Complementando o crítico francês, Bourdieu denuncia veementemente a dita “possibilidade de mudança meritocrática”, ao longo de suas obras atenta que para o próprio bem funcionamento dos campos, exige-se a dissimulação dinâmica da ascensão social. Ai brother, é justamente onde está o golpe simbólico: Simular a dialética de grupos sociais rivais para manutenção dos já detentores de capital simbólico (ou dominantes, ou elites).

A consequência além de cirúrgica, é crítica: não somente os agentes do campo aspiram validação dos seus discursos, mas também desejam designar quais os valores e rituais de consagração são os legítimos e como são delineados em cada campo (BOURDIEU, 2012), porém, cada qual dotado de níveis de capital simbólico destoantes, que nunca terão equidade, fundamentando a hegemonia gramsciana entre classes sociais.

Vou ajudar com um exemplo: é o garoto da periferia que busca aplauso social (legitimação) pelo funk ostentação (um micro-campo social) enquanto é descartado do jogo real (consumo no Shopping JK), nunca teve educação digna possibilitadora de auto-reflexão e sua vida é condenada a sub-empregos voláteis em nome do capital dos donos dos meios-de-produção (ou elites, ou dominantes, ou detentores de maior capital simbólico nos campos).

Um termo adaptado de Durkheim utilizado em demasia por Bourdieu, é o habitus, que refere-­se à capacidade de uma dada estrutura social ser incorporada pelos participantes à disposições para sentir, pensar e agir. Tal conceito está à luz do entendimento da imposição por seus enunciadores das significações dos símbolos como legítimos, instrumentos abstratos por excelência na integração social, possibilitando a reprodução dos circuitos de ordem estabelecidas na estrutura social (BOURDIEU, 2012).

Ou seja, dentro de um campo social, FALA QUEM PODE, OBEDECE QUEM TEM JUÍZO, QUEM TEM MAIS CAPITAL SIMBÓLICO NO CAMPO, MAIOR PROBABILIDADE DE CONCENTRÁ-LO AINDA MAIS, EXPANDINDO AS DESIGUALDADES. Por isso, antes de falar em meritocracia, devias ler mais Bourdieu.

BIBLIOGRAFIA

ALTHUSSER, L. Filosofia y marxismo. Mexico : Siglo XXI, 1998.

BOURDIEU, P. Language and symbolic power. Cambridge: polity press, 1991

BOURDIEU, P. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2012, p. 9

PIERRE FÉLIX BOURDIEU (1930–2002), filósofo de formação, foi docente na École de Sociologie du Collège de France. O conjunto da obra combina insights inovadores, com a revisão dos clássicos das ciências humanas. Foi aclamado a ponto de ser considerado um contemporâneo clássico, na sociologia está ao lado de Durkheim, Weber e Marx.

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