Hellena
Nossa vida por incrível que pareça se passa em mundo hipócrita e corrupto a onde a vida deixou de ser a coisa mais importante para o "ser humano".
Em uma praia, onde esquecida pela sociedade tenta decadentemente continuar a ter um pouco de vida, se encontra a culpada de toda essa história. Sentada na areia, sentindo o vento em seu rosto, estava Silvia, pensando em como iria contar aos seus pais o que ela tinha acabado de descobrir. Dos seus olhos, brilhantes lágrimas de arrependimento, sofrimento e medo caiam e se deixavam levar pelo vento forte da praia às 16:45, onde senhoras caminhavam, meninos jogavam bola e alguns cachorros molhavam suas patas nas ondas que vinham até mais a frente.
Silvia pensava em muitas coisas, mas não conseguia pensar em como contar aos seus pais a desesperada descoberta, tendo consciência de que não era nada fácil uma menina de 17 anos estar grávida sem ao menos saber quem era o pai daquela criança, sendo alcoólatra o seu próprio pai e sua mãe apenas vivia.
Tendo 3 irmãos, ela era a mais nova e a única mulher daquela pobre família que morava em uma pequena favela em frente a uma praia que um dia já foi um lugar de famílias passarem seus preciosos domingos de descanso e lazer, até que o índice de roubos e violência tomou conta daquele lugar e por consequência, aos poucos foi ficando deserto ao ponto de ser raro ver pessoas por aquelas bandas. Silvia como toda menina tinha suas fraquezas, era precoce por necessidade, trabalhava para ajudar a mãe que adorava reclamar da ordinária vida que tinha, o único erro da vida de Silvia foi se apaixonar muito cedo por um ou dois dos meninos que ajudaram o índice de roubos daquela deserta praia aumentar, apaixonada e iludida com o desconhecido que sentia no seu peito em crescimento, se entregou e infelizmente o que não poderia acontecer, aconteceu.
Nesse mesmo dia ela tomou a decisão de contar aos pais. Anoiteceu, subiu o morro, chegou em casa, sua mãe na pequena cozinha que também era sala daquela casa minúscula que ainda parecia estar em construção, mas estava daquele jeito desde que Silvia se entendia por gente, assistindo TV estava o seu irmão do meio, sentado a mesa seu irmão mais velho, partindo um pão carioquinha com aparência de dias, seu pai e o seu último irmão nem sinal.
Baixou a cabeça e foi até o quarto que dividia com os seus pais, tirou as sandálias, pensou e respirou fundo. Gritou do quarto:
- Mãe!
A resposta veio com outro grito da cozinha:
- O que é menina?
- Preciso falar com a senhora! Agora!
Silvia mostrava preocupação na voz e isso logo sua mãe entendeu, largando o que estava fazendo e indo direto pro quarto.
- O que foi? Já não basta você não ter feito nada em casa hoje, não quer me deixar fazer? Bora! Diz logo!
Ela olhou nos olhos cansados de sua mãe, novamente respirou fundo e soltou a frase de uma vez como quem arranca curativo com medo da dor, se recuando após.
- Estou grávida mãe!
Depois disso sentiu o peso da mão de sua mãe que ela já conhecia muito bem, desesperada chamou a filha de tudo quanto foi palavrão, os que sabia e os que tinha acabado de inventar, até que o cansaço a fez parar de bater na menina fraca e magra que agora carregava no seu ventre uma vida, sem esperança, mas era uma vida.
As palavras da mãe foram claras e trêmulas, junto com todo o seu suor que descia da sua testa, saíram de sua boca:
- Tu vai tirar isso! De quem é? Aposto que é de um desses marginal que tu anda sua rapariga! Bora, diz de quem é?
A resposta de Silvia subiu forçada do chão a onde a menina se encontrava imóvel.
- Eu não sei.
- Meu Deus! E tu anda dando assim pra qualquer um? Chega nem sabe quem é o desgraçado? Já devia esperar essa notícia! Meu Deus, tem piedade da minha alma! Senhor, tem piedade!
Assustados com o barulho, os irmãos de Silvia entram no quarto, olham para a menina no chão depois para mãe descontrolada no canto, o mais novo vai até a mãe e pega no braço dela dando sinal para sair do quarto, o mais velho o ajuda a arrastá-la para sala/cozinha.
Silvia ficou no chão, chorando mas não por causa da surra que tinha levado, mas sim por sua dor interior, de não saber o que fazer, de se ver perdida na sua misera vida.
Sua mãe ainda gritava lá de fora do quarto:
- Deixa teu pai chegar! Quero ver a surra que ele vai te dá, sua rapariga nova! Tu vai tirar esse demonio de dentro de ti! Há! Mas vai! Nem sabe quem é o pai da desgraça meu Deus!
A pobre menina depois de um tempo no chão sujo do quarto da casa que caia aos pedaços em cima do morro da pequena favela em frente a praia deserta e feia, fechou os olhos e não sentiu mais nada, apenas chorou com a expectativa de lhe faltar lágrimas.
Seu pai chegou pouco tempo depois e infelizmente o que sua mãe disse, aconteceu. A pobre Silvia apanhou como uma condenada, ficar grávida naquela família não era uma boa ideia, mas aconteceu e ela não pôde fazer absolutamente nada.
Entrando em crise as drogas que já consumia foram aumentando de quantidade, assim como o tamanho da sua barriga, as únicas coisas que diminuíam eram suas roupas que de fato já eram pequenas demais para o seu corpo normal e então não tinha mais jeito para que servissem. A menina vagava pela rua sem rumo, ainda sem saber o que fazer, seus pais já disseram :
- Se vira! Não vou cuidar dos filhos dos outros! Mal cuidei dos meus, vá para o inferno, você e essa criança!
A fome de Silvia havia dobrado por conta da gravidez e como passava dias fora de casa, não se alimentava. O que ainda a deixava em pé eram as drogas que consumia e que ia se viciando ainda mais com o passar da gravidez.
Silvia chegou a roubar, traficar e por sorte nunca foi presa, ela não tinha mais noção do que estava acontecendo com a sua vida, não tinha mais noção da seriedade do problema que vinha pela frente. A criança se chegasse a nascer, seria sem nada, nem onde, nem como. Silvia não se preocupava mais com isso.
Os meses rapidamente foram passando junto com sua barriga crescente, com suas pernas trêmulas, a menina novamente de frente ao mar, vestindo um short rasgado apertado e um top sujo, no meio dos peitos cheios de leite, já desproporcional ao seu corpo, uma carteira amassada de cigarros, na sua mão uma lata de refrigerante que tinha o destino de ser usada para fumar uma pedra de crack, seus cabelos queimados do sol assanhados eram levados pelo vento, o calor das 13:22 queimava sua pele. Silvia sentiu uma tontura e no mesmo momento tudo se apagou.
...
Às 14:55 - uns adolescentes passaram e viram a menina caída no chão sem consciência.
Às 15:47 - Silvia deu entrada em um hospital público da cidade onde morava.
Às 17:34 - Os médicos fizeram um parto cesariano precoce por conta da paciente não estar em condições físicas.
Às 18:50 - Silvia disse algumas palavras: - Se for ela, é Hellena,mas Hellena com dois L’s e se for ele, é João.
Às 19:15 - Silvia morreu de uma hemorragia na qual os médicos não conseguiram controlar.
...
Era Hellena, uma menina de 1 quilo com problemas respiratórios e com a formação corporal a desejar, como todos diriam: Cabia na palma de uma mão. Enfim e antes da hora, forçada pela medicina e pelo corpo da mãe que já não a aguentava mais dentro dele, nasceu a desgraça como diria a mãe de Silvia, que nem se quer sabia que a filha tinha morrido em um hospital público ao dar a luz e tinha sido dada como indigente.
A minúscula Hellena foi para as incubadoras, sua mãe, a indigente fora levada para estudos. Os médicos já tratando de sua adoção para quando tivesse alguns quilinhos a mais, pois precisava desocupar o espaço no hospital para outra criança que provavelmente viria a nascer.
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