Designing future scenarios
Há uma semana atrás, dando sequência à minha jornada de experiências e aprendizados em um hiato de transição profissional, fiz um curso chamado From Megatrends and Scenarios to Strategy no Copenhagen Institute for Future Studies (CIFS), na Dinamarca.

Eu sempre tive uma inquietude em relação ao futuro. Não no sentido de adivinhá-lo, de mapear e desenvolver tendências, mas no sentido de compreendê-lo e influenciá-lo para determinadas direções. E não me refiro ao campo pessoal apenas (o qual acredito que tem enorme valor!), mas ao campo econômico e empresarial/corporativo, que foi o qual acabei me preparando para atuar e onde há um potencial de impacto enorme.
O desafio para mim sempre foi abrir esta conversa e desenvolver futuros possíveis no mundo dos negócios. Trabalho com consultoria há anos, com diversos perfis de empresas e clientes, e posso dizer que não é fácil. Assim como no cenário político, uma certa miopia prevalece. Os objetivos são de curto e médio prazo, atrelados a metas agressivas por crescimento, conquistas pessoais dos profissionais envolvidos nos projetos e por aí vai. Ainda que o futuro esteja mais presente do que nunca, o mercado como um todo esteja provocado com as transformações digitais e embebido com a lógica exponencial, a criatividade para desenhar futuros ainda é bastante restrita.
Também amadureci e desisti da utopia de esperar que empresas, com tamanha agenda econômica, transformem o mundo de forma positiva. Acho que a Schumacher College apaziguou meu peito quando me ajudou a entender que somos apenas um piscar de olhos na história do universo e que não “salvaremos” o (nosso) mundo. Mas que sim podemos nos esforçar para deixá-lo melhor do que o encontramos.
O fato é que está impossível ignorar o caos global e local espalhado pelo globo terrestre. Qualquer agenda econômica que se preze deveria refletir sobre sua responsabilidade em relação à trajetória da humanidade e do planeta. E não falo aqui sobre o clamado propósito. Ando meio cansado dessa ideia inclusive. O propósito é bonito, traz significado, sentido, mas da forma como vem sendo disseminado, me faz lembrar o conceito de sustentabilidade e de responsabilidade social corporativa (RSC), o qual busquei analisar enquanto ‘mito’ quando fiz meu mestrado há quase 10 anos atrás. Discursos inspiradores, ricos em significado e vazios em ação e resultado. Não é por aí que quero seguir minha prosa. Mas tenho refletido muito sobre a ideia de resgatar a responsabilidade mesmo, com o peso que esta palavra carrega, tanto em consciência quanto em ação. Qual é a responsabilidade das pessoas e das corporações no desenho de futuros possíveis frente ao caos que seguirá prevalecendo como dinâmica no mundo inteiro?
Aí entra o valor do curso do CIFS. Eles oferecem conhecimento e ferramentas para desenharmos possíveis cenários futuros. Vale adiantar que eles não são mestres na arte da facilitação e da cocriação (uma bela oportunidade para a oferta do instituto inclusive), mas possuem um framework poderoso e consistente. Eles são mais business oriented também, o que torna a audiência do curso predominantemente com este perfil. Mas éramos 16 pessoas, de 12 nacionalidades (diversos países europeus, Rússia, Tailândia, África do Sul, Austrália e Brasil) e diversos backgrounds e atuações (professores, consultores, pesquisadores, profissionais de marketing e inovação de diferentes indústrias e do setor público). Tinha um professor associado da Singularity University inclusive, o que acabava gerando comparações interessantes entre as duas instituições sobre suas abordagens em relação ao futuro.
Bom, difícil condensar aqui tudo que foi ensinado nos dois dias de exposição de conteúdo e desenvolvimento de projeto em grupo. Mas vou tentar contar ao menos o fluxo, pode dar uma ideia do que rolou e provocar a mente de quem se aventurar nessa leitura reflexiva aqui. Rsrs
Parte do set-up inicial foi nos fazer entender que o CIFS tem um olhar exploratório sobre o futuro. Ou seja, toda a minha conexão com a Teoria de Gaia da Schumacher College das semanas anteriores não deveriam ser consideradas ali. Rsrs Mas foi ótimo o desprendimento e a abertura para navegar no flow. Eles também escolheram uma temática (mobilidade urbana) e um desafio fictício de uma empresa da indústria automobilística. Acho que nem preciso dizer que é uma indústria bastante desafiada sobre o seu futuro.
Começamos entendendo as megatrends relacionadas à mobilidade urbana. Eram trends muito bem elaboradas, amplas e profundas. Não chegamos a aprender como desenvolvê-las, o que seria incrível. Fizemos um exercício de análise de polarização das tendências apresentadas para que pudéssemos posicioná-las em uma matriz de impacto vs. incerteza. Achei um exercício incrível! Cobríamos temáticas variadas como os campos político, social, legal, ambiental e por aí vai. Primeira vez que vi um debate real sobre tendências como parte do processo criativo. Geralmente, as consultorias e agências apresentam tendências como parte do contexto, não como variáveis a serem esmiuçadas.
A partir disso, elegíamos algumas dessas tendências que ficaram posicionadas no quadrante de alto grau de impacto e incerteza. E experimentávamos o desenvolvimento de eixos com estas tendências, explorando suas polarizações e buscando cruzar as que fossem muito pouco relacionadas. E este exercício gerava os cenários que seriam trabalhados. Achei esse processo o mais bacana do curso! Útil para o desenvolvimento de diversos tipos de cenários – como posicionamento de marca e criação de novos negócios (produtos, serviços e e experiências). Quero muito experimentar a brincadeira em projetos reais! Me chamem! Hahah
Com isso posto, tínhamos que desenvolver os cenários em si. Os direcionamentos sobre como elaborar os cenários eram muito legais, basicamente um desafio de ideação e narrativa. Deveríamos considerar: história, desafio, consistência, diferenciação, além de ser plausível e memorável. Idealizamos uma solução de negócio também. Pensamos em proposta de marca de uma forma simplificada, mas útil. E mergulhamos no business model canvas, aí já não tinha nada de muito novo para quem está familiarizado com o modelo. Mas foi muito bacana partir das tendências, desenvolver cenários e chegar à estratégia. Um belo exercício!
Enfim, foi mais ou menos esse o fluxo. Um sampling de um processo que leva meses e que vivemos de forma bastante condensada em 2 dias. Recebemos um material completo do curso também. O network foi super diversificado e interessante. Os facilitadores, Simon e Kristian, eram muito capacitados e inteligentes. A experiência no instituto foi bacana também. E valeu conhecer a revista deles sobre tendências chamada Scenario (fica a dica! :).
Fico aberto para trocas sobre o tema.
Valeu!
