Em busca da autonomia criativa

Me liguei hoje que nesse mês de novembro completo 10 anos de vida profissional. É muito maluco olhar para trás e ver o quanto que fui aprendendo com as oportunidades que foram surgindo na minha frente. O quanto que segui minha intuição e quanto busquei ouvir meus questionamentos e angústias sobre o mundo, seu funcionamento, meu papel em relação a ele. E como incomodei algumas pessoas ao meu redor com tais questionamentos.

Cruzei com pessoas incríveis. O fato de estar em grandes centros e com pessoas com repertórios tão diferentes do meu, com vidas tão diferentes da minha, foram primordiais. Sempre fui grato à diversidade e hoje tento contribuir com ela. E tenho a certeza de que vir de Rondônia e com minhas raízes nordestinas, com o suporte dos meus pais que nunca me disseram que havia um limite de onde eu podia chegar, que com esforço, dedicação e generosidade se chega onde quiser, fizeram toda a diferença para eu ser quem sou hoje.

Após 10 anos, sigo me descobrindo como pessoa e como profissional. Estou longe de uma conclusão ou de uma reta final, acho na verdade que ela não existe. Nem quero que exista! Não sei o que estarei fazendo ou onde estarei vivendo daqui 2 anos. Imagina 5, 10, 15 anos! Os últimos 5 já foram tão intensos e tão incríveis! Eu jamais poderia prevê-los.

As inquietações continuam, com tons e direções diferentes. Mas hoje entendo que a faísca que ficava acesa era um incômodo de que precisávamos funcionar de outra forma no mundo. Não só o planeta clama por humanos mais conectados a ele e entre si, como nós clamamos, ainda que de forma oculta, por vivermos de outra maneira, sentirmos a vida, o tempo, as relações, a natureza e os acontecimentos ao nosso redor, dos mais banais aos mais trágicos, com outra sintonia. Precisamos fazer outros tipos de planos, ter outras prioridades, enfim, vocês sabem do que estou falando. :)

E a grande conclusão que tenho até agora é que precisamos ter coragem, braveza para viver a nossa autonomia criativa. A criatividade nunca fez parte de forma explícita do meu vocabulário ou da minha formação na infância. Ela passou a ser associada ao meu perfil profissional quando acharam que eu tinha skill para trabalhar com marketing. Do estágio em uma grande multinacional aos dias de hoje. A partir daí fui sendo levado pela minha intuição e minhas indagações sobre o que me realizaria mais e sobre a direção de onde eu achava que o mercado e sua conexão com questões sociais precisava evoluir. O ápice dessa reflexão foi chegar a trabalhar no mercado publicitário. Eu precisava conhecer essa parte da engrenagem que está, ou hoje tenta estar, ligada ao mundo real das conexões entre pessoas e marcas. Este vinha a ser o berço da criatividade mercadológica, estando eu em um cargo alto e respeitável, mas tendo que me provar, claro. Afinal nem publicitário de formação eu sou.

Mas nessa experiência me dei conta de que a criatividade precisa e deve estar borbulhando em qualquer esfera das nossas vidas e em qualquer campo profissional. Vi que não era a publicidade a minha zona de realização criativa, pois eu me realizo de outras formas, com outros produtos criativos, ou melhor, com outros tipos de processo e de relações criativas. Admiro muito a publicidade e aprendi muito com ela, mas a sua lógica e dinâmica não permitiam imprimir minhas crenças e meus propósitos, que tanto busquei aprofundar desde que comecei a trabalhar há 10 atrás.

Hoje tenho orgulho em poder me definir como “consultor com propósito, pesquisador experimental, comunicólogo por afinidade, amante da música e da vida mundana, conectando pessoas e temas diversos”. Pois de fato somos muito mais do que um cargo do mercado de trabalho. E acredito que não somos algo finito, estamos sempre em processo, temos que aceitar e aproveitar o fato de estarmos sempre em transformação. Essa é a graça de tudo.

E a criatividade? Ela está em todos nós! WE ARE ALL ARTISTS! Estou aprendendo a me inspirar nos artistas com o livro do Will Gompertz, onde ele fala: “They didn’t wait to be asked. Artists don’t seek permision to paint or write or act or sing; they just do it. What tends to set them apart, and gives them their power and purpose, is not the creativity per se — we all have that. Rather, it’s the fact that they have found a focus for it, an area of interest that has fired their imagination and provided a vehicle for their talents.”

Além de ter coragem para viver a nossa autonomia, precisamos de coragem para ter foco no que acreditamos, mesmo que isso venha a romper com o que esperam de nós ou com o que chegamos a crer que precisamos cumprir para passar por essa vida.

Acho que a sacada é tão simples quanto: be the artist of your own life. Sim, faça da sua vida a sua obra criativa. Assim teremos capacidade para sermos muito mais felizes e a nossa vida será muito mais interessante.