
É possível ter saúde mental mesmo trabalhando em um banco?
Parte 1: Aqui não foi sempre assim
O risco de adoecimento dos bancários é tão clássico quanto o de acidentes na indústria metalúrgica. No entanto, ao longo dos anos este risco foi se deslocando de aspectos físicos para psíquicos. A história de evolução e automação do setor bancário fez com que a demanda e, naturalmente, o risco neste trabalho se concentrasse mais nas necessidades de adaptação emocional, afetiva e moral. Perguntar se é possível ter saúde mental, mesmo trabalhando em um banco, parece ser apenas provocativo. Entretanto, ao longo da discussão o leitor verá que o ambiente de trabalho bancário possui um potencial nocivo tamanho à saúde mental que permite uma pergunta deste teor.
Buscarei responder a esta questão por meio de quatro textos que se complementam. Neste primeiro, farei um breve histórico do movimento que ocorreu e que está acontecendo nos bancos para que entenda como a mudança nas exigências do trabalho alterou também o risco de adoecimento. No segundo texto, o leitor entenderá como a natureza da tarefa (o tipo de atividade desenvolvida) e a organização do trabalho (estrutura de tarefas, recursos, metas e recompensas) influenciam o adoecimento dos bancários. A cereja podre deste bolo será descrita no terceiro texto, que trará uma reflexão sobre como o conflito moral e a pressão pela corrosão do caráter participam da gênese e manutenção de um estado psíquico adoecido. Por fim, amarraremos o último texto entendendo como aspectos pessoais ampliam ou diminuem as chances de adoecimento, estratégias de autoproteção e enfrentamento (coping) e possíveis caminhos para se manter saudável em um contexto com índices tão altos de adoecimento.
As pesquisas atuais sobre saúde no setor bancário apontam que um número próximo de 60% dos profissionais deste segmento possui critérios para depressão ou ansiedade. Esses índices são bem superiores à média da população que, conforme dados da OMS, está próximo a 5,8% para depressão e 9,3% para ansiedade, se considerarmos a população brasileira, pois os índices na população mundial são ainda menores. Para que se compreenda o cenário atual, é fundamental entendermos como se comportou o segmento bancário, que de certa forma foi semelhante em todo o mundo, e como ele caminhou para este quadro.
Até o início da década de 1990, o trabalho bancário era basicamente de escrituração. Como não havia informatização e automação de processos, os registros contábeis e financeiros eram feitos à mão em grandes livros e documentos, muitas vezes utilizando máquinas registradoras, máquinas de escrever e outras geringonças específicas dos bancos, ricas em movimentos repetitivos. Em um contexto como este, o bancário que se destacava no trabalho, o “bom de serviço” como dizemos em Minas, era aquele que era capaz de se organizar, cumprir procedimentos e regras, se concentrar na atividade e, ao mesmo tempo, ser rápido com estes equipamentos. Naturalmente, a “doença de bancário” desta época era a LER (Lesão por esforço repetitivo), chamada posteriormente de DORT (Doenças Osteoarticulares Relacionadas ao Trabalho), que causava dores, limitação motora e outros sintomas similares em pescoço e membros superiores, em decorrência de movimentos, em alta frequência e em posições ergonômicas incorretas. A luta dos sindicatos se concentrava então em garantir pequenos intervalos interjornada, como pausas de 10 minutos a cada 50 minutos de trabalho, e equipamentos mais ergonômicos.

A era da reestruturação produtiva. Logo nos primeiros anos da década de 1990, o trabalho bancário começou a passar por uma grande mudança de formato, que se chamou reestruturação produtiva. Essa reestruturação consistia principalmente na inclusão de novas tecnologias no setor. É o momento do advento da informática, dos computadores em rede e da automação. No setor bancário, a reestruturação produtiva veio com a automação de processos que antes eram estritamente manuais, como o saque, pagamentos de boletos, depósitos, consultas, cálculos e outros. Isso mesmo, estamos falando principalmente dos caixas eletrônicos. Além deles, os sistemas de registro de clientes, cálculo de juros, atualização automática das aplicações, cálculo de parcelas de financiamento e outras atividades que hoje são corriqueiramente realizadas por meio de softwares, mas que antes desta época eram feitas manualmente.
Naturalmente, assim como acontece a cada revolução industrial, houve uma redução da necessidade de mão de obra e muita gente foi para “o olho da rua”. Alguns foram demitidos de fato, especialmente em bancos privados, e outros, dos bancos públicos em especial, foram convidados a se demitirem voluntariamente, para usar o mesmo eufemismo adotado pelas organizações. As demissões e pressões por demissão “voluntária” ocorreram, por um lado, porque a automação reduziu a necessidade de trabalho manual e, naturalmente, de mão de obra, mas também porque as organizações entenderam que precisavam mudar o perfil do profissional da área.
A reestruturação produtiva não trouxe apenas agilidade e precisão aos processos, junto a ela veio também uma mudança brusca no que era exigido do profissional bancário. Tudo aquilo que era valorizado antes da automação ficou fora de moda, em desuso, habilidade pouco útil para a nova realidade. Neste contexto automatizado, ser organizado, cumprir regras, fazer cálculos complexos de juros ou a agilidade para contar dinheiro não fazia muita diferença, estas foram capacidades superadas pelas máquinas e sistemas. Dessa forma, os bancos não precisavam mais de escriturários, mas de vendedores. Penso que a sensação do bancário que passou pelos dois momentos foi semelhante ao que o Lulu Santos disse na música Twist, na qual o personagem se assusta ao acordar e ver no espelho que o mundo mudou, diz o refrão “E logo eu, que era o campeão do twist. Naquele tempo, eu era tão feliz, hoje eu não consigo impressionar mais ninguém com isso”.
Se você é o rei do twist, mas agora só toca rock, você tem duas principais alternativas, ou você deixa o baile ou vai tentar aprender rock. Assim, dos profissionais que ficaram, não lhes restava outra alternativa a não ser se tornarem vendedores. Diante de uma menor exigência de atividades repetitivas, somada à pressão ou medo de demissão, a um esforço brusco para mudança de suas capacidades, à ameaça das novas gerações que entravam com maior afinidade com as novas tecnologias e a outros elementos da reestruturação, a doença de bancário migra da LER/DORT para alcoolismo, tabagismo, dependência química e abuso de substâncias. Como diria o Chico Buarque, “também, sem a cachaça, ninguém segura este rojão”.
Entre os meados da década de 1990 início dos anos 2000, o setor bancário sempre liderava o ranking de casos de alcoolismo e uso abusivo de substâncias, os dois associados ao trabalho. As gerações foram mudando, estes profissionais mais antigos se aposentavam e davam espaço para uma nova geração, que entrava tendo ciência da regra mor do novo jogo bancário: “aqui você é vendedor”. Então pessoas com maior aderência a atividades comerciais e negociais foram ocupando cada vez mais espaço neste setor. A maioria dos novos profissionais hoje entra com graduação, muitas vezes pós-graduação, experiência anteriores em vendas ou similares e, em geral, buscando realizar uma carreira nestas organizações. Elas chegaram dançando rock.

A todo vapor..
Diante dessas mudanças e também por influência de grandes trabalhos de prevenção do alcoolismo e outras doenças semelhantes, a dependência e o uso abusivo de substâncias foram diminuindo. Entretanto, os bancos focaram cada vez mais seu trabalho na área comercial, na venda de produtos financeiros, como crédito, investimentos, seguros e demais. E viu o banqueiro que isso era bom, rentável. Assim, a pressão por vendas se tornou cada vez maior, gerando também maior competitividade entre os pares, exigências de constante qualificação, produtos novos a cada momento, interação com outras novas tecnologias, popularização da internet, “atenda antes do terceiro toque”, curso online, smartphone, aplicativo, audioconferência, mais venda, SAC, cotação, CRM, meta, indicador, sorria, ufa! O setor bancário pisou no acelerador. Esta aceleração trouxe uma nova necessidade de adaptação que nem a cachaça resolve. Uma exigência física e, principalmente, psíquica de adaptar-se, de agir e pensar rapidamente e ainda fingir que teve prazer ou, ainda pior, de acreditar que o teve de fato. Foi bom para você quanto foi para mim? — diria o banqueiro acendendo um charuto. O que importa? Está aqui sua participação nos lucros, se banhe e deite por algumas horas, que amanhã tem mais. Na maioria das vezes a sensação é de que foi bom sim, mas ao mesmo tempo de que algo estranho aconteceu.
Este esforço psíquico repetitivo leva então com o tempo aos quadros que citei, porque mesmo que não seja por meio da cachaça seu corpo vai cobrar a conta, seja com sintomas físicos ou psíquicos. Diante disso, como não dá para desacelerar, a solução do bancário é usar um aditivo, um “arrebite”. Os sintomas físicos e psíquicos são encobertos então artificialmente, por meio de antidepressivos e ansiolíticos. Na pesquisa que realizei em uma cidade do interior de Minas, um número próximo de 50% dos participantes tomava algum antidepressivo ou ansiolítico. Nas pesquisas realizadas em capitais, este índice é ainda maior, especialmente influenciado pela própria rotina de cidades grandes e pelo risco de assalto e sequestro. É o alcoolismo reeditado em uma versão mais forte e mais aceitável socialmente.
A demanda por energia extra constantemente tem levado os bancários estar entre as primeiras categorias com ocorrência de burnout, que é a síndrome do esgotamento profissional que leva a uma sensação constante de fadiga, irritabilidade e insensibilidade com os demais e sentimentos de fracasso, incompetência ou baixa realização profissional. Está atrás apenas de categorias como profissionais da área de saúde que atuam em socorro e emergência.
Os dados tanto da minha pesquisa quanto de outras que li confirmaram o que eu havia percebido quando trabalhei em uma instituição financeira, que o adoecimento psíquico, especialmente quadros próximos de depressão e ansiedade, são bem maiores entre bancários do que no restante da população. Entretanto, algumas questões ainda precisavam ser respondidas. O que especificamente há na natureza da atividade e na organização do trabalho bancário que ampliam a probabilidade de adoecimento neste trabalhador? Quais outros elementos participam disso? Por que algumas pessoas expostas às mesmas condições não desenvolvem quadros de adoecimento semelhantes? É possível ter saúde mental mesmo trabalhando em um banco? As respostas que encontrei me fizeram entender como eu entrei em períodos de adoecimento durante o tempo que fui bancário, incluindo uma crise de pânico, elementos que me fizeram sair destes momentos e o que era aquela constante sensação de incômodo que me acompanhava mesmo em épocas de comemoração. Nos próximos textos, trarei então um pouco destas respostas.
