Assim como eu ou você

Tirando o fato de que adora sentir o bafo das pessoas, Otávio é um cara normal. Assim como eu ou você.

Toda manhã ele tem um roteiro certo preparado na mente. Acorda, escova os dentes, toma café e corre para o ponto de ônibus, onde começa sua jornada prazerosa. Ele entra no veículo sempre muito atento, procurando um lugar vago ao lado da pessoa de aspecto mais desleixado, ou idosa, ou qualquer coisa que o faça imaginar que ela tenha mau hálito. Ele escolhe a vítima e senta-se ao seu lado discretamente, quase sem fazer contato ou dar pista do que virá logo em seguida. Então ele se aconchega no assento e começa a inclinar a cabeça na direção da pessoa, como se buscasse uma posição para cochilar. Aí, pronto, começam as cafungadas profundas e longas buscando qualquer vestígio do cheiro azedo inconfundível que só um potente bafo possui.

No trabalho existe uma secretária que ele adora puxar assunto. Não pela beleza, nem por amizade ou simpatia, apenas por questões de bafo. Essa secretária tem um bafo insuportável, o que a transformou em alvo de piada interna entre os amigos de Otávio. Só que para ele não. Ela era uma rainha, uma deusa, uma fonte inesgotável de prazer. Uma vez, em mais um de seus delírios em busca do prazer supremo, Otávio chegou a esconder a escova de dentes da mulher para que ela não pudesse fazer sua higiene após o almoço, apenas para que seu bafo ficasse mais forte. Grande Otávio…

Um dia, porém, uma grande desgraça se estendeu por sua vida na forma de uma sinusite. A doença, que ele havia tratado na infância, retornou de forma avassaladora e levou consigo parte de seu olfato. Otávio já não conseguia mais sentir odores com a mesma intensidade, nem mesmo o fortíssimo bafo da secretária do trabalho. Ele se atolou em uma grande depressão e por lá ficou durante muito tempo. O mundo perdera suas cores, sua graça, seus cheiros pútridos.

Mas, como é com toda desgraça, se ela não mata ajuda a fortalecer. Em um momento de puro desespero, Otávio descobriu um novo sentido para sua vida. Agora ele limpa os ouvidos com o dedo indicador e depois chupa toda aquela cera com aspecto de caramelo. E ele inventou uma regra para lidar com a cera: só pode tirá-la de dois em dois dias. Agora, Otávio passa a vida sempre na espera de um novo dia que, se não traz a deliciosa cera, traz uma deliciosa espera. O mundo não poderia ficar mais lindo.

Tirando o fato de que adora comer cera de ouvido, Otávio é um cara normal. Assim como eu ou você.