O Futuro é só o começo — sobre o Diip Connections de setembro.

No universo, a conexão é uma constante. Essa máxima é tão verdadeira, que pode soar tanto científica quanto esotérica, fazendo sentido para ambas. Para mim, é uma fala que sempre é antecedida pelo espanto e pela surpresa em me deparar com verdadeiros acasos (ou não) criadores.

Recentemente, imergi em uma disciplina que vem dado as caras em muitas manchetes por aí: Futurismo. Com ares que soam quase religiosos aos ouvidos despreparados, o Futurismo é uma disciplina que converge uma avalanche de ferramentas, frameworks, ideias e estudos, visando antever tendências e cenários possíveis — tudo com muita base científica e um feeling indispensável, vale dizer.

Eis que nessa imersão, fui surpreendido pelas quantidade de novas iniciativas que vem despontando no Brasil relacionadas ao tema. Basta dar uma procurada por aí que você vai entender porque o Futurismo promete entrar de cabeça na lista de skills básicas que todos precisaremos dominar, mais cedo ou mais tarde.

Dentre todas as brilhantes iniciativas que encontrei, a Diip (https://www.facebook.com/diipers/) foi umas das mais curiosas que eu encontrei. Com uma página bem abastecida de referências e uma empolgação natural daquelas iniciativas que sabem bem o que querem, a Diip é o tipo de empresa que dá vontade de levar para casa.

Rapidamente, seguindo o fluxo natural de hiperlinks, descobri que um dos projetos deles, Diip Connections, era dedicado a promover encontros mensais sobre tópicos relevantes e referentes ao Futuro. Como se não bastasse, alguns dias um novo encontro seria realizado, com o tema: Science+Fiction — do cyberpunk ao nowpunk. A citação de William Gibson na página do evento dá o tom do que vinha por aí: “O futuro já chegou. Só não está uniformemente distribuído.”

Eu sempre fui apaixonado por ficção científica, talvez daí a sedução imediata pela ideia de transformá-la em profissão. Seguindo a ideia básica de que eu precisava saber tudo sobre o tema e frequentar todos os encontros possíveis (afinal, imersão é imersão — não vale apenas por o pé na água). Dito isso, nem pensei: me inscrevi. A chegada à Diip já é marcante, pela energia da sócia-fundadora, Camila Ghattas. Sua energia e empatia são contagiantes. Você sabe que ali está alguém verdadeiramente apaixonada pelo Futurismo.

Mais empolgante ainda foi pesquisar sobre a palestrante: Lidia Zuin. Se você passar algum tempo no Linkedin dela (https://br.linkedin.com/in/lidiazuin) , vai entender como não há pessoa melhor para desmembrar esse tema sobre cruzamentos presentes e futuros entre ficção científica (em especial cyberpunk) e tendências. A sucessão de artigos e méritos — acadêmicos e profissionais — fazem inveja a qualquer um. A gente perceber que o tema está em boas mãos.

Lidia Zuin

Melhor do que ter suas expectativas atendidas, é ser completamente surpreendido e tirado dos eixos. Mindblowing é pouco para explicar o que foi o encontro. Logo de cara, ela nos inunda com seu conhecimento enciclopédico do tema. Estamos fisgados. O Futuro começou há tempos, nas cabeças de dezenas de mestres como Arthur C. Clarke (2001- Uma Odisséia no Espaço), Isaac Asimov (Eu robô, Fundação) e Robert A. Heinlein (Tropas Estelares): os chamado “Big Three” daquilo que ficou conhecida por Hard science fiction, devido ao seu interesse pela precisão científica, decorrente em grande parte da formação dos mestres (Asimov era bioquímico e Clarke foi inventor).

O que descobrimos é antecipação feita nas páginas ficcionais de muitos gadgets e inovações que viriam a se concretizar. Nesse ponto, quase me embrenhei por citar o clássico dilema do “ovo ou a galinha”. Aqui, a sócia-fundadora da Diip, Camila Gatthas, participou com seu olhar de futurista profissional, e você entende o que diferencia uma estudiosa do assunto e apaixonada pelo tema. Seu questionamento foi: “Em uma perspectiva evolutiva, qual você acha que veio primeiro: o ovo ou a galinha? Conceba a evolução como um aspecto não linear.” Confesso que me assustei com a pergunta, mas analisando o conceito de evolução, arrisquei: o ovo. Afinal, o ovo é a ideia que permite a possibilidade da galinha, que a concebe. Estava certo. Como a Camila finalizou, “a evolução é cíclica. Os répteis vieram antes das aves. Portanto, o ovo veio antes da galinha”.

Assim, as perspectivas de evolução, aplicadas ao Futurismo, somam-se ao modo como a própria evolução tecnológica acontece: não linear, mas cíclica, tendendo à retroalimentação constante. Itens indispensáveis das nossas plataformas tecnológicas, como o celular (antecipado por Robert Heinlein na forma dos pocket phones usados no conto Assignment in Eternity,) muitas vezes foram assumidamente inspirados pelas páginas das grandes obras da ficção científica, que serviram como embrião para os engenheiros e inventores que os concretizaram.

Mas a sociedade muda. As inovações aceleram. E mesmo a ficção científica, camaleônica por natureza, desmembrou-se em vertentes que romperam assumidamente como o idealismo e otimismo das histórias clássicas. Nascia assim o Cyberpunk, influenciado pelos trabalhos anteriores de Philip K. Dick (Blade Runner, Um Reflexo na Escuridão, Valis), que não incorporou o panteão dos escritores-cientistas, mas encontrou na ficção científica uma interface para lidar com os temas que o inquietavam: realidade, percepção, identidade, paranóia.

Pegando carona em inúmeros e rápidos avanços tecnológicos que dominaram os anos 80, o cyberpunk, inicialmente liderado por nomes como William Gibson, Rudy Rucker, Pat Cadigan, Bruce Sterling, Lewis Shiner e Greg Bear, caminhou por um viés bem menos otimista e idealizador. Suas histórias são quase sempre conduzidas por personagens que habitam submundos e quase sempre ligam-se a temas como hacking e o cruzamento muitas vezes conturbado de corporações, governos, drogas e tecnologia, através de um olhar nada romântico. Os tons dessas obras são muito mais escuros que o das eras anteriores da ficção científica.

Como não podíamos deixar de compreender, o cyberpunk também anteviu muito do que viria a se concretizar: a web, realidades virtuais e grandes corporações dominando a tecnologia já estavam lá, em todo o seu peso e densidade. O pós-moderno, com toda seu embate entre o real e suas representações, com o Simulacro de Jean Baudrillard, com sua complexidade permeando um ecossistema a cada instante mais caótico e fragmentado, se faz sentir.

Do Cyberpunk emergiu a cultura hacker, Matrix (ainda tido como exemplo mais conhecido, mesmo que não sendo o precursor). No Cyberpunk temos a antecipação de muitos temas para os quais a Lidia, desmembrou, fluida, sem perder de vista a complexidade de cada abordagem.

Realidades virtuais, interfaces Homem-Máquina, ciborgues, inteligência artificial: Um punhado de termos que todos conhecemos, mas pouco compreendemos. Fomos apresentados a todos, seguidos de insights incríveis sobre o que sabemos sobre o mundo e, mais importante, o que sabemos sobre nós. Material de peso, para refletir ao menos pelo resto do ano.

O mais interessante é notar como os temas não foram apenas antecipados nos universos ficcionais. O que os autores conseguiram foi justamente uma interface perfeita para discutir implicações morais e filosóficas de termos essas realidades possíveis incrustadas em nosso dia-a-dia. Não basta ser capaz de algo: quem seremos nós quando formos capazes de algo?

Aqui, o futuro já é bem presente. E a tecnologia se cruza com a ficção em campos que nos afetam indiscutivelmente: distribuição de renda, sexo, feminismo, política. As questões já foram feitas e nós ainda debatemos como resolvê-las. O mais incrível e atordoante é que muitas vezes não nos damos conta de como algo aparentemente simples, como a escolha de uma voz feminina para a maioria das interfaces de sistemas operacionais de smartphones, pode implicar inúmeras discussões que vão do papel da mulher na sociedade à representatividade de gêneros.

Em uma entrevista incrível e profética exibida no encontro, William Gibson diz que, para ele, a resposta não está na tecnofilia, tampouco na tecnofobia. A resposta é um meio termo entre esses extremos. A tecnologia, afinal, não é culpada ou inocente do que é feito com ela. O que ela nos faz é repensar nossa própria ideia — já desatualizada, diga-se de passagem — daquilo que nos define como humanos, dos nossos propósitos e nossas aspirações.

A verdade é que essas mudanças são inevitáveis. A curva do seu avanço é ascendente e sem retorno.

Um brinde à Lidia, que nos abriu uma fresta na porta do que vem por aí.

Like what you read? Give Felipe Esrenko a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.