Rússia e a Guerra Civil Síria
(Texto autoral adaptado de um trabalho universitário)
Raízes Contemporâneas do Conflito
Antes de tratar da presença russa na região, é fundamental compreender a divisão étnica e religiosa do país a fim de entender o levante contra o regime de Bashar al-Assad na Síria. Tendo, então, a divisão populacional como ponto de partida, percebe-se que as dinâmicas internas do país se comportam como em um sistema similar ao de castas, no qual partes específicas da população do país detêm poder social, político e religioso em relação às demais. Com 23 milhões de habitantes, a população se divide etnicamente entre Árabes (90.3%), Armênios (8.73%) e Curdos (0.97%). Enquanto que religiosamente entre Sunitas (74%), Alauitas (10%), Ismaelitas e Xiitas (3%), Cristãos (10%), e Drusos (3%).
Sendo que destes, os árabes Alauitas, a minoria mais expressiva em números no país, detêm poder sobre as demais, sendo a elite da qual faz parte o regente Bashar al-Assad.
Durante os primeiros levantes a Primavera Árabe na Síria, em março de 2011, 15 crianças foram presas e quatro manifestantes foram mortos pelas forças do regime na cidade de Dera, o que resultou numa dura e violenta reação da população em outras cidades. O confronto entre a população reativa e as forças de Assad desencadeou a morte de centenas de Sunitas na cidade de Houla, em 2012, o que deu início à Guerra Civil.
Nesse interim, al-Baghdadi, o líder do Daesha (nome árabe para o Estado Islâmico do Iraque e do Levante), começou a mandar membros com expertise em técnicas de guerrilha e combate em geral para a fronteira da Síria com a intenção de estabelecer uma base no país. Liderados por um dos homens de confiança de al-Baghdadi, al-Julani, o avanço da Daesha cooptou sírios e formou em 2012 a célula regional denominada Jabhat al-Nusra, tida como principal braço de apoio dos rebeldes contra o regime de Assad.
A célula do ISIS definiu zonas de influência partindo do Iraque, criando bolsões de onde apoiaria os rebeldes a fim de estabelecer domínio misto na Síria.
O avanço das tropas da al-Nusra, e a escalada das tensões com a intenção de depor o regime fez com que Assad se unisse a facções Curdas e pedisse o apoio de um dos antigos aliados do país, a Rússia.
Enquanto o al-Nusra tem como intenção expandir a zona de controle do Daesha, as forças ocidentais lideradas pelos Estados Unidos conter o fluxo migratório em direção a União Europeia e estabelecer um governo alinhado aos seus objetivos, a agenda russa define suas próprias prioridades na região.
A Rússia
Com intenções específicas no entorno, a Rússia mantém uma antiga relação com a Síria, que remonta o levante e permanência da família Assad no poder desde a época da União Soviética. Embora políticos e especialistas insistam que a intervenção russa no Oriente Médio é um retorno às dinâmicas da região, a verdade é que as forças e interesses do Kremlin nunca saíram de lá.
A Rússia mantém uma base naval em Tartus desde a era Soviética, sendo o último posto de comando no mediterrâneo, e fundamental ponto estratégico para os russos.
Além disso, Bashar al-Assad representa um dos últimos aliados do Kremlin no Oriente Médio (principalmente depois da derrubada de Muammar al-Gaddafi no Líbano), e sua saída do poder desestabilizaria as ações e o curso dos objetivos na região — parte do plano de aproximação dos países do entorno com o preceito do combate ao Estado Islâmico.
Com canais de comunicação “amplamente abertos”, a Rússia conseguiu estreitar laços com o Egito, a Jordânia, a Turquia, o Kuwait, a Arábia Saudita, o Iraque (que demonstrou bastante interesse a cooperar na eliminação do Daesha) e até mesmo Israel, que teme o avanço dos terroristas no entorno.
A entrada oficial da Rússia pode ter sido, inclusive, se não a causa definitiva da intervenção direta do Ocidente (liderado pelos Estados Unidos e os bombardeios focados na utilização de drones), um catalisador importantíssimo. Estabelecendo contato direto entre as forças do regime sírio, e comunicação semi-transparente com a mídia ocidental, a Rússia de Vladmir Putin transformou a campanha na região em uma mensagem de que a herdeira da União Soviética ainda detém o status de grande potência, e que talvez não jogue pelo papel de status quo seeker, mas de status quo keeper.
Apesar de não operar de maneira tão ativa por mais de dez anos na Síria, a Rússia tem demonstrado abordagens de combate modernas que destoam do que se analisava do país. Com ataques aéreos a partir de bases estrangeiras, a utilização de cruise missiles (utilizando Kh-55SM, mísseis equipados com TERCOM, que possibilitam a navegação a menos de 110m de altura em velocidades subsônicas e com precisão CEP de 15 metros com sistema de navegação inerte) lançados a partir dos modelos Tu-95s, Tu-22Ms e Tu-160s dos Tupolevs; além do Kh-101 (versão stealth do aparato), drones, coordenação de marinha e aeronáutica e ausência de forças terrestres, a ação militar do Kremlin é a principal força na região.
Outras razões.
Além de ser um status quo keeper, a Rússia tem como três principais motivações a luta contra o terrorismo islâmico, a manutenção do apoio interno ao governo Putin, e o aquecimento do mercado de armamentos. No que diz respeito à luta contra extremistas, a Rússia vem sofrendo desde a década de 90 duros ataques da oposição rebelde Chechena, de onde partiu vários dos líderes do Estado Islâmico — o que leva a crer a escalada de atentados na região, e o país como próximo grande alvo.
Em relação ao apoio interno, as sanções aplicadas contra a Rússia por conta da crise na Ucrânia fizeram com que a situação econômica do país se deteriorasse mais ainda, causando uma retração de 3.7% na economia em 2015, além de ter tornado o país um dos 10 piores mercados emergentes de acordo com o FMI. Embora a popularidade de Putin com a classe média continue relativamente intacta, há a preocupação em manter a coesão interna das forças sociais e políticas que apoiam o governo.
Finalmente, a Rússia é um dos maiores produtores de armas do planeta, tendo como principais mercados a China e a Índia. A introdução e o uso de armamentos no conflito Sírio (além da venda dos mesmos para os Curdos e para as forças do regime) servem como uma grande propaganda de mercadoria — o que explica a introdução de diversas novas tecnologias, como o já mencionado Kh-101.
A presença da Rússia na Síria, assim como na região, é apenas parte da política externa do Kremlin que se posiciona enquanto player ainda ativo no cenário internacional — embora em decadência desde o fim da União Soviética em 1989. As ações e desdobramentos fazem parte da agenda de coesão política interna para o governo Putin, e a reafirmação de influência no Oriente Médio, e um display de capacidades aos Estados Unidos e à China.
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