SEM ATRASOS

Ilustração: Maicon Braga

Do ambiente

São 15h. Dia 23 de fevereiro de 2017. Sol de rachar mamona, 35 graus no Centro de Patos de Minas, senão mais. O piso do prédio em construção onde estou é ocupado por um banco popular. O esqueleto de três andares do que será um edifício comercial com dez lajes já se sustenta com bases robustas sobre o banco.

Meu nariz começa a sambar o samba do crioulo doido no embalo da rinite acordada por uma camada espessa de poeira e cimento no corredor que dá acesso aos andares. A certeza de que terei de tomar antialérgicos é reforçada por um carpete posto nos degraus irregulares da escada, coberto pelo equivalente à população da Terra contabilizada em ácaros-por-metro-quadrado de tecido, com mais uma arroba de poeira e cimento envolvida.

Vou à cata da minha fonte, que me informaram estar no segundo piso, no intervalo do lanche da tarde. Encontro trabalhadores apinhados próximos a uns cavaletes. “Ele deve tá no meio deles”, penso. “Boa tarde! Tudo bem? Alguém de vocês é ou sabe me informar quem…” — minha fala é interrompida por um “Ahhhhhhhhhhhhhhhhh! A folga acabou, moçada. Bora voltar pro serviço”. A imitação de um alarme, acompanhada do aviso é inconfundível. “Te encontrei”.


Da personagem

Márcio José Camargo | Foto: Felipe Melo

Márcio e seus colegas acham um barato saber que o pretexto da minha presença é o interesse pelo imitador dos alarmes que soam a uma distância considerável da construção e despertam a curiosidade de quem diariamente ouve os alertas do seu local de trabalho, da sua casa, ou caminha por ali no momento do berreiro.

Márcio José Camargo tem 35 anos, é natural de Patos de Minas e trabalha como servente de pedreiro. Aproximadamente 1,85 m de altura; magro; olhos verdes; pele clara, apesar de escurecida e marcada pela exposição ao sol; cabelo curto, com alguns fios esbranquiçados; barba despontando; alguns pés-de-galinha e rugas na glabela, que se evidenciam quando sorri. Veste camiseta branca, calça jeans escura, usa botinas, capacete e segura as luvas em uma das mãos.

É espontâneo; de fala simples, porém desenvolta; bem-humorado; acessível; humilde e bastante solícito. Cria seis filhos, quatro adotados e dois da mulher com quem é amasiado. Trabalha na construção atual há pouco mais de um mês como contratado da empreiteira responsável pela obra. Sua postura é carregada do senso moral que recebeu e refinou, fazendo crer no modo de conduta íntegro que ele inspira.


Do inusitado

Depois da sequência de três espirros e uma fungada, peço desculpas ao Márcio e pergunto a ele de onde veio a ideia de sinalizar os horários fixos da construção com um grito que imita uma sirene. “A gente tem que bater o ponto, né? Daí, pra não atrasar eu falei ‘Vou inventar uma sirene’. Fiz uma vez; eles gostaram. Mais à tarde eles perguntaram ‘E a sirene?’. Desde esse dia eu apito 7h, 11h, 12h, 15h e 17h”.

É a primeira vez que Márcio ocupa o posto de sirene. Ele não havia desempenhado a função em nenhum outro trabalho até então. Isso lhe garantiu o apelido de Marcinho-sirene. “Eu levo essa tarefa a sério. Tem um pedaço de brincadeira, pro dia a dia da gente não ficar monótono, mas tem que ter responsabilidade também, porque senão o pessoal não respeita. No sábado eu tenho meus bicos na roça. Quando eu chego, eles falam que sentiram falta da sirene”.

Falo para o Marcinho-sirene que seu alarme alcança os arredores e serve de referência a muitas pessoas que o ouvem. Ao que ele responde “Glória a Deus! Que chique!”, e rimos juntos.

“Eu penso assim — ele diz — , independente dos nossos problemas, a gente tem que ser extrovertido, alegre. Se você deixar os problemas te abaterem, você fica triste. É ruim, né? Tem que relevar os problemas com as coisas boas do dia a dia. Se o baixo-astral tomar conta, a gente não vive”.

Começo a lacrimejar. Mas não de emoção por conta da fala do Marcinho. É só a rinite comendo.


Do desfecho

Colegas de trabalho e superiores aprovam o trabalho do Marcinho, tanto em relação aos serviços de servente, como ao de alarme-humano. Ele me pergunta se a entrevista será veiculada na TV local. Explico que não, mas que será parte de um livro-reportagem. Sua expressão confusa me faz sentir necessidade de explicar do que se trata. Ao final do esclarecimento ele sorri como quem agradece por um tratamento distinto.

Devido ao sucesso na função de sirene, Marcinho pretende levá-la adiante. A construção deve durar três anos. “Marcinho, cuida dessa goela, hein!”, brinco. “Deixa comigo!”, ele responde. Agradeço pela receptividade, gentileza e disponibilidade com que ele me recebeu. Marcinho é uma personagem e tanto, com um sorriso que não desgruda da boca. Impossível não sentir empatia pelo homem. Nós nos despedimos agradecidos pela experiência que um proporcionou ao outro.


Volto para minha rotina de trabalho. Faltam três minutos para as 17h. Marcinho “apita”, e eu me lembro de tomar minhas duas cápsulas diárias de óleo de peixe — ah!, e meio comprimido de antialérgico, que é para não capotar de sono ao final do expediente, nem escalavrar meu nariz de tanto esfregá-lo. Marcinho deve estar saindo da obra agora. Imagino que esteja ansioso para narrar nosso encontro à sua grande família, assim como deve tê-lo feito aos colegas quando retomou o serviço. Dia desses te pago um café, Marcinho. Depois do apito das 15h.

Karol Martins, jornalista que acompanhou a entrevista, fotografa Marcinho-sirene | Foto: Felipe Melo

Bloco de notas

Todos os dias, dezenas, centenas, milhares de pessoas passam despercebidas de nós. Trabalho, estudo, cursinho de inglês (e outros a perder de vista), vida social, afetiva etc. A geração que hoje tem até 35 anos é culpada de narcisista, egocêntrica e egoísta. Não discordo. Faço parte dela. Somos cobrados demais, cedo demais e cada vez mais temos de dar conta de mais e mais competências que nos são exigidas. Difícil encontrar espaço para pensar em algo que não seja “eu; minha formação; meu trabalho; as contas que tenho de pagar; o que fazer para produzir mais com gasto menor de tempo; que aos 30 anos tenho de ter uma vida estável, casa própria, carro na garagem e um cachorro; e, claro, manter a boa-forma”.
Marcinhos-sirenes se tornam seres anônimos, irrelevantes; quando, na verdade, são pedras raras enterradas no asfalto das cidades entupidas de outros seres anônimos que, dia após dia, têm menos importância para nós. Afinal, estamos ocupados demais com nós mesmos. Pessoas como Marcinho nos fazem refletir sobre o valor da simplicidade; nos fazem sentir vergonha por não conseguirmos ser felizes chafurdados na compulsão por ser, ter e acumular, enquanto ele se alegra com tão pouco.
Estar atento ao que acontece à volta, prestar atenção ao outro são exercícios exigentes hoje em dia. Isso é resultado do pensamento “se não me traz nenhuma vantagem ou benefício é perda de tempo; não vale a pena investir”. Se mensurássemos as experiências valiosas que o outro tem a nos oferecer, aprenderíamos rapidamente que o ser humano consta entre os investimentos que proporcionam retorno vasto de experiências, e experiências únicas, irrepetíveis, memoráveis, que, se bem guardadas e reconhecidas, não se perdem; ao contrário, se multiplicam. Marcinho me lembra isso pelo menos quatro vezes ao dia.
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