Caminhos da inc.ubalab — do Lab Meeting Iberoamericano à nova sei.eco

No começo de setembro, passei alguns dias em Madrid, na Espanha, participando do Lab Meeting Iberoamericano. O encontro foi uma iniciativa conjunta da União de Cidades e Capitais Iberoamericanas e do Medialab Prado, com apoio do programa de Inovação Cidadã da Secretaria-Geral Iberoamericana.

Eu estava lá representando a inc.ubalab, uma das oito iniciativas selecionadas a participar do evento por meio de uma convocatória que buscava “projetos que facilitem a colaboração entre cidades e iniciativas de inovação cidadã para seu desenvolvimento durante o encontro”. Dizia ainda a convocatória que o objetivo do Lab Meeting era “criar um lugar de encontro para o intercâmbio de experiências e aprendizagens que ajudem a construir redes de colaboração entre iniciativas iberoamericanas de laboratórios de experimentação e inovação cidadã”. Confesso que essas duas definições soavam algo ambíguas. Até o primeiro dia por lá eu não tinha certeza se o foco seria trabalhar individualmente cada um dos projetos, ou buscar pontos de contato entre eles. De fato, o evento concentrou-se muito mais no desenvolvimento individual de cada iniciativa, e isso tinha vantagens e desvantagens.

Medialab Prado

O Lab Meeting seguiu a metodologia desenvolvida originalmente no Medialab Prado para os encontros Interactivos, metodologia esta que também vem sendo adotada em outros eventos como as várias edições do Labic, por exemplo. Em resumo, funciona assim: define-se um tema, local e período. Publica-se então uma convocatória para selecionar projetos, e outra convocatória para comunicações. Com os projetos já selecionados, abre-se outra convocatória para convidar colaboradores — pessoas que disponham-se a passar o tempo do encontro trabalhando naqueles projetos selecionados. Ao fim do período, espera-se que cada projeto tenha desenvolvido um protótipo. O evento orienta-se assim em torno da construção coletiva, do exercício concreto e do intercâmbio de saberes. Por outro lado, como já falei em outras ocasiões, me desconforta um pouco a adoção irrefletida da imagem do “protótipo” no que evoca um vocabulário industrial, e pode dar a entender um baixo nível de compromisso com resultados efetivos (o protótipo como mero ensaio de uma produção real que virá em outro momento).

Mas consigo, claro, entender ali o protótipo como uma apropriação esperta, uma bandeira pirata que dialoga com um certo senso comum do empreendedorismo e da inovação para possibilitar experiências críticas de invenção política sem necessariamente dar nomes aos bois.

Eu costumo lançar mão das bandeiras piratas também. Só acho importante chamar a atenção para a importância de nunca acreditar demais na bandeira do momento — ela deveria ser a ferramenta, e não o objetivo.

De todo modo, a chamada por projetos para o Lab Meeting foi lançada justo na época em que o ninho estava de mudança para sua nova sede. Cheguei a ficar em dúvida se deveria inscrever o próprio ninho, a inc.ubalab ou outro dos projetos em andamento no nosso entorno. Decidi pela inc.ubalab porque pareceu o que tinha maior aderência aos temas da convocatória, e muito potencial para aprofundamento e crescimento, após algum tempo de atividade reduzida.

A inc.ubalab foi criada em 2017, como um dos resultados do projeto de pesquisa-ação Ciência Aberta Ubatuba. Partiu de uma série de percepções oriundas daquele projeto: de que Ubatuba tem, por um lado, enormes desafios na busca de alternativas sustentáveis de desenvolvimento socioeconômico, e por outro lado está repleta de pessoas, grupos, projetos e iniciativas que esbanjam talento e criatividade justamente na busca dessas mesmas alternativas. Falta ligar os pontos: ajudar quem tem ideias a encontrar quem sabe transformá-las em projetos; aproximar pessoas que têm problemas comuns; criar espaços de intercâmbio e construção coletiva que são raros em uma cidade extensa, de geografia fragmentada e sem universidades ou meios de comunicação abrangentes.

Inauguramos a inc.ubalab durante o seminário de encerramento do projeto Ciência Aberta Ubatuba, de maneira prosaica. Fizemos um convite a quem quisesse apresentar iniciativas voltadas a mobilizar conhecimentos diversos para a construção de futuros melhores. Esperávamos que viessem cinco ou seis apresentações. Para nossa surpresa, foram dezessete, em temas diversos e relevantes.

Primeira reunião da inc.ubalab

Fizemos reuniões similares àquela primeira nos quatro meses seguintes. No total, cerca de sessenta pessoas participaram, e quase quarenta iniciativas foram apresentadas. Algumas delas foram evoluindo durante os encontros, outras foram deixadas de lado. Oferecíamos, em nome da inc.ubalab, algumas possibilidades para todos aqueles projetos: o uso facilitado do ninho como espaço de trabalho e intercâmbio; um grupo de e-mails e uma wiki como ambientes online para articulação e registro de atividades; e a ideia ainda um pouco vaga de capacitar os integrantes dos projetos em assuntos ligados a elaboração e gestão de projetos.

Chegamos a começar a organizar grupos de trabalho em temas que mapeamos a partir dos temas tratados nas apresentações em reuniões. Entretanto, aquele formato inicial de encontro havia se esgotado. Ao mesmo tempo, em uma nota pessoal, a minha capacidade de organizar voluntariamente os encontros foi se reduzindo à medida que precisava me dedicar a outras atividades para pagar as contas em um momento financeiro difícil em meados de 2017. Naturalmente, algumas das iniciativas que haviam sido apresentadas naquelas quatro reuniões continuaram se desenvolvendo, e utilizando a frugal infraestrutura compartilhada que havíamos começado a construir. Algumas novas ações, em cooperação, foram criadas nos encontros ou a partir deles. Mas durante alguns meses deixamos de lado a construção mais ampla de um cenário, e os projetos que estavam em andamento voltaram a se desenvolver de forma fragmentada.

Foi mais ou menos assim que chegamos ao momento de inscrever a inc.ubalab na convocatória do Lab Meeting há alguns meses. Para nossa inscrição, contei essa história e algumas das expectativas que havia colhido nas conversas com colegas — mais intensas a partir da rearticulação e mudança do coletivo que gere o ninho. Tenho certeza que contei também com a empatia quebra-gelo a partir de meu relacionamento prévio com boa parte do conselho organizador do encontro.

Um efeito esperado, a mera seleção da inc.ubalab para participar do Lab Meeting ensejou uma reorganização do projeto, em termos um pouco diferentes. Nos meses que precederam setembro, passamos a fazer encontros temáticos, aos quais compareciam grupos com composições ligeiramente distintas de acordo com o assunto do dia. Novos projetos em cooperação começaram a ser esboçados.

Iria então a Madrid com um projeto que havia começado acelerado, e depois baixado um pouco. Mas a meu ver já estava começando a retomar seu imenso potencial de desenvolvimento e relevância dentro do universo da inovação cidadã. Mais do que isso, aliás. Outra confissão que faço aqui é que nunca fiquei tão confortável com essa construção, “inovação cidadã”, que vem sendo trabalhada em torno da rede que organiza os encontros Labic. Credito parte disso a diferenças idiomáticas — a maneira como se articula “cidadania” em castelhano é diferente do que soa para a gente aqui no Brasil. Naquele idioma é frequente que se use “a cidadania” como sinônimo a “a comunidade local”, ou “a sociedade civil”. Falam, assim, de como “a cidadania quer participar mais das decisões”, entendendo essa "cidadania" como o conjunto concreto de atores atuando em determinada localidade ou região. Entendo que nosso recorte aqui é diferente, por um lado colocando-se mais como construção incompleta, e por outro se confundindo de forma superficial com uma descrição abstrata da civilidade e vida em sociedade. Assim, “vamos promover a cidadania” por aqui pode significar, por exemplo, fazer uma campanha para que as pessoas não joguem lixo no chão. Não que isso não seja importante, mas acho que não casa diretamente com o sentido que se dá a esse termo nos países de fala castelhana (e nem sei se se aplica a todos eles, mas isso já não importa tanto).

E esse não é o único motivo do meu desconforto. Minha opinião, claro, é de um agente reflexivo — talvez em excesso — e comprometido com o futuro de um lugar especial no planeta: a cidade de Ubatuba, que felizmente ainda tem mais de 80% de cobertura de Mata Atlântica — o mesmo bioma que foi praticamente destruído em quase todo o restante da sua área original. A Mata Atlântica costumava cobrir boa parte da costa leste do Brasil, da região sul ao nordeste setentrional, e adentrava o território em direção ao interior até o Paraguai. Hoje estima-se que a cobertura de Mata Atlântica equivalha a somente cerca de 7% do que costumava ser. Uma parte dessa mata remanescente está em Ubatuba, e esse patrimônio natural e simbólico não pode ser deixado de lado quando se pensa em construir alternativas para o desenvolvimento socioeconômico da cidade. Isso é uma questão central, e meu motivo para pensar para além da “cidadania”. Afinal, se a preocupação fundamental é a inclusão socieconômica, poderíamos pensar que uma boa alternativa seria flexibilizar as regras de proteção ambiental e autorizar a ínstalação de indústrias pesadas que possam gerar emprego na região, não?

Não!

Essa mudança de referência é fundamental. O objetivo de longo prazo não é somente melhorar a vida da população, mas fazê-lo incorporando a proteção da natureza como elemento chave, desde o princípio. E também nesse sentido, “inovação cidadã” é insuficiente para as nossas questões. Imagino que em localidades mais urbanizadas ou pós-industriais, que não tenham um patrimônio natural tão relevante (onde ele já tenha sido destruído irremediavelmente ou até reconstruído de forma artificial), não haja necessidade de explicitar esse aspecto. Mas em Ubatuba, ele deve ser inegociável.

E foi com isso tudo na cabeça (e muito mais, pra variar) que cheguei ao Medialab Prado no começo de setembro. Foi minha primeira visita à sede atual. Conheci o Medialab quando ainda estava somente no porão da Praça das Letras, e já àquela época era um lugar inspirador. Brinquei com o diretor Marcos Garcia que da última vez que eu havia visitado, em 2010, o Medialab ainda era uma semente lá debaixo da praça, e que agora cresceu como uma árvore exuberante. O Medialab Prado tem amplos espaços de trabalho, exibição e convívio. Conta com um FabLab, laboratório de fabricação digital. Tem ainda instalações para hospedar convidados, um agradável café com área externa e um grande e equipado auditório. É financiado principalmente pela Prefeitura de Madrid e outros parceiros governamentais, internacionais e privados. E tem frequentemente uma programação relevante com audiência internacional e diversa, como era o caso do Lab Meeting.

https://www.youtube.com/watch?v=c0-AAS7edgo

No primeiro dia, conheci a equipe de colaboradores. Eram pessoas fantásticas, que haviam se inscrito para participar da construção do nosso projeto ao longo daqueles três dias. Havia gestores culturais, consultores, pessoas de ONGs e de projetos comunitários, coordenadores de programas públicos orientados a empreendedorismo e inovação, em boa parte dos casos inovação cidadã. Seriam dias interessantes.

Ao longo das primeiras duas sessões, eu falei basicamente sobre contexto: onde fica Ubatuba, o que eu descobri sobre as dinâmicas da cidade nesses dez anos como morador e articulador, alguns projetos que já havia feito. Acho que nesses primeiros momentos de trabalho eu estava ansioso por sair dali com algum protótipo para mostrar naqueles dias, e acabei olhando tudo sob a perspectiva de começar a construir a próxima edição do festival Tropixel. Seria uma resposta rápida, mas em nada diferente do que eu mesmo faria sozinho se tivesse aquele tempo livre. Felizmente, nossa equipe de colaboradores continuou fazendo as perguntas certas, e não me deixaram sair com a resposta fácil.

A partir da minha descrição solta do cenário, o pessoal não conseguia visualizar como a inc.ubalab funcionava na prática. Queriam saber como o contexto se financiava, qual o modelo de governança, quais eram as iniciativas. No dia seguinte, infelizmente acabei perdendo algumas das comunicações porque aproveitei o intervalo para voltar à mesa e construir um mapa das iniciativas, coletivos e organizações que haviam se apresentado durante as reuniões da inc.ubalab. Em outro lugar, também listei alguns dos projetos cooperativos que já haviam sido esboçados ou estavam em planejamento, ou em andamento. Quando retomamos os trabalhos, a conversa ficou mais clara. O colega Dardo Cerballos, que atuava como facilitador da nossa mesa, sugeriu trabalharmos em torno de quatro eixos: Visão, Comunidade/Rede, Modelos/Práticas, e Sustentabilidade. As primeiras três se desenrolaram com facilidade, até mesmo algum tédio eventual, uma vez que me vi repetindo coisas sobre as quais já falei ou escrevi bastante. A última foi mais complicada, mas chego lá logo mais.

Visão: um dos debates mais longos foi sobre o que queremos de forma concreta no horizonte. Para nossos colaboradores, o tipo de coisas que fazemos como inc.ubalab pareciam soltos demais, informais demais, para se encaixar no que se entende usualmente por incubadora. Não conseguiam entender por que eu resistia à ideia de transformar a inc.ubalab em uma instituição. Essa fronteira é um lugar que eu conheço bem. Já em uma conferência em 2005, uma ativista — bem-sucedida, fantástica — da Costa do Marfim tentava me convencer que a única maneira de a MetaReciclagem existir era se conformando e transformando-se em uma organização da sociedade civil, registrada, com diretoria e orçamento centralizado. Minha resposta era incompreensível para a visão de mundo dela: a rede MetaReciclagem já existia de fato, e atuava em dezenas de localidades do Brasil de forma descentralizada e coordenada. Incidia sobre políticas públicas, e influenciava diretamente projetos de pequena e grande escalas. É claro que essa opção pela para-constituição (citando Jamie King, pra variar) trazia seus próprios problemas, mas nenhum tão grande quanto tentar fazer uma só organização representar os anseios de tantas e tão diversas comunidades, e conseguir responder com agilidade e qualidade.

Eu sou um agente compulsivo de redes colaborativas abertas, e sei que suas dinâmicas são delicadas e exigem constante atenção para não romper laços que são frágeis e frequentemente invisíveis. De modo que a inc.ubalab, mesmo adotando de forma esperta (ver acima, “bandeiras piratas”) o vocabulário do empreendedorismo e se apresentando como uma “incubadora colaborativa”, não deixaria de ser em essência uma rede aberta, uma plataforma de construção coletiva. E para isso, era fundamental que não se tentasse impor representatividade formal nem mecanismos assimétricos de poder.

Ainda conversando sobre a Visão, surgiu novamente a sensação de não pertencimento completo ao universo da inovação cidadã. Eu propus a adoção de inovação socioecológica (por vezes usando “inovação socioambiental“ também), um termo que também não representa tudo que eu penso — como já falei aqui -, mas poderia funcionar como um elemento com o qual as diferentes iniciativas podem se relacionar.

Havia também o recorte local/regional. A inc.ubalab não deve somente facilitar a composição de projetos individuais, mas sim buscar a longo prazo auxiliar na criação e implementação de outros modos de desenvolvimento socioeconômico baseados na preservação do patrimônio ambiental, na inclusão e diversidade cultural, e na cultura de paz. Para isso, vamos precisar influenciar o imaginário de pessoas em todas as camadas da sociedade: dos gestores públicos às comunidades periféricas, passando por toda sorte de agente independente. A cidade em si precisa ser um grande laboratório experimental dedicado a essa construção.

Por fim, precisamos juntar pontas que têm pouco contato espontâneo. As tecnologias livres e os saberes tradicionais, por exemplo. Os ativistas urbanos e as empresas locais. A agricultura familiar e as escolas públicas e particulares.

Comunidade/Rede: depois que consegui mostrar o mapa de coletivos e organizações que já participaram de reuniões da inc.ubalab, ficou um pouco mais clara a “comunidade” com a qual estamos nos relacionando. Ela é uma rede de laços fracos - no sentido de que não depende de um processo claro e explícito de afiliação. As pessoas podem participar das reuniões quando bem entenderem, podem entrar e sair do grupo de emails quando quiserem. Não são cobradas a responder aos convites.

Redes de laços fracos, apesar do nome, carregam muita potência justamente porque só se corporificam quando existe o anseio voluntário — a vontade — de participação. Comportam uma diversidade de modos, expectativas e repertórios muito maior do que redes de laços fortes, uma vez prescindem de consenso sobre a relevância de cada conexão. Se um convite não teve respostas, é porque não se mostrou relevante para aquele grupo de pessoas. A participação depende desse entendimento. O que vai interessar as pessoas e gerar mobilização e engajamento? A confiança é construída de forma gradativa e sem saltos, e justamente por isso deve ser administrada de forma delicada.

O que vai garantir a existência de uma comunidade de laços fracos é a adoção, isso sim, de um vocabulário comum. Sem jargões ou termos específicos que excluam a participação do outro, e buscando a composição de narrativas compartilhadas. Ver a si própria como uma diversidade de histórias que confluem em algum momento, e nisso encontram o comum. E fazem o comum. Por aqui, isso vai acontecer justamente nos momentos em que a inc.ubalab toma corpo, quando nos encontramos. Para a realização desses encontros, é importante que haja infraestrutura neutra, flexível, que não seja somente auditório, sala de aula ou escritório. O espaço é criado pelos presentes no momento em que ali estão. E é fundamental que o encontro seja sempre experimental, espaço intencional em branco, aberto à participação e improviso, e tolerante a redundâncias. Toda vez que alguém se apresenta novamente ao mesmo grupo, conta outra faceta de si, e a rede vai conhecendo-se a si mesma de outras formas.

Práticas/Modelos: como relatado acima, a inc.ubalab pode adotar a identidade de rede e plataforma. Assumindo que chamar-se de incubadora é mais uma questão de esperteza institucional do que adequação institucional (sim, posso assumir isso aqui porque as pessoas que interessa iludir são aquelas que não leem textos tão longos). Podemos reduzir nossas práticas ao essencial. Para manter essa construção antidisciplinar e desestruturada, precisamos de pontos de contato. Ao contrário das instituições formais, que têm estatutos e por vezes paredes, as redes só existem quando existe contato. No caso da inc.ubalab, esse contato são os encontros gerais, as reuniões de grupos de trabalho, as conversas pelo grupo de emails e os registros na wiki. Não precisamos definir de antemão muito mais do que isso: estamos afinal muito mais criando campo do que conduzindo (a) práticas hipoteticamente esperadas.

A única chave que é interessante administrar de forma um pouco mais direcionada é quando o contato se conforma em objetos de uso comum: projetos cooperativos. Um projeto então existe dentro da inc.ubalab à medida que é apresentado na estrutura compartilhada, e anunciado em reuniões ou encontros. Podemos também pensar em outros tipos de eventos ou atividades voltados não somente ao público “interno”, mas a oferecer atividades para outras audiências, como aliás é o caso do festival Tropixel. Ainda assim, esses projetos cooperativos não fazem parte estrutural da inc.ubalab em si. São na verdade iniciativas que estão no mesmo nível de participação que qualquer outra.

Sustentabilidade: aí é que o bicho pega, pra variar. Se por um lado a inc.ubalab como rede intencional não precisa de recursos externos para acontecer — umas poucas horas mensais de dedicação de alguns voluntários e parcerias com espaços que já existem fazem muita coisa -, o ecossistema claramente se beneficiaria de uma atuação focada em projetos e recursos.

Na conversa com nossos colaboradores, em um primeiro momento tentei fazer um recorte baseado na abundância e não na carência: o cenário local conta com diversas iniciativas relevantes, naquele eixo temático da inovação socioecológica. Cada uma delas tem sua própria busca de viabilidade: cursos, negócios sociais, feiras, eventos, cooperação internacional, parcerias com universidades e empresas, compensação ambiental, editais de cultura e meio ambiente. Essa é uma leitura otimista, mas passou a me parecer também um tanto cômoda.

A ausência de mecanismos inteligentes e abrangentes para a viabilização de projetos leva à necessidade frequente de que talentos da cidade tenham que deixar de lado seus próprios desejos para submeterem-se às poucas oportunidades que existem em suas áreas. Isso quando existem. É verdade que algumas iniciativas não chegam a se transformar em projetos efetivos por motivos razoáveis: não são viáveis, ou ainda não alcançaram um alinhamento entre maturidade de ideias, métodos, habilidades e contexto que os torne inevitáveis.

É fato também que o contato com grandes estruturas centralizadas de terceiros pode eventualmente levar a algum aprendizado tácito. Mas a dependência dessas estruturas leva a uma assimetria inescapável. Como garantir autonomia e interdependência para que as iniciativas possam trilhar o caminho da construção e consolidação sem congelarem ou serem assimiladas e apropriadas pelas estruturas de poder?

Precisamos sim pensar no nosso cenário sob um ponto de vista econômico, em sentido amplo. Aqueles agentes locais que têm boas ideias, força de vontade e habilidades podem se beneficiar diretamente de uma leitura sobre como transformar essas ideias em projetos nos quais os recursos circulem de forma fluida. Recursos aqui não se limitam a dinheiro: podem ser também acesso a matérias-primas, busca de conhecimentos específicos, serviços complementares como contabilidade e comunicação, canais de venda, logística, etc. Os atores locais precisam aprender a apresentar seus projetos, avaliar seus resultados, contar aquela história única na qual a missão de cada um se costura aos demais e ao contexto.

Uma vez que cada uma das iniciativas e o contexto local como um todo comecem a amadurecer esses aspectos, passaremos até mesmo a ter mais oportunidades de financiamento. Aproximar os projetos facilita a construção de uma narrativa comum, e ainda pode trazer ganhos operacionais, logísticos e de conhecimentos necessários a cada um deles.

Foram esses quatro pontos — visão, rede, práticas, sustentabilidade — que debatemos ao longo daqueles dias. A lacuna que surgiu foi justamente na última. Ainda assim, eu continuei resistindo à ideia de transformar a inc.ubalab em uma instituição formal que atue como mera captadora de recursos para projetos locais. O principal motivo para essa resistência tem a ver com a dinâmica de laços fracos dessa rede, que como falei acima considero importantíssima. Se começamos a buscar financiamento em nome da inc.ubalab, todas aquelas iniciativas locais que já têm experiência com captação podem vê-la como competidora. Além disso, surge a grande questão do modelo de governança: se os recursos são captados para a rede, qual é o mecanismo de distribuição e aplicação desses recursos? A seguir-se esse caminho, a inc.ubalab seria forçada a adotar comportamentos que não lhe são naturais, e em minha opinião sairia do processo menor do que entrou, mesmo que com um eventual acesso a recursos aqui e ali.

Na última tarde do Lab Meeting, começamos a desenhar um caminho muito interessante. Eu adoraria ter tido mais tempo para trocar impressões e experiências com os outros projetos, mas infelizmente só tivemos uma plenária, já à tardinha, na qual cada um dos oito projetos teve meros quatro minutos para se apresentar. Quem me conhece sabe que em quatro minutos eu não consigo nem dizer de onde venho, então certamente não consegui tocar em todos os pontos (veja aqui). De fato, não consegui apresentar aquele que foi o resultado concreto das conversas: um esboço de solução para nossa sustentabilidade.

Melhor assim. Enquanto escrevo esse texto, já tive a oportunidade de digerir aqueles dias de encontro, de passar alguns dias visualizando possíveis formatos de solução, de contar aos colegas de ninho e inc.ubalab sobre o encontro — em um email e duas reuniões, e de processar e desenhar um pouco mais. Vou contar abaixo o formato que vejo hoje, mas antes - para variar - preciso dar um pouco de contexto.

Na primeira reunião da inc.ubalab em março do ano passado, eu apresentei uma iniciativa que gostaria de transformar em projeto: o Prisma. O sonho era (e continua sendo) criar uma organização dinâmica que desenvolva pesquisa e ofereça ensino superior e extensão, com foco específico em inovação, sociedade e meio ambiente. A ideia ficou suspensa por enquanto (na verdade recentemente voltei a namorá-la nas horas vagas, mas isso fica pra outro texto), mas esse recorte temático já estava no meu horizonte. Alguns meses depois, em conversas com colegas de Ubatuba e outras partes, e já tentando encontrar meu caminho de crítica construtiva à “inovação cidadã”, encontrei no meio de um longo voo a construção em inglês “socio-ecological innovation” (inovação socioecológica). Foi nessa época que escrevi — em inglês e português — o texto sobre inovação socioecológica citado acima. Assim que consegui, pedi a um grande amigo que me ajudasse (minha situação financeira estava em seu pior momento) a registrar o domínio de internet sei.eco. Encontrei um jogo bem interessante aí: SEI como abreviação internacional para inovação socioecológica, mas também como o “sei” do verbo saber em português. Dá também pra brincar um pouco com os significados de “eco” — da reflexão acústica à ecologia. Mas também economia.

Naquele primeiro momento, eu imaginei que sei.eco seria uma maneira de construir soluções para projetos de inovação socioecológica. Cheguei a fazer um site e uma campanha de crowdfunding, e esta já brincava um pouco com novos formatos de financiamento: ainda estávamos naquele momento ascendente das criptomoedas, e decidi aproveitar isso propondo que a recompensa da campanha fosse em FairCoin — a criptomoeda cooperativa global promovida pela Fair.Coop, cujo nodo local de Ubatuba faz parte da inc.ubalab. Mas a falta de foco fez com que a campanha não decolasse — apesar de ter contado com honrosas e corajosas contribuições de apoiadores pioneiros (obrigado, pessoal). Afinal, hoje sei, eu não sabia muito bem o que estava propondo, nem para quem. Pensei em um sistema online de aprendizado distribuído, depois explorei o que seria um sistema de agendamento de cursos e eventos, com um pé na divulgação. Mas as coisas ficaram um tempo em suspenso, enquanto eu lidava com outras áreas da vida.

Quando, já no mês passado em Madrid, ficou mais clara a necessidade de pensar um corpo mais explicitamente focado na estruturação e viabilização de projetos de inovação socioecológica, me pareceu que sei.eco poderia ser essa identidade. Em um primeiro momento, na verdade cheguei a pensar em desenhar a inc.ubalab como um corpo que teria três pernas: a rede em si, o ninho como espaço de trabalho coletivo, e sei.eco como eixo estrutural de recursos. Mas conversando com nossos colaboradores, cheguei a duas conclusões: nem o ninho nem sei.eco devem ser partes estruturais da inc.ubalab. Devem, isso sim, organizar-se de forma autônoma e interdependente como qualquer outra iniciativa da rede — com a mesma articulação dupla entre a liberdade de cooperar quando tiverem vontade, e a mesma impossibilidade de falarem em nome da rede como um todo. E a segunda conclusão é que isso não podia ser um projeto só meu. Deveria ser construído coletivamente, com pessoas no contexto da inc.ubalab que quisessem ajudar a inventar esse corpo voltado a conceber, elaborar e estruturar projetos; captar recursos; administrar e prestar contas.

Depois de voltar, convoquei uma reunião da inc.ubalab para relatar o que vi por lá e contar sobre esses novos planos. Saímos de lá com alguns caminhos a investigar: podemos ser uma agência de projetos (um negócio social de impacto), uma cooperativa, uma associação sem fins lucrativos, um fundo de investimento em projetos socioecológicos, ou mesmo uma cooperativa de crédito. Temos também uma lista de pessoas interessadas em participar dessa construção.

Vamos em frente. Queremos criar uma organização que ajude a estruturar projetos nos quais a gente acredita muito, e buscar recursos para eles. Toda ajuda será bem-vinda.

Veja também

* Todos os projetos que participaram do LabMeeting