Os nomes dos campos

Felipe Fonseca
Jul 10, 2017 · 6 min read

À parte fazeres concretos e laços pessoais, boa parte do que eu fiz ao longo dos últimos quinze anos pode ser entendido como uma contínua dança entre a afiliação a diferentes campos de atuação e a crítica às premissas mesmas daqueles campos. Como se o que eu de fato buscava não fosse exatamente aquilo que o vocabulário do contexto permitia expressar. Vivendo o desconforto de nunca propriamente caber, nunca estar totalmente confortável com os termos que descreviam aquelas áreas.

Foi assim já nos tempos do Projeto Metá:Fora e da criação da MetaReciclagem, quando acabamos por nos associar ao universo da “inclusão digital”. Por vezes justificávamos essa opção como decorrente da falta de opção mais apropriada para descrever o diverso repertório de desejos e talentos daquelas centenas de pessoas. Mas é justo admitir que havia também uma esperteza tática. Talvez mais do que qualquer outra coisa, àquela época a inclusão digital se caracterizava por possuir um alto nível de indeterminação. Em outras palavras, era um campo ainda em desenvolvimento, no qual não havia um corpo consistente e institucionalizado de melhores práticas. Diversas abordagens estavam sendo criadas, testadas e reformuladas em diferentes partes do mundo, o tempo todo. Talvez essa abertura concreta à experimentação na inclusão digital tenha sido um atrator muito maior para aqueles grupos participantes do Metá:Fora e da MetaReciclagem do que um suposto alinhamento conceitual ou ideológico.

Quem participou daquela época, é verdade, deve lembrar do meu tantas vezes reafirmado incômodo com os termos “inclusão” e “digital” e com seu uso justaposto. Mas mesmo esse incômodo tinha espaço para existir naquele contexto relativamente aberto. Em determinado momento, a MetaReciclagem passou a ser definida como uma rede distribuída que propunha a apropriação crítica de tecnologias da informação para a transformação social. Foi uma espécie de drible verbal para podermos continuar frequentando o mundinho da inclusão digital — que à época estava em franco crescimento de visibilidade e orçamento — sem precisarmos nos submeter à aparente profissão de fé naquele campo que víamos nossos colegas e conhecidos expressarem.

Esse sensação de caminhar sobre a fina linha do paradoxo retornaria outras vezes na minha vida. Na construção e implementação da estratégia de cultura digital a partir do desejo expresso pela gestão Gil no Ministério da Cultura, por exemplo. Assim que começamos a andar, minha reclamação ali era que em algum momento futuro todos os setores da gestão cultural adotariam ferramentas digitais de comunicação em algum nível. Eu acreditava que mais adequado para descrever os grupos em torno daquela construção seria falar em “cultura aberta” do que “cultura digital”. Mas aprendi que essa escolha seria exótica demais para a compreensão da burocracia institucional.

Paradigma e sintagma. Os signos não são entendidos somente pela sua identidade — pelo que significam em si -, mas de forma igualmente importante pela relação com o universo de possibilidades que os cercam — pelo que têm de diferença em relação às suas alternativas. Não adiantaria simplesmente encontrar a descrição precisa para aquilo que estávamos buscando. Era igualmente importante pensar na sua diferença em relação a tudo que aquilo não era. E a diferença frequentemente reside num lugar além do vocabulário da institucionalidade.

Não seria razoável, assim, esperar que um Ministério de Estado conseguisse se relacionar com um corpo difuso de intenções sociopolíticas que contavam sobre futuros do comum, da esperança, dos devires múltiplos e contraditórios, da construção de outros mundos e seres, e das tecnologias que possibilitariam essa pluralidade expressar-se e se concretizar. Mas dependendo da orientação no comando, seria até possível construir dentro da instituição um alvo falso que permitisse incorporar um pouco daquele pulsante desejo por construções que precisavam ser diferentes de tudo que existia, mas ainda não tinham forma definida. E para esse fim, o “digital” se prestava muito bem.

Um dos problemas, entretanto, era que o digital era tão aberto e aparentemente inexorável que poderia abarcar tanto as possibilidades de libertação, autonomia e indeterminação que estávamos propondo, quanto seu extremo oposto. Para tentar restringir o campo, no início da plataforma Rede//Labs começamos a trabalhar com um segundo adjetivo. O alvo falso de então seria a cultura digital experimental. Experimental aqui como aquilo que não precisa necessariamente ser produtivo, ou enquadrado, ou facilmente mensurável. Como uma tentativa de manter aberta a janela para o indeterminado, que me parece ser essencial para as reinvenções que sempre são necessárias. Na pesquisa de mestrado encontrei a ideia de “espaços intencionalmente deixados em branco”, que herdou algumas dessas preocupações.

Já naqueles tempos, e também nos anos seguintes, ainda encontraria mais alguns alvos falsos. Arte eletrônica, ou arte e tecnologia, era um deles. Assim como nos casos acima, eu aceitava me relacionar com uma expressão que não tinha condições de ser acurada mas que permitia de alguma forma relacionar aquelas coisas que fazíamos por aqui com outras, no Brasil e no mundo. Foi justamente nesse contexto que esbarrei na ideia de “boundary object”. Era o título do blog, hoje desativado, da britânica Bronac Ferran. Pedi ajuda pela internet para tentar traduzir “boundary object” para português, mas não encontrei nenhuma versão que me satisfizesse (obrigado ainda assim, pessoal). De todo modo, pode ser uma maneira útil de descrever esses alvos falsos que encontrei ao longo do caminho. Expressões que significam coisas (até contraditórias) para diferentes grupos de pessoas, mas funcionam como ponto de contato entre campos distintos.

Além da arte eletrônica, foi assim também no projeto que fizemos aqui em Ubatuba. Ele poderia sim, sob algumas visões específicas, ser considerado um projeto de “ciência aberta”. Mas conseguimos construí-lo de forma que sua adequação ao conjunto esperado de temas, metodologias e vocabulário da ciência aberta nunca foi tão importante quanto sua liberdade de explorar caminhos diversos e por vezes conflitantes. Fico muito feliz com os caminhos que trilhamos e com os resultados que obtivemos.

Tudo que escrevi acima surgiu quando tentava rascunhar meu próximo texto. Decidi dividir, em vez de fazer um texto maior. A razão é que, relendo o texto até aqui, tenho a impressão de que estou muito mais me justificando do que realmente explorando, como gostaria, um tema “novo”. Mas chegarei lá, senão agora no próximo texto.

Há uns meses preparei um pequeno resumo de coisas que escrevi ao longo dos últimos anos. Chamou-se “Dos laboratórios experimentais à inovação cidadã”. Sua primeira versão saiu por encomenda do Medialab Prado, e posteriormente acabou incorporado ao Dossiê sobre Ciência Cidadã e Laboratórios Cidadãos da Liinc. A pergunta por trás: seria possível usar a “inovação cidadã” como novo receptáculo de toda a efervescência e diversidade que estavam presentes anteriormente na MetaReciclagem, na cultura digital, na ciência cidadã e outros? Tentei encontrar elementos em textos que eu mesmo havia publicado anteriormente, e deixá-los no ar, sem projetar muita esperança.

Entretanto, os mesmos meses que se passaram desde que originalmente esbocei aquele texto testemunharam também uma guinada muito grande na maneira como tenho tentado construir meus projetos. O mundo mudou, os recursos encolheram e se deslocaram, as portas mudaram, e como tantos colegas estou em busca de novos caminhos. E é nesse momento que penso em deixar de lado a desconfiança com os objetos-fronteira, para tentar pautar seu desenvolvimento. Entendo que, na “inovação cidadã”, temos um daqueles problemas comuns à tradução de termos similares. Até onde entendo, “ciudadania” no castelhano ibérico tem um significado muito distinto da “cidadania” do Brasil pós-betinho. Este adquire de certa forma um tom assistencial, como movimento de sair debaixo da terra e chegar ao nível mínimo de existência em sociedade; aquele fala mais sobre o comunitário, o participativo, aquilo que deveria ser representado no sistema democrático. Além do mais, o uso de qualquer termo exclusivamente sociopolítico me parece inadequado em um país que ainda não conseguiu conciliar as lutas sociais e a busca pela preservação de sua abundante natureza.

Daí meu próximo alvo falso ou boundary object: venho tentando trabalhar com a ideia de “inovação socioecológica”. Para recordar que não adianta simplesmente abrir espaço para a participação de parcelas maiores da população na definição os caminhos que a sociedade vai adotar. É urgente que qualquer desenvolvimento leve em conta a harmonia entre humanidade e o restante da natureza. Cheguei a aventar a adoção da forma “inovação socioambiental”, mas desisti no mês passado durante o workshop da OCSDNet no Chipre. Em inglês, socio-environmental acabou por parecer ambíguo demais, ao contrário de socioecological.

É sobre esse rumo de pesquisa aberta que escreverei o próximo texto. E esta parte fica, como comentei, fazendo às vezes de justificatica algo envergonhada (“sim, tô falando em inovação, mas tenho meus motivos”). Não prometo muitas respostas, mas vou tentar trazer referências que têm sido úteis para minhas buscas. Adoraria saber a opinião de quem teve paciência de ler até aqui. E contar com ajuda para construir nossos próximos projetos.

Felipe Fonseca

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Personal profile: https://isefeefe.me. Researcher at https://opendott.org. Living in Dundee, Scotland.

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