Soberania tecnológica para comunidades na internet

Eu tenho há tempos um interesse persistente em ferramentas e metodologias para construção e gestão de comunidades através da internet. Lá pela virada do milênio eu já testava maneiras de usar as tecnologias (então relativamente “novas”) de publicação coletiva que estavam ficando mais acessíveis, em projetos de duas empresas de educação corporativa com as quais trabalhava. Aprendi um pouco de Zope/Plone, testei um monte de scripts PHP para publicação “dinâmica” e colaborativa na web, lia tudo que encontrava sobre comunidades online. Nenhuma daquelas empresinhas se interessou muito em aprofundar esses assuntos, mas o desejo de fazer experimentos concretos (hoje em dia o pessoal fala prototipar, né?) foi fundamental para embasar o que viria a ser a minha contribuição pessoal para iniciativas futuras, principalmente aquelas surgidas a partir do projeto metá:fora.

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Foi no metá:fora que a gente de certa forma consolidou um formato potente: a combinação da lógica mais conversacional das listas de discussão por e-mail com a documentação sem estrutura predeterminada das wikis. Por alguns anos, aquela configuração pareceria juntar o melhor de dois mundos: a capacidade de construção coletiva das wikis, nas quais tudo poderia ser editado por grupos de pessoas — até mesmo a maneira de organizar e categorizar o conteúdo; e uma certa coloquialidade da lista, que por vezes parecia até linguagem oral, apesar de exigir que as pessoas soubessem ler e escrever para ganhar corpo.

Esse modelo de construção de comunidades seria replicado nas iniciativas surgidas do metá:fora como a MetaReciclagem e outras; e posteriormente inspiraria outros contextos como o grupo dos Articuladores, a rede BricoLabs, a estratégia de Cultura Digital do Ministério da Cultura, e ainda projetos como Rede//Labs e outros que surgiram e tiveram seus próprios caminhos. Não que a gente não tentasse outras configurações: vez ou outra criávamos sites baseados em Drupal (Liganois, Conversê), Wordpress-MU (blogs MetaReciclagem), Buddypress (CulturaDigital.Br), além de configurar servidores de IRC, Jabber e outros serviços mais ou menos obscuros. Mas lista+wiki pareciam uma combinação incomparável.

O formato, entretanto, começou a se esgotar à medida que os hábitos de uso da rede mudaram. A disponibilidade cada vez maior de redes wifi e de dispositivos conectados. Os sites para navegação com os dedos na tela de telefones e tablets. A chegada dos mensageiros instantâneos aos bolsos e a adoção de uma linguagem mais telegráfica inspirada por microblogs e redes sociais. Tudo isso impactou a eficácia daquele modelo. Com o tempo, o próprio e-mail passou a ser deixado de lado por grande parte dos novos usuários da internet. Pra não falar de uma dependência que acabamos adquirindo dos provedores — corporativos, proprietários, fechados — de e-mail para escapar às epidemias de SPAM.

A rede MetaReciclagem, que havia surgido naquela explosão pré-cambriana do projeto metá:fora, chegou a somar mais de 35000 mensagens de e-mail em seus primeiros oito anos de atividade. Em determinado momento, entretanto, o fato de que existia um fluxo único de conversas desequilibrou as relações. Para garantir fluência, alguma moderação se impunha, mas ela nunca era explícita. Existiam muitos filtros não-ditos: de contexto, de linguagem comum, de repertório. Em meados de 2012, uma tentativa de mapear as relações por meio de ferramentas de análise social de redes para o MutSaz, uma publicação experimental do coletivo MutGamb, acabou por esgarçar totalmente o delicado laço de confiança que existia naquela rede. O tema daquela edição do MutSaz seria profético para a MetaReciclagem: “fim do mundo”. A partir dali, a lista continuaria no ar (existe até hoje nos servidores do riseup), mas o fôlego de mediar as conversas e relações e de manter em dia a documentação desapareceria, e junto ia o sentido de comum que por um tempo ali vicejou.

Os usos já eram outros. A expectativa das pessoas com a comunicação via internet foi se modificando, e uma certa liturgia que estava presente no mundo das listas + wikis foi se mostrando problemática, elitista, lenta. Exigia um tipo de atenção, uma capacidade de concentração e uma consciência tácita dos limites e regras da comunidade que tornou-se inadequada para tempos de telas pequenas, digitação sem teclados físicos e hipersocialização. E se as wikis foram parecendo cada vez mais estáticas, as listas acabariam também perdendo o fôlego.

Tive a felicidade de compartilhar com uma alma inquieta um bom pedaço do meu trajeto formativo em ferramentas e metodologias para comunidades online. O saudoso Daniel Pádua tinha uma relação de amor e ódio com as listas e wikis. Estava sempre em busca de uma solução mais inclusiva e significativa. Mais de quinze anos atrás, concebeu ou sonhou uma interface de usuário — que às vezes chamava de “ductiles” mas acabou digerindo como “livenodes” — através da qual um usuário poderia selecionar contatos e conversar diretamente com tais contatos por texto ou enviar arquivos. Cada postagem poderia também escolher a quem queria alcançar: um usuário, um grupo ou o público. Parece óbvio pensar nesses termos hoje em dia, mas àquela época — antes de WhatsApp, Facebook ou mesmo Orkut e MySpace — esse tipo de comunicação estava longe de ser naturalizada.

Daniel partiu em sua viagem cósmica em 2009, e nunca chegou a ver (eu acho) a quantidade de coisas que surgiriam depois. Tanto no nível estrutural, com redes federadas, protocolos abertos de mensagens encriptadas e cada vez mais processamento nas telinhas carregadas nos bolsos das pessoas; quanto nos hábitos e na cultura de uso das ferramentas de comunicação. A gente tinha um passado intenso. Nas tentativas de reconstruir aquele momento inicial, eu cheguei a prototipar mais uma desejada reencarnação do metá:fora com uma instalação do red matrix chamada outrarede, mas ela nunca chegou a tocar o chão. Ao mesmo tempo, tentava construir uma plataforma online abrangente para a rede MetaReciclagem usando o Drupal, mas o processo do fim do mundo já corria em paralelo.

Acho que eu já havia desistido de qualquer solução viável para aqueles contextos quando conheci o Discourse, um software livre para a construção de comunidades de “discussões civilizadas”. À época, ele ainda não era tão fácil de instalar para quem vinha de um mundo PHP em co-hosting, e a motivação para aprender tudo de novo não foi suficiente por conta das turbulências em outros cantos. Mas mantive aquela plataforma sempre no canto do olho. Em algum momento de 2018, cheguei a tentar criar um Blueprint do Subutai para instalar de forma mais fácil o Discourse na nuvem P2P, mas havia alguns limites para rodar docker dentro dos containers e acabei deixando de lado. Mas via cada vez mais comunidades próximas adotarem o Discourse. A comunidade do GRAV, CMS que comecei a usar à época, por exemplo. Participei da comunidade internacional de hardware científico aberto como simples usuário, e gostei bastante dos recursos que o Discourse oferecia. Em algum momento, comecei a experimentar com meus clientes em consultorias de formação e educação institucional, e os resultados foram positivos.

Quando estava voltando ao Brasil após participar do GOSH, já no meio daquele período eleitoral estranho de 2018, queria começar a construir o que viria a ser a edição de 2019 do festival Tropixel. Mas não queria articular enviando emails para conhecidos, e tinha cada vez mais a impressão de que as wikis costumam ser editadas por no máximo 3 ou 4 pessoas. Decidi que faria uma experiência: criar uma instância do Discourse para articular projetos em Ubatuba, e o Tropixel seria um deles. Foi assim que surgiu o site Conversa Ubatuba, para cuja implementação contei com a parceria do Bernardo Dias da Cruz, de Ubatuba.

Nos meses seguintes, aprendi mais sobre a administração do sistema, sobre maneiras de customizar o Discourse e de provocar conversas. Senti que mexia com uma coisa importante ali: criar uma alternativa para que conversas importantes não ficassem restritas às redes proprietárias. Afinal, cada vez que um diálogo relevante acontece dentro de um grupo do Whatsapp ou Facebook, os riscos são incontáveis. Risco de censura, risco de desaparecimento, risco de escorregões de privacidade. Quem conversa nesses grupos — como eu, sem escolha, faço muitas vezes — precisa necessariamente saber que a propriedade concreta sobre essas conversas torna-se automaticamente das empresas que mantêm essas plataformas. Você só vai acessar a conversa se o Facebook quiser que ela permaneça existindo, e que você tenha acesso a ela. E isso é um risco muito grande para o futuro do conhecimento da humanidade.

Fica claro que estamos dedicando muitas horas de nossas vidas a tecer argumentos e aprimorar ideias que podem até ficar registradas por algum tempo como memória coletiva de um determinado grupo. Exceto se esses argumentos e ideias tornarem-se um incômodo, por quaisquer motivos, ao lucro ou à existência (jurídica, técnica ou de opinião pública) das empresas que a mantêm. Construir uma plataforma livre e autônoma, criada e mantida por pessoas ligadas a Ubatuba, era antes de mais nada uma iniciativa de soberania tecnológica, e isso tem muita importância.

Há poucos meses, entretanto, tive uma excelente notícia que mudaria minha vida por inteiro. Vou contar mais sobre isso em outro texto, mas resumidamente: vou passar os próximos anos imerso em uma pesquisa sobre internet das coisas, confiança, código aberto, cidades inteligentes e temas afins. Mas para isso acontecer estarei fora do país. E naturalmente, meu foco local em Ubatuba vai se dissipar. Sem mantenedores, é possível que o site conversa Ubatuba venha a sumir, a não ser que encontremos outros administradores e moderadores. Mas há alternativas, como sempre.

Corte pra outra história, que na verdade começou antes. Depois que terminamos em 2017 as atividades do projeto Ciência Aberta Ubatuba, e que fui com a Sarita ao Chipre para apresentar o projeto e o que aprendemos com ele, tentei enquadrar o tipo de coisas que me interessavam a partir daquele momento. Escrevi então um texto chamado inovação socioecológica, que ao mesmo tempo em que desviava da ideia de inovação cidadã também propunha a construção de identidade entre aquelas iniciativas transformadoras ultralocais e ainda assim hiperconectadas no mundo.

Nos anos seguintes fiquei, apesar da conjuntura desfavorável para esse tipo de busca, constituir algum arranjo que fizesse sentido para conectar as pontas da inovação socioecológica. Avancei um pouco com a inc.ubalab, tentei sem sucesso compor com sei.eco (agência) e Prisma (escola), decidimos expandir e abrir mais o ninho e outras articulações. O último episódio nesse histórico é uma construção que começa mais suave. Já tem uma natureza um pouco mais descolada do chão de Ubatuba. O nome é uma abreviação de “meio ambiente, cidadania, inovação”. MACI, ou maci.

Sim, maci é por enquanto uma instância do Discourse. Com o tempo quero evoluir de um site de conversas abertas para um ambiente de aprendizado Tupidistribuído, mas falta chão pra isso. E sim, acho que eu sempre tenho a expectativa de reencarnar os tempos de projeto metá:fora (estou até reciclando a logo criada pelo Tupi). Mas diferente da lógica de lista de discussão, o Discourse permite que múltiplas subcomunidades convivam sem invasões de espaço, cruzando-se somente quando houver vontade. E, como falei, funciona bem em telas de celular e afins.

Fica então aqui o convite pra quem quiser chegar: o site está no ar em maci.global (atualizando: maci.global foi descontinuado, mas o conteúdo migrou para https://rede.tropixel.org), aberto a quem quiser chegar para conversar sobre os diversos temas ligados a tentar construir alternativas viáveis de transformação do planeta, e pronto para abrigar comunidades colaborativas que queiram utilizar essa ferramenta para suas conversas, escapando aos ambientes proprietários corporativos e ampliando o eixo da soberania tecnológica.

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Aliás, vamos continuar essa conversa? É só entrar aqui.

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Personal profile: https://isefeefe.me. Researcher at https://opendott.org. Living in Dundee, Scotland.

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