Felipe Ramos
Sep 5, 2018 · 6 min read

Por que construímos a realidade?

Se você não gosta de profundidade, não continue a ler esse texto. Não é porque serei incisivo, mas porque ele te influenciará. O desejo por profundidade é um caminho sem volta. Uma vez que você teve contato com a profundidade que os diversos aspectos da vida podem te oferecer, poucas vezes você optará pelos padrões superficiais. No raso nadam as crianças, os maus nadadores ou iniciantes e, em matéria de vida, você já não é mais iniciante faz tempo. Um dos indicativos é que você está conseguindo ler e interpretar esse texto. Caso contrário, você estaria desviando sua atenção entre o desejo de fazer algo mais simples ou definhando frente à televisão ou computador. Mas, a sua maturidade te trouxe até aqui. Até o fim do primeiro parágrafo. E você compreende o que digo e ainda anseia por mais.

Antes de dar um passo em qualquer direção, reconheça que precisamos do desejo e da realidade. Desejo é tudo aquilo que queremos, almejamos, sonhamos ou projetamos. Realidade é tudo aquilo que está acontecendo, perto de nosso campo de percepção, relacionado ou não às nossas experiências. A realidade é percebida por nós, desde as coisas mais simples às mais elaboradas. O clima causa uma sensação na pele e nos permite descrevê-lo como frio ou quente, isso é uma realidade constatada. Em percepções mais profundas, ele impõe o que vamos vestir ou qual a melhor época para plantio ou colheita. No âmbito da arte, ele sugere até uma tendência criativa, como é o caso das quatro estações do Vivaldi ou o Winterreise do Schubert. A realidade é uma só e nossa percepção dela pode ser diferente em diversos momentos da vida. Mas, será que somos apenas seres que percebemos e somos submetidos às ações da realidade? Não exercemos nenhuma função na construção dessa realidade?

Os governantes decidem como será o modelo econômico da população, também decidem como será o sistema de saúde e transporte, entre outras coisas. Os indivíduos de uma sociedade vivem em um conflito constante defendendo diversos pontos e apontando problemas na atual realidade em que vivem. Logo, você não é agente nessa realidade, apenas reagente. Um adolescente, geralmente, vive sob um sistema gerido pelos pais. O que devem fazer, o que comem, as amizades que preserva ou o valor gasto com futilidades. Para tal adolescente, a realidade é um conceito pronto que apenas precisa ser aceito. Talvez, para você também. Por isso, repetimos para nós mesmos verdades como “A minha mãe é assim mesmo. Você precisa entendê-la e aceitá-la” ou “Eu sou impaciente. Não sei lidar com gente ignorante.” Essas verdades são especificamente absolutas, pois descrevem uma realidade que você não é capaz de mudar. Quantas verdades como essa vêm à sua memória? Sua lista daria mais de uma página?

Em contrapartida, nós estamos sempre sonhando. Principalmente no quesito de propriedades. Uma casa própria, um carro novo, uma coleção de panelas, aquela roupa que não caberia no orçamento desse mês, aquela viagem impossível à Paris com o amor da sua vida (que inclusive só você sabe quem é, mas mantém em segredo). Superficialmente, algumas pessoas só querem ter um emprego e independência financeira. Outras estão infelizes e sonham com uma realidade completamente diferente, pode ser o seu caso. Sempre separamos o que é sonho do que é realidade e, todos os dias, pessoas próximas fazem questão de nos lembrar disso. O sonho torna-se inatingível, num pedestal tão alto que é impossível alcançá-lo. A realidade é o chão que os nossos pés não conseguem se desvencilhar para bater suas asas rumo à realização dos seus desejos. Seus ímpetos ficam num vai e vem e, depois de anos, você olha para trás e vê que não realizou nada. Tudo não passava somente de sonhos inalcançáveis. Mais uma vez, a aceitação da realidade bate à sua porta e joga na sua cara que a vida é assim mesmo, nem sempre temos o que queremos. Muitos alunos me procuraram com essas questões em sua cabeça, numa grande confusão sobre como colocar seus sonhos de se tornarem artistas em ação. Entre a ação e a desistência que reside o sonho e, chega um momento em que você não aguenta mais esse ímpeto gritando por dentro.

Se você chegou até aqui, sabe que toda história tem um plot twist. Chegou a vez desse texto. As palavras contidas aqui não tem, necessariamente, uma narrativa. Mas, a grande transformação será na história de quem está lendo. Isso mesmo, na sua própria história. Seus desejos surgem por pensamento; querendo ou não, a matéria-prima do desejo é o pensamento. É por meio do pensamento que os seus desejos e sonhos se manifestam. Antoine de Saint-Exupéry teve o desejo de escrever algumas palavras e, dessa forma, deu origem ao conhecido romance de um princepezinho que vive num microplaneta com uma densidade fora do normal. Jout-jout pensou em externar suas crises e dividir com as pessoas que elas são mais normais do que parece e, assim nasceram vídeos sobre os mais diversos assuntos cotidianos, verdadeiras “vídeo-crônicas”. Todo mundo fala dos conhecidos, não é mesmo? Parece que foi tão fácil para eles. Mas, pergunte a eles se foi. Pesquise mais a fundo e, certifique-se que o desejo que eles tiveram era oculto, nenhum desejo vem em voz alta, ele se apresenta em pensamento. Você já deve ter materializado aquele desejo de comprar alguma coisa para comer naquele exato momento que você teve fome. Você já juntou dinheiro para realizar aquele sonho de investir em algo realmente caro e que valia a pena naquele momento específico da sua vida? Então, seu desejo se transformou em realidade. Não precisamos ir longe para afirmar que desejos se transformam em realidade, você deve ter algum vizinho que já obteve algum desejo que queria.

Se pensarmos por esse viés, nossa realidade é transformada pelos nossos desejos. Se você percorresse toda uma trajetória política, avançando nas posições de destaque em algum partido político e, quando chegasse ao poder tivesse o único objetivo de obter lucro financeiro pessoal, você veria a realidade de uma comunidade se transformar em desigualdade e desordem, enquanto sua vida milagrosamente desfrutaria de uma riqueza de bens e uma conta bancária de zeros infinitos. O seu desejo recebe a sua atenção, seja ele qual for. Se o seu desejo é reclamar, mais reclamações se colocarão à sua frente, pois, até o nascer do sol parecerá inoportuno para aquela manhã tão cinzenta dentro de você. Seguindo essa lógica, seus desejos impulsionam a sua realidade e influenciam na realidade dos outros. O reconhecimento disso se chama responsabilidade. O quanto você tem se responsabilizado sobre a realidade que vem criando?

O primeiro passo é gerenciar os seus pensamentos e não ser controlado por eles. Você ainda pode se desculpar, afirmando que os pensamentos surgem e você não consegue ter controle sobre eles. É aí que surge o elemento chave: a consciência. A construção da realidade é uma via de mão dupla, você influencia e sofre a influência dela. E, a cada minuto que você deixa escapar a consciência, é influenciado pelo que você não valoriza. De escapes em escapes, a realidade foi sendo construída e, sem perceber, você chegou onde chegou hoje: uma mente cheia de pensamentos indesejáveis que você não consegue controlar.

Mantenha a tranquilidade, pois você ainda tem jeito. Basta exercitar! Você não precisa resolver tudo agora. Você não instalou o caos de uma hora para a outra e não precisa se preocupar em por tudo em ordem num tempo recorde. O mais importante você já notou, a necessidade de desenvolver a consciência. Use-a para entender que tipo de pensamentos você tem, pois eles influenciarão na pessoa que você será amanhã. Você já começou a influenciar a sua realidade, isso não tem mais volta. Mas, a partir do momento que você leu essas palavras, começou a acessar a área da sua consciência. E a consciência te coloca à serviço da relação entre os seus desejos e a sua realidade.

Um mero texto, que pode estar sendo lido da tela de um dispositivo eletrônico, está começando a se tornar realidade agora. Mas, assim como a realidade é moldada por um dia após o outro, você só poderá transformá-la se exercitar esse potencial minuto a minuto. Subestimar o potencial dos nossos desejos e pensamentos é negar que somos agentes da realidade e desvalorizar sua existência. Finalizo esse texto com uma frase instigantemente dialética: Desejo a você uma realidade influente!

Felipe Ramos

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